Ttulo: O romance de Clarinha.
Autora: Odette de Saint-maurice.
Dados da Edio: Editorial Presena, Lisboa, 1980.
Coleco Gndola Juvenil, n 28.
Gnero: Romance.
Digitalizao: Ana Lagartixa.
Correco: Cristina Ferreira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: rodap.


Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.


O ROMANCE DE CLARINHA


Coleco GNDOLA JUVENIL


EDITORIAL PRESENA


Reservados todos os direitos desta edio 
Editorial Presena, Lda.
Rua Augusto Gil, 35-A - 1000 LISBOA


I

De p na estreita ponta do reduzido promontrio formado pelas rochas ao avanarem pelo mar dentro, mais vestida pelo sol do que pelo traje azul que lhe moldava as
formas elegantes, esboou alguns movimentos ginsticos, capazes de lan-la ao banho antes do tempo.
Flexvel, calcanhares unidos, peito erguido na inspirao, abriu os braos, levantou-os a toda a altura e depois inclinou o busto, o corpo, at juntar os dedos esguios
ao solo pedregoso. Outra vez erecta, tornou a dobrar-se, braos agora estendidos para os lados, levantando a perna direita  retaguarda at a colocar em posio
paralela  linha da cabea, equilibrando-se o melhor possvel na esquerda retesada e formando assim uma espcie de balana. Depois, num gesto de pueril satisfao,
deu alguns saltos que fizeram esvoaar os cabelos de tonalidades acobreadas e quedou por fim imvel, de mos poisadas nos quadris. Respirava a plenos pulmes, como
sentindo um intenso prazer em aspirar as emanaes salinas.
- Que bom! - exclamou ento, deleitada. - Isto agrada-me tanto! Que maravilha sentir-me integrada na natureza forte, indomvel! O mar... o meu amigo mar! To grande
como as minhas ambies, to vasto como os meus sonhos ilimitados!...
- e aps um arrebatado gesto para os horizontes, que no podia cingir, talvez apontando algo que jazesse invisvel, continuou a rir, quase a cantar, entre dois suspiros
de evidente satisfao: - Se a algum fosse dado contemplar-me neste momento diria perante a minha atitude "que comediante! Estar a ensaiar alguma nova pea...
a pregar aos incautos... ou  maluca?... - e de sbito um tanto enervada: -  isto! So parvos ou so maus! No percebem!... E  triste, triste, reconhecer que a
nossa sinceridade, a Verdade dos nossos pensamentos revelada em toda a sua plenitude causa normalmente uma desagradvel impresso de artifcio, por to pouco vulgar...
V l a gente, livre das brilhantes roupagens dos preconceitos, mostrar-se tal qual  a esse mundo de baixezas, de vcios, onde cada qual parece disposto a ver retratados
nos outros os prprios defeitos! - e numa repentina lembrana: - Espera... onde foi que li isto? No  original da minha cabea!... - mas logo, presa da reflexo
ntima, prosseguiu: - Mundo falso, mundo agreste, onde todos se disputam, onde todos ambicionam o prejuzo alheio em favor do seu lucro... Mundo de mentiras, invejas
e dios... Mundo que me obrigas a detestar-te porque te vou entendendo e quanto mais entendo mais detesto! Por isso te fujo e fugirei, porque tu no podes compreender-me,
porque tu no sabes acolher os meus ideais, porque tu ririas dos meus anseios, porque em mim s vs o invlucro exterior quando acima de tudo sou Alma! Por isso
te fujo e fugirei, porque em ti devo ser o que tu queres e no o que eu sou, porque tu me tornarias infeliz e aqui, sozinha, vibro  beleza que me envolve e na qual
me integro e canto e rio ou choro sem me tornar reparada ou criticada! No consigo ser-te superior porque no tenho foras para arrostar com as tuas opinies. Portanto
evito-te... e sinto-me bem! Oh! Fosse eu expressar-me junto de ti como o estou fazendo agora! De que forma olharias para mim!... E afinal... no considero nenhuma
insensatez falar comigo mesma, dizendo aos meus ouvidos aquilo que me vai c dentro...  maravilhoso pertencer ao meu verdadeiro Eu e viver com ele! Ah, sim, sim!
Muito gosto disto! - logo a seguir, como se quisesse sacudir a importuna amargura que ameaava apoderar-se dela, sacudiu a bela cabea e aprestou-se para novos movimentos
ginsticos que por certo lhe desentorpeiam corpo e esprito. Mas suspendeu-se a meio, galvanizada por uma repentina sensao de estar sendo observada. Era a certeza
de um olhar pesando sobre ela, deslizando-lhe ao longo da pele e provocando-lhe um arrepio que dir-se-ia secreto, aviso da vigilncia de que se tornara alvo. Dessa
corrente magntica, pelo sub-consciente registada com espantosa nitidez, resultou voltar-se inesperada e impulsivamente, entre confusa e inquieta, a inspeccionar
os arredores.
No lhe mentira a singular advertncia do instinto e nem teve de procurar muito para verific-lo.
A cerca de trs metros de distncia, contemplando-a, achava-se um jovem de cala branca e camisola amarela.
A primeira reaco da rapariga  desagradvel surpresa foi de clera contra o atrevido que se permitia analis-la to impertinentemente. Mas por igual sucumbida
ante a audcia que a afrontava, no teve nimo para descerrar os lbios e castigar como devia o insolente que pelos vistos se entretivera a desfrut-la. Mesclava-se-lhe
a ira de inexprimvel vergonha, talvez por ter servido de distraco ao desconhecido que entretanto permanecia sereno, como se considerasse muito natural a ousadia
de continuar fixando-a.
A verdade, porm,  que ele devia j ter notado a irritao daqueles olhos altivos, olhos de cor indefinida na sombra das pestanas enormes, que defrontavam os seus
erguidos a cavar sulcos de expressivo descontentamento na testa ampla. E ento, pretendendo com certeza dissipar-lhe o desagrado, aventurou-se a dirigir-lhe um cumprimento
banal, enquanto avanava ao seu encontro.
- Bom-dia! Passou bem?
Porque no respondeu ela, se jamais recusara a salvao fosse a quem fosse? A verdade  que tinha a lngua como que pegada ao cu da boca! E no proferiu uma palavra,
no esboou um gesto, continuando a fitar o audacioso que se autorizara surpreend-la numa crise de autenticidade.
E ele, sincero, a esforar-se por cativ-la:
- Perdoa-me se lhe disser que o amor que vota  Natureza  idntico ao que eu prprio experimento?
Mas, longe de se deixar conquistar, ela mais se distanciava nos pncaros das suspeitas. Que tipo incorrecto! Insistir em falar-lhe quando perfeitamente devia reconhecer
que a sua presena a incomodava! Poderia ainda desculpar-lhe a primitiva indelicadeza atribuindo-a a justificada curiosidade. Assim, no! Ele estava-se tornando
intolervel e pela certa no era boa pessoa... Porque, se fosse, cessaria acto contnuo a detestvel insistncia!
Mortificada, sem saber como livrar-se do intruso que parecia decidido a encetar dilogo, indiferente a que ela o animasse ou deixasse de animar, baixou o rosto,
julgando perceber que ele troava intimamente da sua desastrada atitude. Sentia-se
invadida por uma desesperada nsia de fugir, visto no poder sumir-se pelo cho abaixo...
Mas... fugir para onde? No podia alcanar o atalho sem passar rente a ele e temia que um semelhante atrevido, possivelmente capaz de tudo, lhe embargasse o caminho,
cortando-lhe a retirada.
Olhou a praia distante, com os pequenos toldos alvejando, e a grande toalha azul, deixando ver os peixes midos que a sulcavam em todas as direces, que dela a
separava. E a grande toalha azul estendida a seus ps seduzia-a intensamente, como meio de evaso em que no iria ser perseguida...
J o desconhecido, longe de poder suspeitar-lhe os pensamentos, se abeirava dela, no intuito de a persuadir a uma conversa. O bastante para a decidir, alheia a quaisquer
sensatas consideraes!
Uma reviravolta, um salto, um mergulho - pff, ff ff, ff f! - nas guas que fizeram remoinho e l mais adiante inspirando avidamente o ar bendito que lhe restitua
a vida e nadando com movimentos desordenados e rpidos que mais a cansavam do que levavam...
Do cimo do rochedo, ele via-a afastar-se, atnito daquela resoluo que no lhe fora dado prever e sorrindo... talvez daquela inesperada manifestao de selvajaria!
Mas longe estava agora a rapariga de pensar em volver os olhos para o promontoriozito; pouco lhe importava que estivesse ou no a ser desfrutada! Empolgavam uma
enorme fadiga. O esforo dispendido para ritmar os movimentos aumentava-lhe a canseira em vez de lha diminuir. E depois as guas, que vistas de cima to quietas
pareciam e na verdade se encrespavam sob o ventinho que as fustigava manso mas constante,
batiam-lhe na cara e no nariz, enchiam-lhe de zumbidos a cabea,
punham-lhe ardncias na boca, sufocando-a, roubando-lhe a respirao. A breve trecho comeou a sentir-se exausta, com dores fortes nos braos e nas pernas. No nadava,
sapateava nas ondas que a envolviam; esbracejava; debatia-se. Segredou-lhe a fora da conservao que ia soobrar e ento, desesperadamente, tentando, por um golpe
de raciocnio, empregar as ltimas energias para conseguir flutuar, lanou um brado incoerente - pois quem podia ouvi-la naquela solido marulhenta?
- Socorro! Socorro!

10


Mas no ficou sem resposta, como seria de prever. Retorquiu-lhe imediatamente uma voz sonora, uma voz que lhe extinguiu a continuao do apelo, uma voz que lhe faria
medir mais assisadamente as consequncias da sua precipitao...
- Ento que  isso?... Um momento s!... Estou a a chegar... Coragem!
Instintivamente, voltou um pouco a cabea e avistou-o cortando a gua com naturalidade idntica  de qualquer mortal cortando o ar das ruas... e vinha a falar-lhe
sem detena, no visvel intento de anim-la.
- Quando saltou para a gua, vi logo que ia haver asneira! Caiu mal, afundou-se demais e nadou com tamanha pressa que parecia estar-se treinando para a corrida dos
mil metros em crawl... - chegara j ao lado dela, tentando serenar-lhe a crescente angstia com a certeza de um apoio. -  cautela, atirei-me eu logo de seguida...
Se fosse ter a lembrana de se afogar, nunca me perdoaria. A culpa era minha... Creio que a assustei, no sei bem porqu. Seria pela cor da minha camisola? H pessoas
que embirram com o amarelo! Ou terei cara de lobisomem? - e ria com tanta simplicidade que, mau grado seu, ela sentia dissipar-se-lhe o rancor que se percebera a
votar-lhe.
Ento, para corresponder ao auxlio prestado, quis dizer alguma coisa, sem m-vontade, antes mostrando um certo interesse por ele. E entre duas goladas de gua e
dois batimentos de desequilbrio, indagou:
- Que fez  sua roupa?
O rapaz nadava agora  sua beira, pouco se movendo a fim de a acompanhar na lenta progresso.
- Ficou em cima das pedras. Depois virei busc-la. Foi uma sorte trazer o slip vestido, porque de contrrio... no sei se seria to pronto a lanar-me  gua. No
tenho jeito para terra-nova... - e mostrava uns dentes brancos e fortes no rosto moreno. - Assim foi s antecipar o banho...
Ela sorria  franqueza da expresso corts e, animada pela tranquilizadora presena, tentava aguentar-se melhor. Contudo o seu cansao no passava despercebido ao
companheiro.
- . Espere a, no se esforce mais! - disse. - Agarre-se a mim.
Ela discordou, numa derradeira tentativa para mostrar-se forte.
- Obrigada, no  preciso.

11


Mas ele, muitssimo autoritrio, falava de uma maneira que no admitia fcil rplica.
- 'Deixe-se de prospias e agarre-se. Deite a mo ao meu ombro e deixe-se rebocar.
E ela, inesperadamente submissa, obedeceu. Mas o balano da gua e os gestos desastrosos atiravam-na de encontro ao corpo dele, no a deixando seguir apenas na esteira
do nadador. Colava-se-lhe. Ento, aflitssima, vivamente incomodada, gritou:
- Oh, meu Deus! Assim no! - e em rebeldia, soltou-se, pelo que, perdendo a estabilidade, desapareceu na gua.
Um brao vigoroso e irritado trouxe-a  superfcie sem contemplaes nem etiquetas.
-  completamente doida! Quer morrer?
- Cuspinhando de olhos fechados, doridos no ardor provocado pelo sal, sentindo-se segura pelo queixo, lamuriou um protesto mais frgil - porque se sentia deveras
atrapalhada...
- Mas no posso ir encostada a si!...
Mais valera no ter descerrado as plpebras ao terminar a frase, tal foi a expresso de desdm com que defrontou nas pupilas que a flagelavam sem a mnima simpatia.
- 'Oia, menina. Neste momento no saber esquecer que sou um homem para somente recordar que no passo de um ser humano que no pode deix-la afogar-se?
O orgulho feminino, por instantes adormecido, voltou a manifestar-se, desperto pela chicotada e encabritou-se, esquivo.
- No se aflija, que nado sozinha.
Largou-a ele imediatamente, com um risinho zombeteiro.
- Nesse caso vou j para terra porque nado depressa. No pretendo
- impor-lhe a minha companhia e a comboi-la no estou disposto, porque fico gelado e no vale a pena sacrificar-me por quem no precisa de mim...
E ela, sem quebrar o tom agastado:
- Pois desaparea!
Ele deu duas braadas mais fortes.
- Boa-tarde! - e como derradeiro aviso em que se livrasse de quaisquer responsabilidades: - Olhe,  flutuar at que lhe mande um barco!
Ao v-lo afastar-se resoluto, a rapariga sentiu, por um segundo, uma louca vontade de gritar, de pedir-lhe que a levasse, fosse como fosse, porque tinha medo de
ficar ali abandonada.

12


Mas a indmita altivez amordaava-a, no a deixando de forma alguma manifestar a sua fragilidade...
Ento, conformada, alongou-se melhor, toda estendida de costas, de braos em cruz, corpo extremamente leve, abandonada ao baloio das guas. E de plpebras cerradas,
aguardou.
Tudo silncio em derredor. Apenas o murmrio doce das vagas cantando-lhe aos ouvidos misteriosas melopeias nas quais o seu esprito concentrado queria adivinhar
poticas frases de amores lendrios, amores de cavaleiras que andavam no mar  conquista da glria para dep-la como suprema oferenda aos ps da bem-amada... E na
alma romntica, embalada pela cano discreta, o fulgor de um indistinto desejo - "ser tambm a bem-amada de um moderno cavaleiro que lutasse para conquist-la!
"...

II

Do tonto divagar - iluses sem vultos, nuvens esfarrapadas no infinito de quimricos anseios - veio despert-la o barulho surdo, cadenciado, das ps cortando as
guas e a voz jovial do remador.
- Ato, menina Clarinha, naufragou?...
- Era tempo de chegar! Eu no aguentava mais!
J  sua beira o bom do Ti Jaquim, risonho entre barba e bigode de oito dias, grandes olhos afectuosos de lobo do mar afeito a mais amar a vida por mais enfrentar
a morte, na sombra rude do bon negro enterrado sobre a cabeleira hirsuta a censurava:
- Ms porque num aceitou que Sor Doitor a lebasse pr terra?... Olhe que ele  home pra rebocar duas galinhas acanto mais uma franganita cum menina! - e estendia-lhe
os braos paternais, a fim de a ajudar a subir para a aiola.
Ela quis explicar-se, protestar razes que pudessem parecer razoveis (reconhecia que fora totalmente caricata! mas mais no soube que balbuciar.
- Receei abusar da amabilidade dele!
- O velhote indignou-se.
- Cais qu! Aquilo  home s deretas, num dxa ningum smngua sem ajuda! Tamm aqui, nesta auguinha santa, no hi prigo. Mas i no outro ano, teve um sujto que
num sbia

13


nadar e quis fazer de valente... Foi o bom e o bonito! Boltou-se o charuto, o tipo andou pra  deriva... Pois antes dos banhros, j o Sor Doitor ia  busca dele!
 o que l digo! Aquilo  nome s deretas!
Instalada  r, no duro banco incmodo, a rapariga estendia-se, procurando refazer-se, aconchegada pela voz cantante e expressiva do banheiro, to engraada nos
seus tpicos comentrios. Depois,
arrancando-se ao indefinido sortilgio que a avassalava, e talvez um pouco nervosa, sorriu.
- Pacincia! Agora j no tem remdio e eu prefiro assim. Devo a vida ao Ti Jaquim!
O velhote flagelou-a com nova recriminao - vogais muito abertas, consoantes muito nasaladas:
- Mas tamm que ideia foi essa de vir a nadar de tam longe?
Clara voltou o rosto, ruborizada at s orelhas.
Afinal, verdade verdade, nesse dia apenas cometera imprudncias, imprevidncias e incoerncias... Tudo rimando e tudo certo!...
E teve de confessar:
- Sei l! Apeteceu-me!
Soou pronta rplica.
- Querem ber que no tarda a bir a nadar do farol? - e ria, mostrando os dentes sadios no rosto curtido pelos ardores de longos estios e pelos bastos invernos passados
sobre o mar.
Impulsionado pelos braos vigorosos do banheiro, o barquito deslizava rpido e acercava-se da praia.
Moda, Clara fechava os olhos, abandonada  tpida e reconfortante carcia do sol. Depois, de sbito, descerrou as plpebras e soltou uma pergunta inesperada e resoluta,
que brotava naturalmente do intenso labor do crebro excitado.
- No fim de contas, quem  essa criatura excepcional a quem o Ti Jaquim chama Doutor?
Joaquim fitou-a pasmado, tanto pelo tom agressivo como pela indagao que se lhe afigurava destituda de senso.
- Hom essa! Chamo? Chamo porque ele ! Doitor, pois!
- Formado em qu? - e sem esperar resposta, com arzinho desdenhoso: - Naturalmente em medicina! Todos os meninos bonitos usam o DR na frente do nome e so mdicos.
 vulgar!...

14


Joaquim abanava a cabea, lentamente.
- Na... Acho que  Doitor nas letras... Pio menos  o que dizem por i...
- - Hum, hum! - comentou ironicamente, como apostada em diminuir a figura que o velhote prestigiava: - Curso que d para morrer de fome...
Ti Jaquim no lhe respondeu. Primeiro por lhe parecer que a jovem banhista estava a ser muito descrente em relao a ttulos afamados nos quais ele, o pobre pescador,
via ganhos chorudos atrados pelo vocativo pomposo; segundo porque a aiola estava rente  praia e era preciso
vir-la com jeito, no fosse alguma onda traioeira apanh-la de flanco e volt-la sem contemplaes...
O filho, um rapazote esgalgado, assas indolente de maneiras e em cujo olhar nostlgico se diria gravado o perene saudosismo dos mareantes, aproximara-se para ajudar
a manobra, enquanto uma chusma de petizada, grulhenta e j maliciosa, metida na gua at  cintura, se pendurava s bordas da embarcao, chispando comentrios.
- Olha a gaja que tava a fazer-se forte! - bradava um azougado petiz de cabelos anelados.
E os outros todos, mais ou menos em coro, perguntavam-lhe "se no tinha morrido"...
- Eh, Damio!... - bradou o velho banheiro. - Anda-me di... Deita a mo  aiola e ajuda a menina a descer!
No era preciso.
Mordendo os lbios - adivinhava igual  da garotada a curiosidade das famlias pacatamente instaladas sob a proteco dos toldos! -, Clarinha saltou gil do barco.
De p, a poucos metros de distncia, apoiado a um remo que enterrara na areia, perfilava-se o moo doutor, to impassvel como se no desse pela rapariga, no a
visse e no se apercebesse de que afinal ela lhe devia agradecimentos.
E ao verificar isto mesmo, Clara foi aguilhoada por azeda lembrana que ainda mais a indisps. Agradecer-lhe?... No faltava mais nada! Pois se fora ele o responsvel
por tudo aquilo, ele e a sua incorreco! No ia perdoar-lhe o susto padecido, susto que ningum se lembraria de considerar disparatado. No podia adivinhar, naquela
solido, que ele fosse boa pessoa... se  que de facto o era!
Mas a conscincia que no fundo tinha do ridculo de quanto sucedera encolerizava-a agora no s contra ele mas tambm

15


contra os inocentes mirones que a fitavam num pasmo crescente.
Sacudiu-a, em novas ondas, o fundo orgulho. E, de cabea sobranceiramente levantada num propositado desafio, a mostrar ao pretensioso cavalheiro quanto o desprezava
e s respectivas basfias, levou caminho de forma a passar-lhe bem pela frente... Queria significar-lhe assim, em toda a sua atitude hostil, que nada, mas absolutamente
nada, a obrigaria a saud-lo!
E seguiu adiante como se ele no existisse.
O rapaz, que a viu passar, sempre muito direita, e afastar-se pelo meio das barracas, entreabriu os lbios num sorriso depreciativo, comentando a meia-voz:
- Irra! Toleirona por sete!
Mal imaginava ele a cena que se desenrolava a pouca distncia, com a toleirona.
A toleirona que, ao entrar na barraca onde guardava a roupa, mal fechara sobre si a porta de lona, acolchetando-a apressadamente, teve um impulsivo gesto, transbordante
de vergonha e desespero. Levou as mos s faces que sentia escaldantes e encontrou-as molhadas. Limpou-as afadigadamente, repetidamente, sem conseguir que as lgrimas
deixassem de correr. Sem conseguir dominar a crescente irritao que sentia contra si prpria, irritao que julgava desatinada e no lhe permitia encarar de nimo
leve o sucedido! No lhe permitia encarar de nimo leve o sucedido nem render-se  evidncia das palavras que ia resmungando.
- Que tolice!... Como se isto tivesse alguma importncia! Sempre sou muito parva!
Era uma tolice. No tinha importncia nenhuma. Estava a ser parvssima. Mas... em certas ocasies... vo l dizer  alma que escute a voz da razo!

Iii

Cabelos entrelaados e presos na nuca com dois travesses de tartaruga, trigueira sem cores falsas que lhe animassem o semblante, florida e singela no vestidinho
de tecido barato, Clarinha acenou um adeus  Me e correu ladeira abaixo, risonha e despreocupada.
Uma tarde de repouso, uma noite bem dormida e uma luminosa manh esplendidamente passada (sem avistar, nem de

16


longe, o responsvel das amarguras da vspera! haviam bastado para que nela se extinguisse todo e qualquer vestgio de mal-estar. Voltara a ser a rapariguita que
se escondia pelo meio dos penhascos como um animalzinho esquivo a quem as criaturas humanas afugentavam na sua timorata desconfiana, um animalzinho fugindo a convvios
e procurando isolar-se o mais possvel talvez para mais intensamente se sentir viver. Alis no o fazia por ndole. Era socivel e no evitaria companhias se no
receasse os conhecimentos rpidos que se s vezes evoluem para a amizade leal muitas outras quedam em banalssimas afeies sem esteios e de fceis runas, porquanto
ningum pode adivinhar o quilate da personalidade em que  primeira vista at realam encantos. Na verdade existem simpatias espontneas que se tornam sinceras e
duradouras. Maria Clara
acreditava-o. Mas intuitivamente, receava as amizades de ocasio, preferindo evit-las a correr os riscos de lhes sofrer a derrocada. Ela sabia que os afectos so
como as crianas. Nascem, avolumam-se com o tempo, com o tempo se aperfeioam e definem. Mas, como as crianas, quantas morrem antes de atingida a idade da razo!
Alis, tambm das amizades mesmo slidas, mesmo crescidas, algumas se vo desprendendo e ficando pelo caminho, quais portentosas rvores cerceadas pelas tempestades
dos invernos sucessivos. E cada uma delas, para um corao sensvel, leva ramos de lgrimas e saudades... Isto o que tornava arisca a bonita Maria Clara, a quem
bastavam os afectos possudos, nos quais sabia perfeitamente segura a f depositada. Dos novos, com seus cortejos de dvidas e decepes, temia-se. Algumas desiluses
sofrera e no queria armazenar mais. Pelo que fugia dos lugares concorridos, onde a conheciam e onde a breve trecho, merc da sua mocidade esplendorosa e do seu
feitio cativante, se tornava alvo de atenes e simpatias que frequentemente s conseguiam cans-la, por interesseiras e estorvantes. E tanto mais medo sentia pelas
simpatias fceis quanto fceis as via surgir na sua frente, quase a mendigar-lhe sorrisos. Sorrisos que nem eram propriamente pedidos a ela, mas ao seu nome em evidncia...
E era habitual! Cercavam-na, cumulavam-na de lisonjeiros cumprimentos, e a jovem Pianista, de h muito, talvez desde sempre, deles se aborrecia, graas  sadia viso
com que fora dotada pela natureza. Na realidade detestava esses louvores de compndio, louvores baseados mais na inteno do aproveitamento pessoal do que na admirao
verdadeira, essa que no

17


nasce do que se ouve dizer aos outros mas do que realmente se conhece e aprecia.
Assim, para evitar foradas convivncias e consequentes maadas, ela andara nesse ano em busca de uma praia recatada dentro dos veraneios possveis, procurando um
lugar fora das seleces mundanas onde o seu nome j resplandecente fosse grilheta a manietar-lhe os impulsos alegres com suspeitas de um exibicionismo que odiava,
ou a julg-la numa reserva destinada a evitar comentrios que a agastavam. Sem dvida que poderia, pela indiferena, tornar-se superior aos dizeres alheios, mas
contrariava-a enormemente saber que os seus mnimos actos eram observados e discutidos, o que a foraria, para de forma alguma dar nas vistas, a uma passividade
que lhe magoava o feitio exuberante.
Queria rir, correr, cantar, como outra rapariga qualquer. Que a olhassem de longe, no se importava, mas que pretendessem assenhorear-se da sua personalidade roubando-lhe
o direito de ser nova como as novas - isso no admitia!
As duas almas que dir-se-ia possuir numa espcie de desdobramento dessa to grande que a animava, apenas se manifestavam em toda a plenitude na confiana absoluta
ou no isolamento. Nos meios estranhos, mostrava-se uma criaturinha bem-educada, sorrindo a propsito e a propsito guardando a sisudez de uma verdadeira mulher...
quando na realidade a moa-menina que habitava dentro dela adorava as mais travessas brincadeiras da idade. Mas... quem tomaria a srio uma concertista que no mostrasse
compositora acertada?
Raros so os que sabem entender que a sensibilidade  tanto maior quanto mais amplamente reage  gama das harmonias da vida, quer em tom, quer em som. E Clarinha
vibrava com todas as manifestaes das formosuras da Natureza! E, para livremente, poder entregar-se - livremente e sem preocupaes - ao prazer favorito de ser
o que na verdade era, escolhera aquela praia considerada solitria, onde no a reconheceriam facilmente e onde portanto sem constrangimentos podia ser Ela, Ela com
os seus vinte anos to conscientes de quanto podiam realizar!
Acima de tudo, Maria Clara conservava-se modesta, modesta para os seus familiares, para os amigos que a cercavam, para os mais simples com quem privava, para os
que apreciava e admirava. Perante vaidosos indiferentes comportava-se de modo bem diverso! Era uma pessoa altiva, distante. E assumindo

18


uma atitude to contrria  sua ndole, bem fundo entretanto crescia nela o aborrecimento...
Clara voracima detestava passear em triunfo a Artista que em si existia e a quem bastavam os Recitais e os Concertos que iniciara aos dezassete anos, quando na
Alemanha findara o curso de piano (virtuosismo) laureada com o primeiro prmio de uma famosa Academia, Recitais e Concertos que de sobejo a impunham, provando o
seu enorme talento e granjeando inenarrveis aplausos  sua arte convicta e pessoal.
Nessas ocasies aceitava, desdobrada em emoo e interesse, os maiores cumprimentos, as ovaes delirantes, as frases de entusiasmo dos crticos mais exigentes aos
quais a revelao da juvenil Pianista libertava do mais arreigado cepticismo. E acolhia respeitadoramente a onda curiosa que a envolvia e se apoderava da sua mocidade.
Sbria e delicada, sorria a tudo e a todos. Depois, muito cansada, fechava-se no quarto e s abria a porta quando a Me vinha ameig-la como nos seus tempos de garota.
Ento distendia-se rindo de quanto lhe sucedera, falando nos prprios xitos como se fossem os de uma irmzinha estremecida. Na realidade, Clarinha no chegava a
pasmar dos elogios que recebia porquanto nela tudo surgia espontnea e verdadeiramente natural! E por isto se aprontava sem ansiedade para as suas apresentaes
em pblico. Ao enfrentar o teclado no se lembrava seno de que ia viver torrentes de harmonia, usufruindo o dom de arrastar consigo centenas de almas, suspensas
das suas execues.
Envolviam-na altas simpatias. O nome do Pai, afamado Pintor (quantas obras-primas assinadas por Alberto voracima! escudava-a como preciosa armadura, mas no alvo
proposto e conquistado era ela, s ela, quem conquistava os prprios loiros. Um dos seus mais recentes triunfos, esse que lhe trouxera lgrimas da mais pura comoo,
fora o penltimo Concerto realizado no Teatro de S. Carlos, com a colaborao de uma celebrada orquestra holandesa dirigida por um Maestro eminente. Dignara-se assistir
o Sr. Presidente da Repblica que, no final, cativado pelo talento da Artista e sabendo-a genialmente vocacionada, prometera com o seu alto patrocnio conseguir
que fosse outorgado por um importante organismo do Estado uma bolsa de estudo que lhe permitisse um estgio na principal Academia de Viena de ustria e de onde,
atingido o

19


mximo aperfeioamento, seria fcil Clara voracima habilitar-se a concorrer aos maiores concursos internacionais.
A rapariguinha quisera, presa de arroubado agradecimento, ajoelhar ante o Chefe do Estado, figura que pela sua individualidade marcante, pelas suas venerandas qualidades,
pela simpatia irradiante da palavra e da inteligente bondade, lhe inspirava a mais carinhosa venerao. Mas Sua Excelncia impedira-a do gesto expressivo e, abraando-a,
profetizara-lhe uma carreira belssima.
Apercebendo-se da vertiginosa ascenso de Clarinha, havia quem a julgasse protegidssima, quem a supusesse feita pela publicidade, quem lhe atribusse montes de
toleimas... Os ntimos, esses no tinham ideias erradas acerca dela. E tanto reconheciam a grande Artista na menina bem-educada que para todos sabia ser amvel como
nessa mocita de cabelos acobreados que ia agora ali a correr, ladeira abaixo, contente e despreocupada...
E que feliz ela nesse momento de facto se sentia!
O cu era um manto tingido em diluda anilina azul. O ar estava puro. O sol, descendo para o ocaso, alagava de cores fantasistas a linha do horizonte, brio de doura
como pginas de Chopin...
E ela impregnava-se dos ritmos e das sonoridades que a envolviam em sentimentos incomparveis de paz e de bem-estar.
A maravilhosa orquestra da Natureza inebriava-a com as suas deslumbrantes execues.  que at nos rostos glabros, rudes, dos valorosos pescadores aos quais se tornara
familiar o cntico das ondas bravias, amigas da arte do grande Wagner, Clarinha sabia encontrar o expressivo ressoar das poderosas foras da criao.
E presa de entusiasmo, satisfeita de se integrar nesse ambiente que a seduzia, tinha vontade de erguer a voz, cantando um vitorioso hino de juventude por cima do
conjunto spero do falar das gentes unido ao ribombar contnuo do oceano. Mas calava o impulso, risonha olhando para tudo ver e para de tudo se agradar.
Em breve foi integrada no aglomerado dos que se apinhavam  chegada do peixe - uns curiosos de saberem se havia fartura, outros negociantes que vinham compr-lo
tendo deixado no largo prximo os grandes caminhes onde depois levariam, empilhada em caixotes, a fauna saborosa que abasteceria os mercados das cidades e das povoaes
limtrofes. Havia

20


tambm humildes compradores (fornecedores das aldeias vizinhas) cujo nico meio de transporte era um pacfico burrico que ao lado do amo se esfregava na areia, regaladamente,
em gozo da momentnea folga.
Um destes animais arrancou cintilaes de surpresa aos olhos de Maria Clara, que seguia observando o meio com esprito sagaz de analista e apreciadora. Tratava-se
de um asno cinzento, gordo e luzidio, que tasquinhava carapaus com prazer visvel e idntico quele com que daria cabo de algum molho de cenouras, talvez intimamente
filosofando, enquanto pachorrento abanava as orelhas ponteagudas, sobre o imenso gosto de encher o estmago...
Por aqui e por alm havia grupos de mulheres, saia de cima arregaada at ao ventre, discutindo umas a abundncia de caracis que invadiam os campos e outras a carestia
da vida, ao lado das velhotas que abriam os tabuleiros de doces baratos  cobia dos garotos que iam pedinchando uns tostes para contentarem a gula.
Sentados no cho,  distncia, os pescadores conversavam na sua fala gutural emitida entredentes, veloz como quem no pode desperdiar tempo, difcil de perceber
para os intrusos... E os intrusos (banhistas indiscretos) misturavam-se a toda aquela multido atravs da qual passavam, com aspecto sobranceiro, dois guardas que
fiscalizavam o peixe.
Em baixo, rente ao mar, alinhavam-se as embarcaes que os homens despejavam, arrastando pela praia as fitas delgadas e compridas dos peixes-espadas que depunham
na areia em extensa fila, perto de um barbudo que fazia os montculos estreitos e alongados sobre os quais seriam estendidas as pescadas.
Havia abundncia de gorazes e de reluzentes sardas. E em enormes caixotes torciam-se os linguados.
Safios enormes, ao lado de uma toninha arpoada, alvejavam. E duas lagostas agitavam-se ao lado de uma santola, numa ceira com meia-dzia de pargos.
 roda e pelo meio do povolu continuavam girando os guardas-fiscais, atentos a que todas as legalidades se cumprissem.
Maria Clara, vagarosa, seguia vendo, ouvindo e tudo apreciando, encantada com a rica variedade de tipos e costumes com que defrontava.

21


Abeirou-se por fim do monte das pescadas, curvou-se, pegou numa
tomando-lhe o peso e procurando descortinar o dono.
-  acoli o do bon preto... - elucidou-a um rapazelho que andava a estender peixes-espadas.
Agradecida a indicao, acercou-se do velhote rubicundo que cofiava a barba negligentemente, em vaga monotonia, e dirigiu-se-lhe com o melhor dos sorrisos.
- Senhor Pescador, vende-me esta pescada?
O homem volveu-lhe um distrado olhar, meneando a cabea.
- S ca licena do guarda. - fora da lota no podia ser de outra forma.
- Eu vou pedir.
Voltou triunfante, com a permisso concedida.
- Quero a que escolhi.
O Pescador pegou no belo peixe, sopesando-o atento: - Quatro notas.
- De quanto?
- De cem, ora no h! -'Nada menos?
- Pegue ou largue.
Era boa, mas no barata. E Clarinha esboou uma careta... Diacho! O velho tinha palavra de rei... Recebera porm ordens expressas e devia
cumpri-las. A Me dissera "quero uma pescada, mas Pescada!" - e acentuara - "se for preciso paga mais caro, mas compra capazmente"...
Sendo assim, pronto! Resolvendo, no transgredia as ordens, O dinheiro entregue, o troco de quinhentos escudos arrecadado e a pescada cautelosamente segura pela
cabea com as pontas dos dedos...
Afastou-se do aglomerado do povo, ergueu o rosto para a muralha de onde Helena ficara contemplando o evoluir da filha, e mostrou-lhe, radiante, a compra efectuada.
- Chega, Me?
Mas de sbito, sem que reflectisse, sem que raciocinasse, sem que o quisesse ou soubesse porqu, a alegria despreocupada abandonou-a como iluso irremediavelmente
desfeita. E isto porque no mesmo olhar abarcara, a pouca distncia da Me, o sorriso trocista, de certo veraneante que to antiptico se lhe tornara...

22


IV

S depois de haver pesquisado a praia de ponta a ponta e de se assegurar de que no andava por ali, em situao de lhe espiar os movimentos, o importuno cuja presena
de to estranha forma a incomodava, se decidiu a deixar cair o roupo, pudicamente envergado, e a meter um p na gua.
com gesto infantil, arrepiando-se, levou a mo  boca e recuou com um "ui! ".
A poucos passos dela, um tipo baixo, de culos, cabelo resguardado por uma touca verde - o que o distinguia dos demais rapazes - observando-lhe o manejo permitiu-se,
com a liberdade concedida pelo meio, dirigir-lhe a palavra. Muito timidamente, alis. Numa pergunta hiper-banal.
- Est gelada, no est?
Certamente porque no fora apanhada em flagrante delito de sentimentalidade, como dois dias antes, Clarinha no mostrou o ar agressivo que assumira para com o embirrento
espectador dos seus exerccios e dos seus desabafos. E mirando o rosto engraado sob a estranha frase, respondeu, bem-disposta como geralmente andava,  indagao
inofensiva:
- O sol  que est muito quente e torna a transio desagradvel, no acha?
O desconhecido meneou a cabea e, aproximando-se um pouco, sentenciou:
- V. Ex. devia lanar-se de repente, sabe? Custa menos! Devagarinho, o frio parece que nos chega  alma.
Clarinha volveu-lhe uma curiosa olhadela, divertida com o tom cerimonioso, completamente desusado, em que ele se lhe dirigia. Mas tornada afoita pela delicadeza
do rapaz, foi sincera, justificando-se.
- 'Tenho medo de entrar de repente! No sei mergulhar e atrapalho-me.
- Aqui no h perigo! Temos p at bastante longe. - e com uma mesura, de cmico efeito dentro da gua que subia de mansinho a alagar as sombras de ambos, recortadas
na areia: - V. Ex. devia treinar-se na natao!
A rapariga no se ofendeu com a insinuao, embora compreendesse que esta aludia discretamente - muito discretamente, ao seu recente "naufrgio". E respondeu sem
rodeios, mostrando que o entendera e aproveitando o ensejo para desmistificar

23


o acontecimento que a tornara alvo das atenes que tanto a contrariavam:
- " certo! Fiz uma figura ridiculssima, anteontem. Julguei-me forte... e soobrei!
Dir-se-ia que o mancebo no desejava prolongar aquela evocao, como se adivinhasse o quanto encerrava de desagradvel. E assim, sem se demorar no assunto, limitou-se
a declarar:
- No admira! Est a aprender sozinha, sem orientao... E todos ns, aqui na praia, temos seguido com bastante interesse a forma como V. Ex. faz progressos!
Abrindo uns grandes olhos de espanto, Maria Clara encarou-o.
- Que diz? - indagou, estupefacta. - Ento... observam--me? Tanto se importam comigo?
Respondeu-lhe uma frase to correcta como ambgua.
- 'A curiosidade  um defeito muito generalizado... - e acrescentou: - Espero que no se ofenda!...
Tinham avanado na gua e Clarinha, de rosto ligeiramente contrado, principiou nadando, seguida pelo inesperado companheiro que, primeiro algo receoso, depois mais
 vontade por se reconhecer atendido, principiou a dar-lhe algumas indicaes cordatamente aceites e seguidas pela rapariga, que lhes reconhecia a justeza.
- No dobre tanto os dedos... nem os abra... Isso! Assim custa-lhe menos a cortar a gua. Curve os braos e no os levante to alto... E no se precipite!... No
se precipite nunca! Mais seco o golpe das pernas... No, no faa os movimentos to rpidos! Isso, muito bem... muito bem! E agora respire normalmente. Endireite
o corpo... no deixe as pernas obliquarem... V!... Certo! Encolhe, estica, encolhe estica... Exactamente! Ora v? V como vai bem?...
Obedecendo aos conselhos, Clarinha ia adquirindo -vontade e achava-se muito melhor e menos cansada ao executar os movimentos de acordo com as indicaes que lhe
corrigiam as naturais deficincias. Ai! Se quisera aprender a nadar em criana, no teria feito a extica figura de
pseudo-afogada... Mas sempre o frio a det-la, a embara-la... Enfim, pacincia! J no havia remdio! E agora, na primeira vez em que o Dr. Salva-Vidas, (este
o nome com que, inesperadamente, dera por si a designar, esse que no esquecia) ali tomasse banho,

24


estaria apta a mostrar-lhe que tambm sabia aguentar-se nas guas...
A inteligncia de Maria Clara auxiliava-a a aperfeioar a execuo dos ensinamentos colhidos. E, de facto, adiantava-se com certa rapidez e muito mais facilmente
do que at ento.
A seu lado, sempre obsequioso, o rapaz da touca ia-lhe anotando os progressos. E, ao aproximarem-se de um barquito ancorado, advertiu-a de que seria conveniente
descansarem um pouco.
Maria Clara concordou. E agarrada  borda da embarcao, corpo baloiando na suave ondulao do mar, olhou a praia pela primeira vez depois que se entregara  sua
aprendizagem. Admirada, no conteve uma exclamao:
- Oh! Estamos to longe!
A seu lado, o improvisado Professor ria, era amvel.
- V. Ex. nada to sem esforo!  imensamente habilidosa! Tambm no admira. Tudo se deve esperar de uma pessoa de talento!
S ento a rapariga encarou, atenta, a fisionomia do companheiro, a quem at a mais ouvira do que olhara. E contemplou com sbita malcia, os olhos pequeninos que
a divisavam por detrs das lentes molhadas - um conjunto assaz cmico... E riu tambm, divertida tanto pelo reparo como pela elogiosa frase escutada.
- Mas quem lhe disse que eu sou uma pessoa de talento?
- ...  uma coisa que se v!
- Clarinha no respondeu.
Gozava uma sensao de bem-estar inefvel, deliciosa. Estava vivendo com intensidade o prazer de ser nova, de ser bela, de parecer talentosa e, em especial, o prazer
de se entregar  carcia da gua a que o seu corpo se abandonava confiante. Silenciosa, abstraa de tudo, esquecia o prprio companheiro, algo distanciado mas tambm
suspenso do barco e que, ao
v-la prolongar aquele mutismo tratou de se fazer lembrado, arrancando-a ao entorpecimento que se esculpia na expresso do rosto sereno. E f-lo com uma pergunta
banal, mas imperiosa.
- Minha senhora, desculpe-me a indiscrio. Mas... como se chama?
Maria Clara, de pronto desperta, soltou um suspiro, de pesar pelo encantamento quebrado e de desconfiana. Porque razo procurava ele saber-lhe o nome? Que interesse
podia haver

25


num apelido, quando a criatura em si nos defronta, quando se vibra na exuberncia alegre da fuga aos estafados costumes da sociedade?
Esteve para se calar, ou para mentir. Mas pareceu-lhe intil
o desvio. Ningum deve renegar a marca que o Destino lhe aps. Alis. Seria aquela uma curiosidade inocente? Contudo, na inteno de no expressar to completamente
o seu nome bem conhecido - para se esquivar ao que mais andava evitando (mais vale prevenir do que remediar. ) - declinou por extenso a identidade, menos divulgada.
- Sou Maria Clara de Castro Brtolo voraCima. - voracima! voracima! Apelido por demais raro para passar despercebido! E entre duas exclamaes triunfantes, o
mancebo respondeu-lhe com a sntese do seu nome, nome de cartaz, nome consagrado.
- Oh, ah! Pois claro!  Clara voracima No nos enganmos!
Num gesto inconsciente e alheada do frgil apoio que a protegia das guas, sempre dispostas a engolir incautos, a rapariga abriu as mos, mergulhou, voltou a participar
do debate, movendo-se e equilibrando-se por fim, boiando na gua que bebera, enquanto mortificada se queixava:
- Oh, Cus! Tudo se sabe! E quando eu tanto queria passar despercebida!
O mancebo, cujo auxlio pronto no fora necessrio, inclinava o rosto para ela, atencioso e humilde.
- Porqu, minha senhora?
Clarinha foi franca, desabafou.
- Porque farta de salamaleques ando eu! Quando sabem quem sou no me largam mais. Analisam-me os gestos, espiam-me as aces, comentam-me como se eu fosse um bicho
raro, e perco todo o meu -vontade! Consequentemente, passo a viver como num palco, tenho de manter a reserva imposta pelo facto de nos encontrarmos em exposio.
Preciso de me contrariar de me tornar menos expansiva, de representar, em suma, mascarando de circunspeco a minha alegria para que amanh no seja prejudicada
com esta frase: qu? uma Pianista? Uma garota que vive s corridinhas? - e com desespero - Confesse que foi pouca sorte.
Haviam recomeado a nadar, agora na direo de terra. E, como se no tomasse muito a srio o aborrecimento assim

26


demonstrado, antes o considerasse espirituoso gracejo, o interlocutor mostrava-se prazenteiro.
- Oh, Sr Dona Clarinha! Mas creia que a sua alegre mocidade apenas inspira simpatia! No imagina como a todos nos fascina com a sua maneira de rir, to espontnea...
- Ai de mim! - gemeu Maria Clara. - Doravante serei mais comedida! - e comicamente trgica: - Mataram-me! - depois, inquiriu: - Por favor... quem lhes disse que
eu era... eu, Sim, porque voc j sabia...
- Ora... V. Ex. atrai as atenes gerais!... - e como visse que se enrugavam as sobrancelhas da nadadora, acrescentou apressadamente: - Perdoe-me que lho diga e
acredite que o fao sem intuitos galanteadores, mas a sua beleza, a sua graa isolada, acorrentam todos os olhares... S h trs dias, porm, um rapaz irmo de uma
senhora que se encontra num toldo pegado ao meu nos disse, ao v-la atravessar a praia "sabem quem ali vai? Clarinha voracima! ". Ningum podia crer, evidentemente!
No a conhecamos seno de nome e... e...
- A est a razo do que lhe afirmei h pouco! Custava-lhes a ligar o nome  pessoa! Achavam-me nova e descontrada demais...
- No, no, no  bem isso!... Simplesmente nos parecia um grande, um extraordinrio favor da Providncia! E procurmos a certeza!
Maria Clara olhou-o de soslaio. Mau! J comeava?... E, num tom reservado, aps meia-dzia de braadas, indagou:
- Que obtiveram como...
- Por intermdio do Director do Jornal c da terra que tambm a reconheceu e vai at publicar uma notcia referente a V. Ex....
Maria Clara sufocava.
- Oh! Que publicidade!
Alargando mais o sorriso, o rapaz continuou:
- E foi ento que acreditmos no tal favor da Providncia! V. Ex. desculpar-me-?...  uma grande ousadia! Mas o meu grupo decidiu abordar V. Ex., no s com o
desejo de a conhecer mas tambm para lhe solicitar um obsquio... E encarregaram-me de lhe falar...
com expressivo desalento, Maria Clara murmurou:
- E eu julgando que desinteressadamente viera corrigir as minhas deficincias natatrias!...
O nadador embaraou-se, gaguejou.

27


- Oh, peo-lhe mil desculpas! Eu fui sincero... porm na verdade tambm no tinha outra maneira de me aproximar...
A Artista, procurando pr-se de p e encontrando areia onde firmar-se, comeou a andar na posio vertical e condoeu-se de tanta atrapalhao.
- Muito bem, senhor... - e relanceou-lhe um olhar que o convidava a tambm declinar a identidade, o que ele fez imediatamente.
- Octvio dos Santos Labercinho. Sou alentejano.
- Muito bem, Labercinho, desculpo-o, e no vale a pena tamanha perturbao! Simplesmente... sou a dizer-lhe que no vejo em que possa tornar-me til ao seu grupo!
Octvio Labercinho, que a secundara na verticalidade, inclinou-se com uma expresso to atarantada que Clarinha desatou a rir.
- Minha senhora... se V. Ex. me autoriza a revelar o que pretendemos da sua bondade...
Ela interrompeu-o.
- Pelo amor de Deus, no use de tanta cerimnia! Ora olhe para mim!... - e muito sria: - A minha idade infunde assim tanto respeito? Saiba que completei h pouco
vinte anos!... E gosto que me falem como se fala s raparigas! Trate-me como trata as outras, ouve, Labercinho?
Labercinho fez nova mesura.
- 'No entanto...  diferente!... V. Ex.  uma ilustre menina com quem muito nos honra conviver!
Ligeira expresso de enfado ensombrou a fisionomia de Clarinha, uma expresso que dir-se-ia traduzir: "v como eu tinha razo em temer que me conhecessem? Tornam-se
maadores, quase todos,  fora de pretenderem ser atenciosos...". Contudo os lbios apenas articularam um:
- E depois?
O tom e a interrupo mostraram claramente a Octvio Labercinho que mais valia abandonar os cumprimentos e entrar no assunto. Ela voltara a enrugar as sobrancelhas...
Prosseguiu ento (e embora incapaz de modificar o tom formal), enquanto os dois continuavam a avanar, j completamente fora de gua:
-  o seguinte, minha senhora. Costumamos realizar todos os anos uma festa de beneficncia a favor dos rfos dos Pescadores, festa para a qual pedimos e obtemos
o concurso de generosos Artistas. Vamos levar essa festa a efeito dentro de

28


semanas. E seria para ns um extremo benefcio se V. Ex. se dignasse dar-nos a sua preciosa colaborao... - e aparando o olhar contrafeito de Maria Clara, encadeou
muito depressa:
- Oh, no pedimos muito... um s trecho que tocasse!... O seu nome no programa garantir-nos-ia a casa cheia! E as pobres crianas mais lucrariam...
Maria Clara sentiu que a ltima frase pulverizava o edifcio das recusas. Tratava-se de uma festa a favor dos que precisavam! E nunca a Pianista se reconheceria
o direito de negar o seu auxlio aos que dele pudessem colher benesses. No havia nenhuma espcie de vaidade, de ostentatrio altrusmo, nessa forma de pensar, apenas
o gosto da solidariedade e o amor ao prximo. Fora sempre assim! Convite de outra forma esboado seria infalivelmente repelido! Mas dir-se-ia que Labercinho adivinhara
o
"abre-te, Ssamo" para a sua aquiescncia...
Acederia, portanto, embora quisesse e estivesse decidida a somente descansar e to cedo no desejasse enfrentar o pblico.
E Clarinha quebrou enfim o silncio que mantinha Octvio Labercinho em grande ansiedade, sem ousar quebrar-lhe a visvel meditao.
- " Seja, Labercinho. Contem comigo.
Na sua alegria, o "professor de natao" parecia querer ajoelhar na orla da praia.
- Oh, minha senhora! V. Ex.  de uma bondade! Muito obrigado! Os meus amigos vo ficar radiantes. E V. Ex. permite que lhos apresente, no  verdade? Ho-de querer
todos exprimir-lhe a sua gratido!...
Contrariada ante a ideia de ver rompida a barreira levantada entre si e os vizinhos, a rapariga protestou:
- No, no!... - mas para adoar a negativa que parecia desconsolar o rapaz: - Por ora no... Bem v! Gosto muito de andar s... no desejo ser forada a nenhuma
convivncia...
O rosto magro de Octvio exprimiu certo desalento, logo atenuado pela satisfao do triunfo conseguido.
- 'Minha senhora... V. Ex. manda! A sua presena a todos encantaria... mas V. Ex. dispe! No entanto no posso deixar de lhe oferecer, pondo-o s suas ordens,
o modesto piano do nosso Grmio. Querer talvez experiment-lo... possivelmente tocar um pouco... Os Artistas no gostam de estar privados muito tempo do exerccio
da sua arte...
Era verdade e Maria Clara reconhecia-o bem, porque j

29


sentia saudades do teclado submisso e obediente sob os seus dedos geis... Estava aguardando que o Pai conseguisse alugar-lhe um Piano de estudo, que ainda no aparecera,
(tornava-se invivel trazer na bagagem de Vero o seu belo piano de cauda... Por isso a tentao engrandecia a oferta...
Uma ltima reserva impediu-a contudo de logo aceitar a amabilidade.
- Mas o Grmio  frequentado... no poderei estudar  vontade!...
- Depende da hora, minha senhora, depende da hora! Perto do jantar, por exemplo, aquilo fica deserto. V. Ex. manda conforme lhe convier...
Maria Clara anuiu por fim, com evidente satisfao: - Nesse caso... agradeo-lhe muito! A pelas sete da tarde...
- Quando quiser!
- Ento, antes do jantar, vou at l. - e sorrindo: - Confesso a falta do piano... mas ainda no descobrimos quem possa alugar-nos um! Talvez o Labercinho tenha
facilidade e possa indicar algum...
- Alugar um piano Mas, por Deus, minha senhora, para qu? O do Grmio est sempre ao dispor de V. Ex., inteiramente s suas ordens, e temos imenso prazer em que
se digne aceitar a nossa humilde colaborao!
Ento Clarinha estendeu-lhe a mo delgada, de veias azuis sob a pele que o sol mal doirara e j seca pelo ar morno, que Octvio apertou alvoroado. E disse:
- Labercinho, fico-lhe muito obrigada pela ateno mas peo-lhe que se resolva de vez a abolir esse detestvel V. Ex. com que me trata...
- Mas ento... ento... como hei-de...
- Como h-de... Sou Clarinha, pois no sabe?
O mancebo, de vivo contentamento, corou. Clarinha! Ia poder chamar Clarinha  insigne Artista! Que honra! Como os outros iriam admir-lo... e talvez invej-lo! Porque
Clarinha era tambm e alm de tudo uma lindssima rapariga...
- Seja... Sr... Clarinha! - e dobrou-se em dois, noutra reverncia. E porque se dobrou em dois no pde ver o sorriso divertido que entreabrira os lbios femininos.
Quando se endireitou com um suspiro feliz, j Clarinha ia distante, pelo meio dos toldos.

30


E ele empertigou a silhueta franzina que dir-se-ia ter crescido pelo menos uns cinco centmetros...

V

Devagar, pisando com segurana, subiu os degraus que levavam ao palco, encostou-se ao piano e circunvagou pela sala o olhar pesado de ntimas reflexes.
Quantas vezes - quantas! - e em que diversidade de circunstncias ela se vira assim, mos no teclado branco, contemplando maior ou menor multido, em sbito nervosismo,
em fugaz excitao, sentindo-se diminuir e quase fraquejar ante as centenas ou milhares de pupilas que a fitavam para depois esquecer tudo - exterior, assistncia,
mundo! - ao dedilhar o instrumento querido, a alma embalada pelo ritmo apaixonado da sita msica, da msica passada ou recriada pelas fulguraes do seu talento!
E no entanto sofria  ideia de que, antes e depois de cada execuo, devia encarar toda aquela gente primeiro desconfiada e depois rompendo em aplausos delirantes
que iam envolv-la na carcia longa de uma admirao sem limites! No eram esses, porm, os instantes com mais fervor apreciados. O xito alcanado, a forma segura
e inconfundvel como desfazia naturalmente as reservas iniciais, no a inebriavam; tampouco a consagrao pblica a sacudia em frmitos de orgulho. Perante a revoada
de palmas que lhe sublinhava as interpretaes, quedava como que espantada e quisera, mal acabava de tocar, sumir-se para alm dos reposteiros...
Mas enquanto imprimia s teclas o movimento fantstico da orgia dos sons, numa exuberante riqueza de tonalidades e expresses, o seu -vontade era completo, pois
se alheava de quanto no fosse a harmonia em que se arroubava num domnio raro, numa conscincia espantosa do significado devido a cada nota. S tinha dificuldade
em entrar e sair do palco e em receber as ovaes que confundiam!
Porque na verdade era delicioso - e coisa alguma podia haver melhor! - sentir associadas ao prprio encantamento, comungando consigo na embriaguez das simpatias,
ardendo no mesmo ideal, tantas e tantas almas...
E as melodias que a ligavam a quantos a ouviam formavam

31


um lao to fascinador que, graas a ele, Clarinha podia depois e sem vacilao suportar os instantes de contrariado enleio.
Sabia que servia a Arte interpretando-a publicamente, reconciliando com ela muitos espritos foragidos. Procurava humanizar as suas interpretaes, dar-lhes sempre
mais colorido, polariz-las, lev-las a todos os entendimentos. E a sua maior alegria encerrava-se, por isso mesmo, nos Recitais pela Rdio! Durante eles, milhares
de pessoas - porque no milhes, se a Rdio  Universal? - inteiramente desconhecidas, escutavam-na sem a verem, e tudo nela se alava feito som, em frases ternas
e expresses romnticas que iam espalhar-se pelos coraes dos que absorviam os cnticos despertos sob o imprio de uns dedos espirituais...
Vendo-a de cabea baixa, pensativa contemplando a sala vazia Octvio Labercinho, que solcito se apressara em abrir janelas e luzes, sup-la medindo o aspecto geral
do salo e dirigiu-se-lhe, inquieto.
- Acha isto muito pobrezinho, no ?
Arrancada  abstraco em que mergulhara e temendo haver sido indelicada com o seu prolongado silncio, Maria Clara retorquiu precipitadamente:
- De forma alguma, no pense tal! Pelo contrrio! Nunca julguei que numa terra to pequena pudesse haver uma Associao montada como esta!
Labercinho sorriu penhorado, envaidecido.
- Ainda bem que no lhe desagrada! Sabe como conseguimos arranjar isto? Graas a meia-dzia de amigos sinceros que nos do todo o seu apoio! E se no nos faltar
a ajuda deles, esperamos tornar tudo ainda melhor! - e esticava o pescoo acima da base do estrado, engrossando a voz dbil, de timbre agudo, que fazia eco na sala
vazia.
Maria Clara, rindo, comentou:
- Mais e melhor, no  assim? Mas deve ter cuidado! s vezes a ambio acaba entravando-nos os passos. Por mim prefiro o "muito bom" em aces do que o "ptimo"
em projectos!...  a minha traduo do provrbio francs "l meilleur est l'ennemi du bien"...
Logo se arrependeu da citao, receando que Labercinho a julgasse pedante, a ela que detestava alardear cultura de almanaque. E
inclinando-se imediatamente para o instrumento que parecia esper-la ansioso, declarou, sem aguardar resposta:
- vou tocar um bocadinho.

32


Afastou o banco, de assento redondo, desandando-o para o nivelar at  altura conveniente, sentou-se e dedilhou o teclado de ls a ls em fogosa escala de terceiras
cromticas. A seguir, brandamente, suavissimamente, enternecidamente, olvidando tudo o que no fosse a msica, a sua grande companheira, a sua dilecta amiga, principiou
tocando. E no ar sereno ergueu-se a melodia esfumada, dolorosa, lembrando recolhida prece, da Sonata ao Luar.
Inclinada para diante, de rosto pendido e olhar perdido em horizontes ntimos, talvez seguindo a trajectria nostlgica dos sons, a sua figurinha gentil perdia contornos,
como que se dilua num monumento de sonho. Desaparecera a mulher. Ficara a alma dominando o conjunto num halo sublime.
Coisa alguma, naquela execuo extraordinria, podia deixar indiferentes os que no peito conservam imorredoiras as hastes da sensibilidade. Comovia e empolgava,
transmitindo intactas as vibraes experimentadas, como se dela emanassem fluidos magnticos que tudo fossem conquistar.
A sala deserta encheu-se de murmrios, de confisses. Era como se, avassalando-o, pairasse agora no lugar modesto o esprito do grande Beethoven, chorando agonias
de um amor despedaado.
Artista genuna, Clara voracima transformava as harmonias em pinceladas de uma tela magnfica onde os mais esquivos pormenores escorriam beleza.
E a Pianista, desprendendo-se, alheando-se dos possveis egosmos, ia dar-se a quantos desejassem purificar-se no culto ao supremo Criador das maravilhas da Vida.
Terminado que foi o Adgio da Sonata, humano na sua transcendncia, quedou a jovem um momento como que fatigada. Na verdade, absorvida pelo cntico divinal, prolongava
os segundos inefveis, prolongava-os liberta de si prpria, uma vez que nada a apressava, que nada a chamava ao presente.
De facto, em volta dela reinava profundo silncio. Na rua, apenas a voz cristalina de um garoto chamando outro.
E a Artista no se constrangeu. Passou as mos pelas faces, vagarosamente, como se nelas houvesse lgrimas nascidas da emoo. E talvez porque o esprito vibrtil
lhe pedisse aps a tristeza a alegria, aps o recolhimento a sumptuosidade das grandes sonoridades, atacou, plena de maestria, a Rapsdia Hngara N 8 de Liszt,
obra de augusta amplitude de rendilhados, de magnficos aparatos, de ogivas, de capitis, que ora

33


se expande em tmidas observaes, ora grita fantasias de mpeto e revolta, ora canta hinos de estonteante jbilo. E sob as mos que a faziam reviver sem dificuldades,
sem hesitaes, sem receios, ela, a Rapsdia, alastrava no espao livre.
Findo o trecho, sem se deter, Clarinha iniciou uma dana alegre e festiva, um rodopio bem portugus onde havia sinos de aleluia e gargalhadas de moas bonitas -
msica por ela meses antes composta, na sequncia de um bailarico a que assistira em terras do norte.
Ouviam-se as chinelinhas batendo no solo ao compasso da cantiga; percebia-se o esvoaar das saias rodadas e garridas solevando o pequeno avental onde bordado se
inscreve a palavra base dos sentimentos lusitanos - AMOR.
Ficou a jovialidade tilintando no ar quando os sons morreram num acorde vibrante como triunfante grito sado de peitos cansados mas felizes.
Depois, lentamente, Clarinha foi tomando conscincia do ambiente, foi sendo restituda ao que a cercava. E o ambiente era povoado e nele rumorejavam inesperadas
vozes que a aplaudiam.
De facto e pouco a pouco, atrada pela msica esplendorosa que se evolava atravs das janelas abertas, numerosas pessoas haviam entrado e festejavam agora, discretas
mas espontneas, a Pianista que se erguia plida, grave, surpreendida com o imprevisto auditrio. A Pianista que ia sorrir num gesto de surpresa e de cortesia mas
no chegou a entreabrir os lbios.
Ao fundo da sala, encostado  parede, antepunha-se-lhe um vulto, um vulto que magneticamente lhe prendia o olhar, um vulto onde havia um rosto srio iluminado por
duas pupilas que se fixavam nela ardentemente.
Mas nessa expresso ela no atentou, nem poderia faz-lo ainda que o quisesse! O sentimento invencvel arrastava-a.
E jamais Clarinha se mostrara to nervosa - inexplicavelmente nervosa! - aps qualquer exibio, como nesse momento, findo o reduzido Concerto ante um pblico modestssimo...
- Vamos embora. - disse baixo mas impetuosa a Octvio Labercinho. - Detesto a curiosidade!
E foi de cabea orgulhosamente levantada, sem um cumprimento, como se na verdade fosse intratvel  fora de soberba, que desceu as escadas de pedra abertas para
o largo fronteirio.

34


Os Pais, que por casualidade haviam entrado a meio do improvisado Recital, ficaram-se a olh-la com expresso inquieta.  que Maria Clara nem sequer dera por eles!

VI

Alberto voracima poisou os olhos acinzentados, nebulosos como dia a ameaar chuva, no rosto da esposa que o fitava suspirando.
Prosseguia na conversa encetada, qui reflectindo em voz alta, qui reflectindo por ambos.
- Esta rapariga apoquenta-me.  estranha demais! Tem atitudes e pensamentos de pessoa experiente, envelhecida na luta pela existncia, cnscia de deveres e responsabilidades.
De repente e em contrapartida, momentos h em que se transforma por completo e afigura-se-me ento no ter mais senso do que uma garota de oito ou nove anos! Que
temperamento singular! Reparaste, ontem  tardinha? No palco, transfigurada, como sempre! Modificou-se-lhe por completo a expresso, o rosto afilou e, de to dilatados,
parecia haver apenas olhos naquele semblante de menina. Os cabelos soltos lembravam os de um anjo!  noite, quando fomos dar aquela voltinha, falou-nos com acerto
da sua viso do futuro, dizendo que pretende viver a sua Arte sem fantasias que espantem os ignorantes mas no lhe garantam a ascenso. Veio para casa cismtica
e silenciosa. E agora de manh apareceu-nos como um perfeito diabinho! Cabelos arrepiados, calas de homem, camisola ao ombro, cajado na mo... para ir explorar,
segundo afirmou, "os mistrios da costa esquerda"... Alguma coisa nela recordava a Clarinha de ontem? Algum trao indicava ser a mesma?
- No! - confessou Helena, contemplando o marido como quem sempre vive adorando. - No! E sou incapaz de saber com quem se parece ou a quem sai.
- No se parece com ningum, no sai a pessoa alguma!  Ela! - proferiu o Pintor, inclinando a cabea formosa onde havia fios brancos, sinais de uma vida mais vincada
pelas preocupaes do que pelos anos. E quase emocionado, acrescentou:
- Clarinha personifica um beijo! - e logo em seguida, na traduo do ntimo meditar: - Sempre nos adormos, Helena,

35


e os temperamentos dos nossos filhos, apaixonados e profundos, espelham decerto a imensidade do nosso mtuo querer. So mais do que ns porque so o nosso prprio
Amor, so almas que traduzem as emoes das nossas almas extasiadas!
Helena continuava a encarar o marido com a gratido de quem nunca precisou de olhar por outros olhos, de ouvir por outros ouvidos.
-  isso! E so extraordinrios! To extraordinrios que chego a pasmar da bela realidade!
voracima sorria, enlevado.
- . Sim, podemos sentir-nos gratos  Providncia. A poucos Pais ser dado reunir um semelhante rancho e to unido! Ainda agora, quando viemos... Julgo estar a ver
o olhar bondoso do Gonalo, afirmando que no podia acompanhar-nos para aqui mas alegrando-se por trazermos a Clarinha, necessitada de repouso e ar do mar! E l
ficou, entre quatro paredes!...
- O Gonalo no vive para ele...
- No... nem se reconhece o direito de abandonar o trabalho e o estudo. H homens, talvez remindo o egosmo universal, que no pertencem a si prprios, que se do
ao bem alheio e consideram uma traio fugir, por pouco que seja, ao dever aceite. Ele  um destes eleitos! E repara, Helena, repara como ambos, tanto o Gonalo
como o Adriano, apesar de totalmente diversos nos feitios, se entendem bem e como se unem para adorar a irm! - Alberto erguera-se, aproximara-se da esposa e
- afagava-lhe os cabelos castanhos que emolduravam um rosto onde
- mal-nascentes rugas punham breves sombras de idade ao canto dos olhos rasgados.
Helena apoiou:
- Tanto um como outro a consideram uma criana merecedora de todos os mimos e atenes!
- Como ns dois, afinal! Quando ela  uma autntica mulher!
- No consigo chegar a essa concluso... D-me vontade de a embalar como noutros tempos... E de ralhar ao Adriano pelas tropelias... E de libertar o Gonalo das
preocupaes do seu trabalho...
- Pobre Mezinha, to perplexa em face das trs personalidades criadas no seu regao!...
Tentara gracejar, mas vibrara-lhe na voz o toque de irreprimvel comoo.
- Queres que te diga? - declarou ento Helena, com inesperada

36


melancolia. - Chego a pensar que no terei a ventura de conhecer netos!
- E desejava-los?
- Decerto!
voracima, na linha do auto-domnio, ps-se a rir.
- Para qu? Para que eu me sinta velho?
- Oh, no! - protestou a mulher, num adorvel gesto de amuor. - Nada disso! Tu no s velho... ns nunca seremos velhos! A mocidade est no nosso esprito que no
se alquebrar nunca! - e explicou: - Gostava de ter netos, sim, para sermos continuados, para assistirmos  perpetuao dos nossos, para eu voltar a cingir nos braos
o tenro corpito de um beb que ainda fosse meu!... Mas desespero! O Gonalo vive como se no houvesse mulheres  face da terra. O Adriano...
E o marido, animado:
- J sei o que vais dizer! Para o Adriano sobejam as mulheres! Namora todas, gosta de todas, por ele e pelo irmo, o que se torna contraproducente. E quanto  Clarinha...
Helena interrompeu-o:
- A Clarinha nem se lembra de que existe um sentimento chamado Amor!
Em baixo, na porta que dava para a rua, houve de sbito, a chamar-lhe a ateno, um grande rebolio de pancadas, campainhadas e chamamentos joviais, ritmados pelos
passos da servial apressando-se para atender o visitante que se permitia fazer semelhante alarido.
Helena ps-se de p imediatamente, no olhar uma viva cintilao que mais realava a juventude conservada no rosto e na figura.
-  o nosso Adriano! - e, seguida pelo marido, correu para fora da saleta onde acabavam de tomar o pequeno almoo. Mal transposto o limiar, foi colhida pelos braos
de um moceto que a levantava no ar:
- Me... minha gracinha!
E as mos da Me, radiantes e enternecidas, em resposta apertaram a loira cabea do rapaz de compleio atltica como poucas se encontram e uns olhos azuis alegres
e folgazes, na sua cor de faiana preciosa iluminando as faces escanhoadas onde a barba deixava um tom doirado.
Embalando Helena de encontro ao peito, Adriano ia discursando numa voz bem modulada que devia saber comandar,

37


exactamente como devia saber exprimir toda a doura do mundo.
- Sabes uma coisa, minha linda Me No consigo perceber porque razo tu, to pequenina, me deixaste crescer tanto!
Felicssima dessa ternura gentil, felicssima dessa fora que brotara da sua fragilidade, Helena ria e tentava ralhar com ele.
- . Vamos, Adriano! Tem juzo! Larga-me, sim?
- 'No!... No posso largar-te sem me responderes! Vim propositadamente para que me informes da origem de um tamanho contraste!
E ela, beijando-o:
- Olha, meu ruim, foi exactamente para isto... para me trazeres ao colo e assim me pagares as vezes que carreguei contigo!
- Dou-me por satisfeito com a explicao! - e, cautelosamente, dep-la no sobrado, para em seguida se dirigir ao Pai, a quem tocou ser apertado com tanto vigor de
encontro ao sadio arcaboio que teve de protestar:
- Eh l, rapaz... no me metas as costas dentro! - e batendo-lhe uma palmada no ombro: - Rijo, heim?
Miravam-se ambos, satisfeitos de se verem. A estatura do mancebo dominava a de Alberto, cuja silhueta, alta sim, mas esguia, ficava a perder de vista junto desses
ombros de gigante.
No entanto, imperava-lhes no desempeno a mesma linha de raa, no olhar azul a mesma nobre franqueza com a mesma forma de erguer a cabea - semelhana extensiva 
prpria Maria Clara.
J as pupilas de Adriano circulavam investigadoras por toda a pequena casa.
- E a boneca - indagou. - Onde est a Clarinha? Que  feito da minha Artista predilecta?
Vibrara a pergunta em frmito de adorao pela irmzita preciosa e o Pai abriu os braos num gesto enftico de ignorncia.
Dentro do lar, o insigne voracima nunca fora, nem pretendera s-lo, mais do que o excelente, o incomparvel amigo que infunde tanta confiante amizade como respeitoso
carinho. E assim continuava o melhor companheiro dos filhos, que o procuravam sempre certos de compreenso, quer expressa em indulgncia quer encerrada em conselhos
preciosos que mais ningum poderia dar-lhes.

38


A acompanhar a atitude fraterna, j o grande Pintor declarava:
- Sei l da Clarinha! Ainda h pouco falei  tua Me. Saiu estranhamente equipada, julgo que para ir  conquista do desconhecido!
- Do desconhecido... ou de um desconhecido? - gracejou o Aviador.
O Pai encolheu os ombros.
- Impossvel adivinhar! Quem pode prever o futuro?...
- Adriano franziu a testa.
- Mau!...
- Atalhou a Me, numa risada:
- Oh, no te aflijas! A tua irm mantm-se inacessvel!
- Felizmente!
Expressara-se ele com inesperada dureza, uma dureza que lhe alterara o semblante, impregnando-o de gravidade. De facto Adriano no tolerava a ideia de que um intruso
viesse apoderar-se da menina da famlia,
levando-lhe a irmzinha por quem bebia ares e ventos, a amiga ideal com quem lhe era dado falar e brincar livremente. A menina da casa, a SUa menina, a pequerruchinha
que ensinara a andar como pacfico mido mais velho uns anos, a donzelinha que de nenhuma sofria confronto, nica a quem podia falar - por ele e por elas! - sem
iluses de namoro ou fogachos amorudos...
Adriano sentir-se-ia realmente espoliado de um bem pessoal no dia em que,  sua, Clarinha preferisse outra presena, mais inebriante e dominadora.
Por isto sobremaneira o alegrava a esquivana da rapariga a todos os pretendentes, quase agreste no desejo de a ver tornar-se velha celibatria. Costumava pedir-lhe:
- Fica para tia, Clarinha! Arranjo uma dzia de meninos e dou-tos para criar...
E Clarinha ria e afirmava aceitar a proposta. Mas agora, ante o comentrio da Me, Adriano ficara inesperadamente inquieto.
- Verdade, Leninha? - era por Leninha, que a tratava muitas vezes, familiarmente. - Acaso h moiro na costa?
Leninha, divertida, ripostou:
- No, meu ciumento, descansa! A Clarinha prefere ser a mentora dos teus doze filhos a dar-me os netos que desejo.
O rapaz, alegre mas fingindo-se escandalizado, protestou:
- Ora essa!... Ento os meus filhos no sero teus netos?

39


- Os teus filhos? Tu queres um filho em cada continente... j vs! Preferia os de Clarinha, eram mais da casa... Mas que hei-de fazer? A tua irm continua bicho
do mato e foi...
-  conquista das rochas! - concluiu Alberto voracima. Adriano empertigou-se, orgulhoso.
-  digna de mim!
- Como? Tornaste-te bicho de mato, tu?... Tu?... - e este tu era. significativo.
Adriano riu-se.
- No, no sob esse aspecto... Mas na audcia! Valorosa mocinha! Ainda hei-de fazer dela uma Aviadora!
- Credo! - balbuciou a Me, horrorizada ainda que sabendo-o a chalacear. - Cala-te com semelhante disparate! Bem me basta que andes sempre nas nuvens para nunca
trazer o corao em paz!
- Pois devias trazer!
- Como seria possvel Constantemente a lidares com a morte... - e o seu olhar velava-se de angstia.
O filho acariciou-lhe a ponta do nariz.
- Ora, Me! com a morte lidamos ns todos a toda a hora, a todos os momentos! S os mortos a no receiam, porque j morreram. - e dando uma reviravolta, para mudar
de pronto o assunto pesado: - Meus carssimos amigos, logo  mesa palestraremos mais. J os abracei, vou-me agora  procura da Clarinha. H duas semanas que no
vejo a petiza e - palavra! -, tenho saudades! A feiticeira!... At o padre capelo perdo, o mano Gonalo, suspira pelas suaves melopeias que s vezes lhe retardam
a soluo dos mais complicados problemas. Claro que isto chama-se "amor  destruio". - E olhando em volta: - Onde posso despir esta farpela e transformar-me no
banhista mais elegante desta praia inexistente no mundo moderno?
A Me conduziu-o ao quartinho preparado para receb-lo e do qual, da a nada, regressou cheio de frescura, de calas e camisa brancas, brandindo nas mos o slip
e a toalha.
- Que tal? Estou aceitvel? - e sem esperar resposta beijou o Pai e a Me e precipitou-se para a escada. Mas antes de sair deteve-se e olhou para o patamar, de onde
o Pintor e a mulher o contemplavam embevecidos.
- 'vou em busca da boneca... mas no s! Entretanto aproveito para dar uma volta por a... Quero averiguar se h garotas a quem valha a pena dedicar um olhar e fazer

40


p... de tenente! - e sem atentar na expresso comicamente ofendida que Helena erguera para o marido, desapareceu, belo como um jovem deus de irresistvel poder.

VII

De fraga em fraga, Adriano ia saltando. J por duas vezes quedara de mo convexa sobre os olhos, tentando descobrir ao longe uma silhueta que o orientasse. Debalde!
Atravessara a praia no seu passo elstico de bom ginasta, lanando, a fim de no desperdiar tempo, mortferas olhadelas para as que dos toldos ou da beira da gua
respondiam com pupilas surpreendidas ao inesperado aparecimento do desconhecido que a todas parecia render seu preito de homenagem.
Loiras ou morenas, altas ou baixas, gordas ou magras desde que o palminho de cara fosse apresentvel... - Adriano sentia que lhes queria muito, sem excepo, l
de dentro, devotadamente, pronto a sentar-se no meio delas como um anjo entre os serafins...
E ao deixar para trs o areal com o seu variado sortido de raparigas, o moo Aviador resmungara um comentrio oportuno:
- Diacho!... Eu a julgar isto um deserto e sai-me um osis benfico!... A escolha  que me vai dar um trabalho! Vamos ver se ao menos arranjo uma em cada extremidade...
E parto a cara ao primeiro rival que me defronte! Quero conquistar os coraes das meninas veraneantes... e tambm me fazem conta os das da regio!... Mas fica para
logo. - conclura. - Agora preciso de descobrir a mida.
Continuava a avanar, abandonando as rochas pelo caminho de cimento que serpenteava ao longo das penedias esguias, sobranceiras ao mar, costeando-as at  minscula
praiazinha onde apenas se encontravam misantropos ou namorados.
Para o lado esquerdo espraiava-se o oceano de um azul infinito, limitado na curva do horizonte pelo cu de plida turmalina, doirado ao centro pelo esplendor do
sol, todo inteiro glorificando a natureza e reflectindo-se nas pupilas deleitadas do mancebo.
Parou um momento, enchendo o peito, com expresso de profundo contentamento, do ar purssimo que transbordava iodo e luminosidade. Depois continuou a progredir.

41


Ao longe, em frente, as guas ondulantes eram cortadas pelo promontrio agudo sobre o qual se erguia o farol.
- Hei-de l ir. - pensou. - A mida acompanha-me, que tem boas pernas!
E de chofre, ao tornejar um rochedo, parou. Parou olhando duas de facto magnficas pernas, modeladas em calas verdes e abertas em ngulo agudo; duas belas pernas
retesadas pelo esforo de aguentarem o busto inclinado e que se percebiam to bem feitas como as de uma esttua clssica.
Um leno colorido tapava os cabelos da desconhecida, sem no entanto impedir que Adriano logo reconhecesse a irm, entregue aos exerccios ginsticos, feitos ao ar
livre, como ele prprio aconselhara.
Sentindo-se orgulhoso de ver to escrupulosamente seguidas as suas prescries, aproximou-se tossicando, a dar sinal de presena.
E foi o bastante para que a rapariguinha, notando o rudo inslito, se desequilibrasse, como que sobressaltada, voltando-se para ele em jeito de quem vai abalar
acto contnuo... Mas no o fez.
A pessoa que assim a surpreendia no seu retiro no a afugentava, pelo contrrio! Ento fulgurou-lhe no olhar a chama da alegria e precipitou-se para os braos que
se lhe estendiam.
- Adriano!
- Queridssima!
com idntico mpeto se enlaaram, com idntica e enternecida vaidade se miraram, radiantes por estarem juntos, radiantes por se saberem to dignos um do outro e
ambos dos nomes herdados, radiantes por se acharem fortes e saudveis, frutos da mesma rvore, alimentados pela mesma seiva.
- Adriano! - repetiu Clarinha, extasiada, apertando entre as palmas das mos o rosto do irmo e beijando-o na testa repetidamente, depois de muito o puxar para que
se dobrasse. - Como foste bonzinho vindo ter comigo!
- E assustaste-te, minha cabritinha! Parece que a primeira impresso no foi muito agradvel...
- Pudera! Se julgas que me d gosto ser surpreendida em plena sesso de cultura fsica! Este foi o stio mais escondido que encontrei! E se fujo do mundo, - acrescentou,
enftica, - no  para o mundo vir ter comigo!
- Incluis-me?

42

 -. -,
- Oh, no, de forma nenhuma! Tu no s o mundo! s apenas o meu amado...
- Sim, sim... - resmungou Adriano, fingindo-se zangado. - Se fosse como dizes estavas ajuizadamente  minha espera, em casa, e no me obrigavas a perder, em tua
busca, um tempo precioso. O tempo que podia empregar na conquista das veraneantes - e, petulante, concluiu: - Deixei-as todas a suspirar por mim!
- Tolo! - ralhou a irm. - Detesto-te quando falas assim!
- Ai, detestas-me?  essa a paga que recebo de te haver preferido? Estou vendo que mais valia no sair daquele manancial de coisas bonitas.
- Adriano!... Mau, mau... - e puxava-lhe as duas orelhas simultaneamente, com simulada energia. - Tu no vais obrigar nenhuma rapariga a
- apaixonar-se por ti, ouves? S compassivo!
- Obrigar? - e mostrando-se compungido, repetia; - Obrigar! Quem fala nisso? Eu no obrigo ningum! Elas apaixonam-se voluntariamente.
Maria Clara soltou-o e estendeu um dedito ameaador.
- Mano... assim no vale! Deixo de te falar! Proibo-te que faas a corte s pobres raparigas!
Ele estendeu o beio inferior, num protesto.
- Oh, Deus! Sempre a mesma insistncia? Mas pretendes que eu morra de inaco!
Ento, perante o ar contrito e mortificado do Aviador, ela desatou a rir.
- No, no, rapaz! Vive, diverte-te... mas com critrio! Pe os olhos no edificante exemplo de Gonalo!
- Gonalo, o Monge! Consta-me que vai para um ermitrio...
- Caluda! - e o semblante agora sisudo expressava o desejo de no ouvir gracejos acerca da austeridade do irmo mais velho. - Tem juzo e d-me notcias dele.
- Acho que se encontra prestes a descobrir um p maravilhoso. - E sob a ateno de Clarinha, concluiu: - Um pozinho especial para deitar nos olhos das meninas demasiadamente
espertas como certa Pianista que eu conheo...
- Oh! Tu s terrvel! - e voltou-lhe as costas.
- Adriano sentou-se no banco prximo, esculpido na prpria
rocha que lhe servia de espaldar e docel, e puxando a irm pelo cinto das calas f-la instalar-se-lhe ao lado. Depois, passando-lhe

43


afectuosamente o brao em torno dos ombros, acrescentou com expresso repesa:
- No te amofines, Clarinha. Prometo contar-te a verdade. O Gonalo...
- Mau! Que nova asneira vou escutar?
- Asneira nenhuma, asseguro-te. Falo-te a srio. O Gonalo estuda um bacilo qualquer que, segundo afirma, deve ter influncia directa no cancro.
- Oxal! - balbuciou ela, seduzida pela esperana. - Deus o ajude!
Logo Adriano prosseguiu:
- Parece que ele tem grande f nesta descoberta, se resultar como pensa... - e vendo significativamente entreabertos os lbios de Clarinha, atalhou: - Oh, oh...
no me peas explicaes J sabes que nada percebo do assunto! Mas afirmo-te - e dizia-o com uma seriedade que mais realava a beleza do semblante msculo - que
o nosso irmo  a glria da famlia! Ps a inteligncia que Deus lhe deu ao servio dos fracos e dos oprimidos pelos males da humanidade.
Clarinha corroborou:
- Tens imensa razo! - e afagando a face escanhoada de Adriano, ternamente encostada a ele, continuou: - Mas tu tambm nos ds muita honra!
- 'Eu? - e ria-se jovial, bem outro na expresso travessa que o infantilizava. - Eu, o estouvado O irreverente O doidivanas
- Tu, sim!
- Ah, pois! Eu at ando a ver se as aves me recebem na sua real academia... - e beijando-lhe a mozinha carinhosa: - Mas pagarei gentileza com gentileza, asseverando
que tu nos ilustras grandemente!
Aflautara a voz, pusera os olhos em alvo e Maria Clara, divertidssima, como de costume, com as humorsticas sadas do irmo, frequentes mas sempre cheias de novidade
e imprevisto, indagou:
- Porqu? Eu, porqu?
- Porqu - e em tom declamatrio recitou: - Porque tens o condo sublime de te desencorporizares e seres alma nas harmonias que falam  nossa alma!
- Muito bem! - aprovou Clarinha, de olhar cintilante. - Verifico que te tornaste Poeta...

44


- Poeta? Eu? Oh, no! Sacrilgio! Que horror! Antes idiota toda a vida!
A rapariga protestou:
- 'Mas os Poetas, os verdadeiros Poetas, no so entes ridculos, so criaturas de eleio que sentem mais profundamente a beleza das coisas e sabem traduzi-la em
palavras de mgica sonoridade... tal como os msicos a dizem nas ondas musicais. Entendidos?
Vendo-a sonhadora, de plpebras semi-cerradas, Adriano soltou uma risada e deu-lhe um piparote na face.
- Toma! - disse, maliciosamente. - A minha musa doeu-se! - e como Clarinha se levantasse, em negativa, agarrou-lhe nos pulsos e prendeu-a, obrigando-a a ficar de
frente para ele. - Eu tambm sinto a beleza das coisas, menina, tambm quando l ando em cima e vejo a terra como um objecto de brincar, percebo que tudo em mim
vibra de emoo e de arroubo! Mas no fao versos...
Falara com entono despreocupado, mas sob o aspecto folgazo perpassara a realidade de um profundo enternecimento que, talvez envergonhado da prpria fraqueza, procurava
esconder-se.
Docemente, os lbios de Clarita poisaram na testa do irmo.
- Que grande alma a tua, meu Adrianinho! Ficaram assim durante segundos.
A pouca distncia, na curva do caminho que para alm continuava, dois olhos zombeteiros contemplavam-nos avanando, avanando at passarem diante deles e seguirem...
E ento, como dois namorados surpreendidos, Adriano e Maria Clara desprenderam-se e fixaram o indiscreto que se permitira mir-los com evidente insolncia.
Na garganta da rapariga ficara preso um grito, enquanto o Aviador crispava os punhos para conter o mpeto de esbofetear esse que se permitira lanar-lhes to enraivecedora
olhadela, expressiva de incorreco. com que direito ousara aquele idiota fit-los como se os censurasse?
J o tipo se sumira para alm das rochas e ainda Adriano ruminava o furor experimentado. - "Ora esta! Pois no seria livre de abraar a irmzinha quando muito bem
lhe aprouvesse? Talvez que o outro se julgasse com mais direitos... Atrevido!".
E de repente largou a rir, a rir divertido sob a presso da impagvel ideia que lhe acudira  mente.

45


- Se calhar julgou que ramos dois apaixonados e... e achou que eu lhe estorvava os planos!...
Mas as gargalhadas extinguiram-se-lhe breve. Maria Clara estava lvida, trmula, as pupilas fixas no ponto por onde o outro seguira e desaparecera.
O espanto cavou rugas na testa de Adriano.
- Que tens tu, mana? - inquiriu, puxando-a para que voltasse a sentar-se junto dele.
Foi repelido com inesperada violncia.
- Deixa-me! Acabaram-se as brincadeiras!
- Porqu? Fiz-te algum mal?
Maria Clara parecia completamente fora de si, numa atitude inexplicvel.
- No! - volveu, com aspereza e sem qualquer atenuante. - Mas deixa-me! Quero que me deixes sozinha!... Vai-te embora!
-  uma ordem?
- !
Ento, lentamente o irmo ps-se de p e, olhando-a srio, dominando-a pela elevada estatura bem aprumada, poisou-lhe as mos nos ombros e num timbre quase severo,
bem diverso do tom ameno empregado momentos antes, inquiriu:
- Clara... mas que  isso? Porque ests assim excitada? Que te aconteceu? - e como o olhar da irm se desviasse, angustiado, insistiu, espiando o semblante inquieto:
- Maria Clara, responde! Que h? Porque te alteraste dessa forma? Acaso... acaso aquele indivduo...
- Cala-te! - implorou Clarinha. - No faas suposies absurdas! - e num assomo de energia quis fitar as pupilas de Adriano, mas viu-as to inquisitoriais que no
teve a fora de lhes sustentar o claro e desviou as dela.
Nem a si prpria saberia explicar as impresses que a sacudiam! To diversas, to bruscas e incompreensveis!
Ento, com o mesmo entono rspido, imperioso, Adriano comentou:
- Disseste bem. Qualificaste as minhas suposies como devias. Absurdas! Nem por sonhos pensar que poderias deixar-te seduzir por um qualquer imbecil que te dirigisse
duas olhadelas provocantes. - E de rosto contrado, do alto dos seus direitos de irmo mais velho: - Proibo-te de dar ateno seja a quem for!
- Mas...

46


E ele, sem lhe permitir que protestasse:
- Lembra-te sempre, Maria Clara, do meu exemplo. Divirto-me com todas e no me prendo a nenhuma. Entendido?
Vivo rubor tingiu as faces da rapariga, que ripostou, inconscientemente revoltada:
- Mas se todos fossem como tu no havia casamentos!
- Adriano nem pestanejou.
- Quando eu escolher noiva, no ser entre essa raparigada semi-nua que namora quem calha e no gosta de ningum e muito menos do palerma que lhe cai na rede com
destino a aliment-la. So todas como as aranhas que devoram os maridos! Elas no os comem mas sugam o proveito do trabalho em que os desgraados se esfalfam para
as trazer fartas e luxentas, sem ao menos receberem para compensao um pouco de carinho desinteressado! E tu, Maria Clara, tu, aqui, s como as outras! No trazes
nas costas o emblema das tuas virtudes. Qualquer um pode divertir-se contigo, percebes? At porque... porque ns, os homens, muitas vezes, na nossa inconsequncia,
confundimos tudo! Alm disto h ainda, aos milhares, inferiores que no se detm nem diante de uma mulher digna e no sabem respeitar escrpulos seja de quem for.
E no se adivinha sob que invlucros esses miserveis se ocultam! Por isso, Maria Clara, ao primeiro que se lembre de querer agradar-te, castigo-o com duas vergastadas
no lombo.  s ir a casa e trazer uma bengala do Pai. Contigo, no brincam! - e agarrando-a por um brao, vigorosamente: - Clarinha, d-me a tua palavra de honra
em como no ds ateno a ningum... - e acentuara o ningum.
To vibrante tirada impressionara Clarinha que, desejosa de fugir ao formal interrogatrio que a magoava mais do que o irmo podia supor, atingindo-a em cheio com
a pertinncia das suas razes, tentou sorrir, pacific-lo.
- Fico para tia dos teus doze catraios, descansa.
No olhar de Adriano fugiu um relmpago de contrariedade.
- No se trata disso. Hs-de casar, mas sers escolhida dentro do nosso lar, no seio da tua famlia, por quem seja digno de ti.
- Nesse caso - insurgiu-se ela inesperadamente, - no sou livre de amar quem eu quiser?
Adriano soltou um oh! de significativa estranheza e baixou o rosto, meditativo.
- Bem! - disse, aps alguns instantes de reflexo. - Ama

47


 tua vontade! Irei procurar esse cavalheiro. Se te merecer, que te namore, mas no com olhos que zombem de ti na minha frente!
Perplexa com a repentina concluso, e aflita, (Adriano no era homem de duas palavras! Clarinha agarrou-se a ele, na nsia de o persuadir da insensatez do propsito.
- Mas eu juro-te que no h nada entre mim e o rapaz que passou!
Como o irmo continuasse porm a fit-la desconfiado, sentiu necessidade de afastar qualquer suspeita ocultando o incidente que entre ela e... e o outro, embora
e com seu total desagrado, havia gerado um contacto... inesquecvel. E aventurou-se a assegurar, numa intil mentira:
- Nunca trocmos uma frase!... Asseguro-te que ests enganado! - e atabalhoava-se, na pressa da justificao. - Eu at embirro com ele! Acredita que embirro! E ele
se calhar tambm antipatiza comigo... - e procurando justificar a si prpria o indizvel constrangimento experimentado desde o primeiro instante: - Ele olha assim
para toda a gente... como se desdenhasse, se troasse!  antiptico e detesto-o! A tens a verdade!
No era a primeira vez que Maria Clara afirmava detestar certas pessoas... mas Adriano tinha a impresso de que, agora, no era como ela dizia.
No insistiu, contudo, e os seus dedos esguios afagaram os sedosos cabelos da irm.
- Seja, acredito-te! E ponto final. Falemos de outras coisas.
- Pois sim, mas no aqui. - E para tornar razovel o protesto - Porque j so horas do banho! Vamos andando, vamos?
Puseram-se a caminho. Na praia, os olhos inquietos de Clarinha, sob a disfarada vigilncia do Aviador, investigaram as imediaes. Nem sombras do belo tenebroso!
E um inconsciente suspiro de alvio lhe brotou dos lbios.
Fora sincera, alis, em parte da explicao fornecida a Adriano.
Pungia-a, desde que o sentira cruzando o seu, a recordao do singular olhar desse estranho. Receava encontr-lo de novo, frente a frente, carregado de censuras
e perguntas, censuras e perguntas que ela no entendia nem sabia decifrar. E ao mesmo tempo tinha a certeza de que lhe seria infinitamente grato divisar, ainda que
ao longe, no recorte doirado daquela moldura de luz, a silhueta altiva, chocante.

48

Mas que era aquilo? Que necessidade avassaladora havia sido essa de ocultar do irmo o ridculo conhecimento estabelecido, como se quisesse defender o estranho da
ameaa tantas vezes escutada por causa de um ou outro pretendente mais atiradio, ameaa quase sempre proferida com entono divertido mas que lhe parecera ter escutado
mais categrica e inflexvel "dou-lhe duas vergastadas no lombo... ".
Oh, no, no! No tornaria a afirmar a Adriano que considerava incorrecto, insolente, o desconhecido. No diria! Porque... porque ela prpria no estava muito convencida
de que ele merecesse a dureza da classificao s por causa daquele olhar, daquele olhar extraordinrio...
E no fim de contas e fosse como fosse, ela no tinha o direito de lhe causar o mnimo aborrecimento!
E agora mar, cu, praia, vila, tudo se esfumava para compor a figura que crescia, crescia sem cessar, transformando-se no Infinito para a rapariga to apavorada
diante de tamanha grandiosidade que s guas do Oceano iria confessar num inesperado mergulho:
- Isto  uma loucura... no entendo o que se passa... mas eu creio que... que vou am-lo!

Viii

Octvio Labercinho afadigou-se para alcanar o vulto que passava lesto pela frente das janelas.
- Maria Clara... Clarita... Clarinha... se me d licena... - no se percebia se pedia licena para abord-la ou para trat-la plo nome prprio, abandonado o incrvel
Excelncia que de facto no assentava quela rapariga de olhar surpreso, graciosssima no seu vestido cor de rosa.
- Diga, diga, Labercinho!
Ele aproximou-se, dobrou-se em dois.
Podia fazer-me o obsquio de subir um instante  nossa sede, para lhe apresentar a Florncia de Resendos, que  uma das organizadoras das nossas festas e est ansiosa
por conhec-la?  s um momentozinho... - e dirigia-lhe um sorriso implorativo, estendendo a mo para a escada de pedra que levava ao salo do Grmio.
Clarinha consultou o relgio de pulso - contraste vivo entre

49


a fortaleza do cabedal e a suavidade da pele macia - onde os ponteiros haviam j iniciado a descida e por delicadeza, acedeu:
- Pois sim, mas no prometo demorar-me! O meu irmo espera-me Vai-se embora na carreira das seis...
- Oh, mas ainda tem tempo! - garantiu Octvio, que anelava provar a sua influncia junto da Artista.
Ela resignou-se. Ligeira, galgou os degraus, precedendo o rapaz e estacou no limiar a aguardar as formalidades.
A poucos passos de distncia, um grupo feminino  frente do qual se destacava uma rapariga morena de belos cabelos negros e sorriso alegre - um semblante agradvel,
sem dvida.
Seguiu-se o costumado "se me permite... fulana de tal... e mais sicrana... e mais beltrana...
Ao cabo de minutos, Maria Clara conhecia Dona Maria Carlota de Resendos (figura com todo o aspecto de somente decorativa) as duas filhas, a trigueira Florncia e
a adolescente Leonor (talvez uns quinze anos) e uma prima de perfil grego que ao rir abria a boca de orelha a orelha, de nome Fausta Irene - Irene a Fausta, lhe
chamavam, graas aos vestidos espaventosos que usava.
Aps o ritual, Clara foi envolvida pela solicitude das novas companheiras, ufanas de travarem conhecimento com a jovem Pianista que demais a mais se lhes afigurava
gentil, sem audcias exibicionistas, muito mais modesta na aparncia do que uma banalssima Irene - a Fausta! -, grandiosa apenas no cintilar dos olhos perspicazes
e sem dvida bem bonitos.
Quem mais sobressaa nessa atitude eram as duas raparigas mais velhas e essas bastavam para atordoarem Maria Clara, girando em seu derredor e falando como se quisessem
multiplicar-se...
Dona Maria Carlota e Leonor conservavam-se  parte, semelhantes na timidez de uns suaves olhos castanhos. As outras no se calavam um quarto de segundo.
- Voc ser o nmero colosso do programa!...
- Tenha l pacincia e desculpe a sem-cerimnia...
- Estamos deslumbradas! Graas a si os pobres vo ficar milionrios!
- Uma festa de arromba! H-de vir gente de todos os lados!
- At da cidade, garanto-lhe! Alis voc j est habituada a isto!...
- Aposto que o seu xito vai ser retumbante!
- Tudo o mais passa  categoria de complementos, ver!

50


- Olhe, tenho uma ideia! No podia voc tocar o Bolero de Ravel num ambiente propcio Ns fazamos cenrio  volta do piano, vestidas a rigor... com mantons de Momitta,
rosas vermelhas nos cabelos e mantilhas. Mantilhas sobre grandes pentes... Que diz? No acha giro?
As frases chocavam-se, ultrapassavam-se, aambarcavam os ouvidos de Maria Clara.
A proposta final partira de Fausta Irene, arrancando exclamaes entusisticas a Octvio, que tudo escutava deleitado, e obrigando Clarinha a enrugar a testa...
Pois assim pensavam aquelas duas que o Bolero de Ravel, para realar, carecia de semelhante intermdio cmico? Ou desejariam apenas saborear migalhas de um festim
de glria?... Clara voracima, bem podia conceder-lhas! Mas...
E conquanto lhe desagradasse o alvitre, ela, que se entregava  msica como libertao suprema das realidades e agora se via constrangida a prestar-lhes ateno,
foi condescendente e generosa, sem se comprometer, porm.
Sorriu - mas quem a conhecesse leria desdm, ou talvez piedade, no sorriso de aquiescncia.
- Pois sim. Depois combinamos!
- Rejubilaram as outras e choveram convites.
- Voc tem de ir lanchar a nossa casa! No calcula quanto estimamos conhec-la!
At calculava E tentava livrar-se da avalanche temida.
- No gosto de incomodar, receio ser importuna...
- No diga tolices!
- Fausta!
- Voc tem de aceitar, no ?
- E vai fazer-nos companhia, na praia!
- Ainda no sabamos quem voc era e j simpatizvamos consigo!
- Fazia-nos impresso v-la to solitria!...
- Naturalmente voc no gosta de se relacionar  toa e faz muitssimo bem! No sabemos de onde vm as pessoas!...
- Ns tambm somos muito esquisitas!
- Mas agora a Clara j sabe quem somos, no ?
A Clara dizia a tudo que sim, num aceno maquinal, pensando confusa "meu Deus, que mal fiz para que me no deixem em paz? Porque se importam comigo se lhes no disse
que me canso de estar s? " e cheia de ntimo pesar "adeus, sossego

51


querido! A minha arte  a tua sombra ameaadora! Mal se revela, ai da tranquilidade! Adeus, feliz Clarinha despreocupada! Vais de novo ser a voracima que vive ao
agrado da sociedade e no ao prprio! ".
No belo rosto permanecia, contudo, o sorriso da primorosa educao. Resignava-se  comdia surta e dispunha-se a obter a recompensa entretendo-se a observar e a
analisar as personagens.
Por fim, na abundncia de indagaes que ficavam sem resposta - talvez por aquelas que as formulavam se contentarem com o tumulto pessoal! -, Maria Clara logrou
fazer-se ouvir, declarando sonoramente que tinha de se ir embora por necessidade de comparecer  partida da camioneta das seis "como o havia comunicado ao Labercinho".
E por um escrpulo de delicadeza acrescentado que "assim se via forada a perder a satisfao de mais uns minutos de convvio"... A tal hipocrisiazinha de que s
os brutos se julgaro dispensados...
Foi quando, inquisitorial e intrigada, uma cabea loira assomou  porta.
- Clarinha! Que ests tu a a fazer?
E a cabea loira, aps a indagao, logo avanou, surgindo toda a elegante figura de Adriano, sem dvida atrado pelo man dos sorrisos que imediatamente lhe saudaram
o aparecimento mas explicando  irm "que lhe ouvira a voz e por isso subira a fim de a avisar de que eram horas de abalar, o que muito sinceramente o penalizava...
". E fitava, risonho, as trs jovens desconhecidas, repetindo o significativo "sinceramente... ".
Presas na garganta, Maria Clara sentia as gargalhadas vibrarem e fazia desesperados esforos para manter a compostura. Ou no conhecesse por demais o namoradeiro
do irmo...
- Maria Clara - ia continuando o Aviador, galantemente inclinado diante do elemento feminino -, no te parece que devo ralhar contigo Sabias da existncia destas
flores e negavas-me o prazer de lhes saborear o perfume? Desde quando me ocultas as tuas amigas?
Cintilavam de malcia as pupilas do jovem, mas s Clarinha sabia interpretar o brilho intenso que despediam, magnetizando os olhos das incautas.
Foi Irene - a Fausta! - quem lhe retorquiu acto contnuo, volbil e cantante:
- No ralhe, no ralhe com a sua irm, Tenente! Tambm

52


ns s h pouco viemos  fala... e a propsito de uma festa de beneficncia que vamos realizar e na qual ela se digna tomar parte! Alis fique sabendo que no o
dispensamos a si!
E ele, rindo:
- Para vender bilhetes?...
J Clarinha lhe respondia, explicando:
- Eu estava a despedir-me, Adriano. Ia a caminho de casa quando o Octvio Labercinho, que te apresento... - e os dois rapazes apertaram-se as mos, dobrando o oficial
um pouco a desempenada estatura para o vulto franzino que se empertigava - me chamou para me pr em contacto com este simptico grupo que...
E ele, vivamente:
- Que sinto imenso gosto em cumprimentar! Lamento apenas que me no seja dado usufruir to adorvel companhia! Sigo para a capital daqui a instantes, mas voltarei
o mais rapidamente possvel, prometo!
- Acredite que ser para ns um grande prazer!... - e os olhos de Fausta Irene erguiam-se arrojados para o rosto dele.
- Ento, at breve!
Despediram-se. Clara agradeceu os novos convites para se reunir com elas e, de brao dado com Adriano, saiu.
- Que tipo bestial! - exclamou Irene com entusiasmo, mal os dois irmos desapareceram -  uma tara!
Octvio olhava-a entre surpreendido e embezerrado. Talvez por se aperceber da futilidade (ou leviandade? dessa que fora na praia a sua primeira simpatia do ano...
Entretanto, em direco  camioneta, estacionada a alguns metros de distncia, o Aviador ia comentando, animadssimo:
- Sabes o que te digo Tenho para me entreter! Vai ser uma conquista tripla! A dos olhos ramalhudos no me dar trabalho. As outras... a ver vamos! Oxal que resistam,
para ser mais excitante! - e com um suspiro jocoso - Ai, que pena no poder c ficar hoje! Visiono a empresa to agradvel... Mas no faz mal! Talvez consiga voltar
depois de amanh... e macacos me mordam se me no fao adorar!...
Vibrante, Maria Clara protestou:
- Adriano, no sejas maluco!
Ele fez uma careta, simulando inocncia.
- Mas, querida, para eu no ser maluco ho-de elas dar o exemplo do juzo!
- Mas que mal fizeram as pobres?

53


- Que mal fizeram Olharam-me! Olharam-me!
- E, de sbito, Maria Clara dir-se-ia sufocada.
- E... e... olhar as pessoas  alguma loucura?
- O irmo riu-se.
- Oh, pateta! Depende!... Mas lembra-te de que foi olhando o Pap Ado que a Mam Eva o levou a comer a ma...

IX

Sumira-se na curva a desengonada camioneta onde seguiam, alm do irmo e at meio-caminho, os Pais, de visita a velhos amigos que descansavam entre o remanso dos
pinheirais que estrada fora vestiam colinas e bordejavam coloridos vales.
Clarinha quedou imvel, pensando. Que fazer? Voltar  praia Receava encontrar as novas amigas e ser assediada por amabilidades que a entedeavam. Estava pouco disposta
a aturar tagarelices escusadas! Bem lhe bastaria nos dias seguintes, quando a correco no lhe permitisse esquivana...
Deu uns passos, hesitante. Era ainda relativamente cedo, o dia
estender-se-ia, pleno de luz, por mais umas duas horas. Podia na verdade aproveitar o tempo.
Chegara junto da curva para l da qual vira desaparecer o grande veculo roncante e bamboleante, quase arrependida de no haver decidido acompanhar os Pais. Para
que ficara? Bem... para evitar a teimosa persistncia do Geraldinho, o magrizela quezilento que entendia dever fazer-lhe a corte s porque a conhecera criana! Mas...
ora! No fim de contas podia ele nem estar em casa! Fizera tolice!
Contrariada, resolvia ir meter-se em casa quando avistou, entre duas habitaes e alcandorada no monte sobranceiro, a imponente massa do velho castelo, arrendada
pelas ameias, alongada nas muralhas que subiam s suas quatro torres, macias e altaneiras no topo das escarpas rudes. Foi quando lhe veio aquela ideia. Porque no?...
Seria to agradvel! E se o pensava h tanto, eis azado o ensejo!
Ensismada, murmurou:
- Castelo de outrora onde viveram os que a morte sepultou no esquecimento, a visitar-te me levam os meus passos vagabundos... Subirei a ngreme ladeira que a ti
conduz, em busca de que me compenses os esforos dando-me a viso bela e incomparvel dos horizontes largos, dos mares amplos, dos panoramas grandiosos

54


e assim me erguer acima das misrias quotidianas, das vidas mesquinhas. E o meu esprito, qual nauta arrojado, pairar com aladas velas sobre a vista soberba que
me ofertares...
Lanada, do fundo da alma, a ardente invocao, forada a cerrar os lbios para que deles no continuassem a escapar-se as palavras tumultuosas e impulsivas, dirigisse
para o caminho que dias antes lhe fora indicado como sendo o melhor e mais breve para a fortaleza que l em cima desafiava a sua curiosidade, parecendo chamar por
ela.
s suas belas pernas, rijas e fortes, no aterrava a perspectiva da ascenso ao longo do atalho aberto entre tojos, silvas e pedregulhos. Upa, upa!
Parando de quando em vez, a respirar fundo, ela subia, subia sempre.
Chegava-lhe aos ouvidos o rudo montono e plangente de um moinho a girar, velas em cruz rodando no espao, gemendo como se lhe competisse chorar as canseiras da
humanidade que trabalha, que nunca pode deixar de trabalhar.
- Ui! - balbuciou ela, mordida a pele por um involuntrio arrepio. - Que lgubre isto deve ser no Inverno! com chuva a cair, o vento a soprar... e o cemitrio alm!...
Que melancolia!
Mas, naquela tarde de sol pujante e fecundo - abenoado criador das foras da terra! - a descer nos espaos azuis, no cabiam vises ttricas na imaginao frtil
de uma rapariga de vinte anos.
E Clarinha prosseguia a escalada. Ia j muito alto, admirando a estrada negra-azulada que serpenteava entre os vales que subiam depois aos dorsos ridos dos montes
escalvados, inspitos, como se o fogo dos estios os tivessem amaldioado.
Abriu-se-lhe na frente um arruinado arco dando acesso ao interior do castelo.
- Ser por aqui a entrada?
Uma lagartixa fugiu a correr pelo meio do tojo; duas borboletas brancas danavam, beijando-se na claridade do seu noivado.
Longe o bulcio do mundo. Longe as tragdias humanas. Longe quanto  vil e recorda as trevas.
Maria Clara dominava os horizontes, encostada s pedras carcomidas pelos sculos, pedras que talvez relembrassem passadas glrias, quando os canhes, outrora sepultos
na inteligncia dos homens que mais tarde sairiam do Nada para ao Nada mais facilmente lanarem outros homens, lhes garantiam a impunidade.

55


Dom Afonso Henriques, o rei fundador, que de montante em punho afirmava a robustez da raa perfeita - raa de raas valorosas e dominadoras -, criando a Ptria que
o cu coroaria de honra e triunfo, o conquistara aos moiros - rezava a Histria. E os moiros, fugindo, haviam deixado no arruinado castelo a saudade fatalista a
mirar-se nas guas do Oceano que lhe beija a fmbria da existncia.
Suspirando, a rapariga embalada na iluso transps a entrada.
E as pedras antigas, surpreendidas pela apario, umas s outras segredavam perguntas "quem ser? Moira encantada ou princesinha antiga que regressou  vida? "...
Para moira faltava-lhe a tez morena e os olhos negros. Para princesinha de lenda, onde estavam os vestidos roagantes e os toucados caprichosos?
As pedras no entendiam! Semelhante s mooilas do campo que ali passavam a caminho dos povoados e dos lares, no era... Ento?
Talvez uma donzela de estirpe fidalga, dessas que os trovadores cantavam! Sorria como elas, andava como elas, vestia de cor de rosa como elas... Ou seria uma figura
de conto infantil, fada-menina que viera passear ao entardecer...
E as pedras mais no sabiam do que ter pena de perder de vista a encantadora apario, a sumir-se l adiante, cada vez l mais adiante...
Agora, Clarinha quedara-se olhando.  direita, a ermida branca, edificada no sculo anterior, sem requintes de arte mas expressiva de f. Singela como a alma do
povo que tece poesia em redondilha maior enquanto os letrados espantam as turbas compondo-a em caprichosos alexandrinos. Uns fazendo versos para letrados, outros
para os meninos cantarem na escola  hora do recreio.
 esquerda ficava o cemitrio das gentes humildes a quem a morte agasalha nas campas rasas. Em torno, tudo cercando, acessvel por degraus de pedras semi-esboroados,
a muralha da qual se avistava a praia, a vila arejada onde moram pescadores, pobres que arriscam a vida para terem nas mesas de pinho os sobejos do que  custa de
mil esforos e sacrifcio angariam para a mesa dos ricos.
(i) Assim era a humildade das gentes do mar na vila de Sesimbra, a autora descreve tal a conheceu.

56


Casinhas brancas - uma porta e uma janela -, barcos donairosos, ruas estreitas e mal calcetadas. Todo um ar modesto e digno que se enfeita de rosas silvestres mal
desponta o Vero e os banhistas acorrem a regalar-se com o que para os mais pode chamar-se mgoa em Invernos desgraados.
Mal a temperatura suaviza, abrem grmios e arremedos de clubes, armam-se bailaricos, onde a mocidade desperdia a beno do iodo que revigora os corpos indo para
l suar e tressuar, jogar e namorar - fugindo  calma das noites enluaradas onde, ao ar livre, o Amor nunca  sentido como passatempo...
Terrinha modesta, qual noiva de um pescador sempre no mar, sobre este vive debruada esperando constantemente o seu regresso...
Contempl-la l de cima, v-la no seio das montanhas que a abrigam do vento norte, fora o maior desejo da vagabunda. E ei-la a realiz-lo, trepando o primeiro lance
da muralha, seguindo por ele adiante, atenta e enlevada.
Bordejou o cemitrio, dando um olhar piedoso e uma prece recolhida  memria desses que ningum conhece mas tiveram alma como as celebridades. Criaturas simples
que viveram sem outra ambio que a de ver medrar a vinha, a oliveira, o trigo... E morreram convencidos de terem lugar no Cu. com certeza, por justos e humildes!
Lbios murmurando a orao, a rapariga continuou seguindo a muralha. No tardou em ultrapassar o eemiteriozinho obscuro, de ciprestes sobreando a prpria luminosidade.
Imobilizou-se por fim, Maria Clara. Que lindssimo panorama desfrutava!
L no fundo do vale, airosa e lou, Sesimbra descia at  massa escura do orgulhoso forte colado ao oceano, ali submisso como adorador que se roja aos ps dessa
que suavemente tenta seduzir at no Inverno, altaneiro e fero como senhor absoluto, a ela se lanar no mpeto bravio da conquista fatal.
Longe, longe a tocar o cu, o mar azul. E nele, aqui e alm, manchas escuras, movedias no balano perene, indicando as redes das armaes onde h-de cair o peixe
que os barquitos depois iro procurar.
No remanso das guas, alongadas  beira do areal, embarcaes que vistas do alto pareciam no ter mais tamanho que essas outras com que as crianas brincam. Para
os lados da
57


serra, em frente, os cumes agrestes confinando a abbada celestial. Para a direita, o brao alongado e protector do farol e a dentadura rochosa da costa.
Como era bom estar ali e aspirar o aroma puro da natureza prspera e deliciar-se na contemplao do que arroubava os olhos e sentir-se em xtase na ventura de compreender
a beleza universal!
Inebriada pelas sensaes que a invadiam, Clarinha apoiou-se s ameias entre as quais espreitava - minscula naquela imensidade! - e cerrou as plpebras.
O silncio infinito e a serenidade empolgante apoderavam-se-lhe da alma e dedilhavam-na com toques de estranha sonoridade. E a ntima melodia tornava-se de sbito
numa espcie de cntico salmodiado pelo amargor da solido que esmaga os afectivos...
Aquilo tudo era excessivamente belo, to excessivamente belo que seria divino poder ofertar a algum a emoo que a dominava. E ela estava s demais! S demais e
forada a pensar... Como seria bom apoiar a cabea num ombro querido e dividir com outro ser de igual vibratilidade o festim do momento incomparvel!...
No esprito de Clarinha surdia agora um desejo. Um desejo ainda indeterminado, mas veemente.
- Quem me dera partilhar isto com ele... com Ele!... - E no era nenhuma das figuras familiares a que vinha encher-lhe a alma! No, no era! Mas... o ele evocado
desenhava-se em contornos ntidos, tracejando uma fisionomia mscula cujo olhar a fascinara e... e... e...
Cus! Mas que foras encerraria aquele olhar? Que foras, para assim a transtornar? Quando, naturalmente, jamais seria amada por ele! Quando, certamente, jamais
voltaria a encontr-lo!
E ento, naquele exacto momento, sucedeu que algum, to baixo como se temesse quebrar a profunda quietude, disse junto dela:
- Boa-tarde!
Quem fora? O prprio sonho?
Ou... Seria demasiado estranha, seria demasiado fantstica a ligao entre a imaginao e a realidade... E, para convencer-se de tal no valia a pena nem sequer
voltar a cabea. Era melhor continuar divagando

58


Estava completamente atordoada, num estado de esprito indescritvel. E permanecia imvel, fixa na paisagem, impossibilitada de compreender a autenticidade do que
de singular e maravilhoso estava a acontecer-lhe.
Porque um brao a rodeava pela cintura e um ombro lhe oferecia repouso e uma quente mo a forava a levantar o rosto...
Foi quando enfim O viu! Viu-O. Contemplou-O. Avidamente, arroubada perante esse olhar que se iluminava de ternura... de paixo... de desvairamento...
Ah, as belas pupilas que j no riam nem troavam! Como lhes queria!
E nunca, nunca soube explicar a si prpria como tudo se passara. Apenas lhe seria dado recordar a impresso violenta, desconhecida, simultaneamente doce e torturante,
de uma presso de fogo sobre a sua boca trmula.
E foi essa percepo extraordinria que a arrancou ao instante vivido, furtando-se-lhe no tumulto de princpios que acordavam desordenados.
- Meu Deus! - pensou num relmpago a razo em combate com os sentimentos. - Mas que vai ele julgar de mim?...
E a ideia tamanha sacudidela lhe desferiu nos nervos que impetuosa se libertou dos braos que se diria no acreditarem sequer na possibilidade daquela fuga.
Ficaram assim frente a frente, encarando-se, ele surpreendido, ela suplicante.
Depois, cedendo ao espanto, os lbios viris articularam a frase interrogativa.
- Porque me repele? Porque me detesta?
Os olhos femininos recusavam-se  interrogao. Clarinha no podia convencer-se de que era de facto a ela a ela, CLARA VORACIMA! - que tudo aquilo estava acontecendo.
No! Tratava-se de um sonho que se tornava um pesadelo...
Ele,  beirinha dela, insistia porm:
- Diga-me, diga-me porque me repele! Porque me detesta! Responda-me!
E ela, para o impedir de tocar-lhe:
- V-se embora!
Mas j ele voltava a abra-la, num delrio.
- No me fujas, no me evites! Pois no sabes que te adoro? Desde o primeiro minuto... no sabes? Amo-te!

59


Confisso estonteante, confisso temvel, acabando de desvairar a que em relmpagos via luzirem as estrelas do cu e as labaredas do inferno mas logrou triunfar
do avassalante torpor e brutalmente, magoando-se, lutar para soltar-se. E conseguindo-o. Conseguindo-o porque j ele, numa terrvel mutao, a flagelava com uma
frase to custica e amarga quanto pouco antes em cada slaba s havia calor, s havia ternura, s havia lume de alma.
- Ah, sei...  por causa do tal... do que estavas a beijar!... Por causa dele me desprezas. O Sr. Adriano de Castro pesa muito na vida de Clara voracima!... Mas
ns estamos ss!
Adriano. Adriano de Castro. Adriano que estivera falando nos homens sem escrpulos!...
Batia cada vez mais acelerado o corao da rapariga. Alais acelerado, sim, mas acelerado pela evocao do fugaz encontro da vspera, agora iluminado por uma claridade
imensa que lhe mostrava a extenso do equvoco! Sim, o equvoco! O engano tremendo!... Porque... porque eles no usavam apelidos iguais!... Ele era de Castro - o
sobrenome da Me. Ela, voracima. - o sobrenome do Pai. Uma combinao para no darem demasiadamente nas vistas com a insistncia da repetio...
E ento, inesperadamente, Maria Clara rompeu em gargalhadas, nervosas sim mas divertidas tambm...
Ele, interdito perante a inslita reaco, largou-lhe as mos de que se apoderara, talvez receando-a enlouquecida. E Clarinha recuou uns passos sem que ele a seguisse.
Ele que repentinamente caa em si, por certo repeso do movimento inesperado que brotara da violncia dos seus mais ntimos sentimentos. com efeito, algo lhe passara
pela cabea, algo de to anormal como se naquele lugar pairasse qualquer sortilgio...
Maria Clara deixara de rir. Deixara de rir para, altiva e donairosa, pronunciar com voz ntida:
- No esquecerei o que me disse! Espero da sua dignidade que me repita essas palavras l em baixo, na vila, quando tornarmos a encontrar-nos! - e voltando-lhe as
costas, largou a correr, retrocedendo no caminho to descansadamente percorrido momentos antes. E ia desatinada, na nsia de poder isolar-se na alegria da ingnua
vingana premeditada, vingana que decerto encheria de confuso esse que ento sim, ento havia de pronunciar-lhe ao ouvido a frase h pouco referida, a frase que
une as almas aos4 pares. "Amo-te! "...
Que maravilha!

60


Chegou a casa esfalfada, despenteada e um tanto dorida.
Descera correndo o monte e correndo seguira at casa. Soltara-se-lhe na carreira a trana em que apanhava os cabelos e no quisera deter-se para de novo a prender.
Mas ao olhar duas vezes para trs, no temor (e no inconsciente desejo) de se ver seguida, escorregara e cara, ferindo nas pedras os joelhos e as palmas das mos.
A tudo insensvel, continuara sempre avante, sem atentar em ningum, sem olhar a coisa alguma.
Se o Universo cantava dentro dela um hino de amor e ventura, hino que seria doravante o seu anseio, a expresso mxima que buscaria alcanar na realizao espontnea
da mais bela obra de arte - que importava tudo o mais?
Vivendo dentro do mundo que se erguera por obra do Destino, bem frgil seria o seu esplendor se atravs dele pudesse ver alm...
Bastava-lhe!

X

Em casa, de semblante carregado - horas a marcarem noite embora o sol ainda mostrasse um resto de dia - em regresso inesperado motivado pela ausncia forada dos
amigos chamados  cidade por doena na famlia, o Pai esperava-a agastado com a demora, tanto mais que Helena, conhecedora do gnio aventureiro da filha, havia j
manifestado as suas preocupaes.
E ao v-la surgir em semelhante desalinho, o corao da Me, presagiando as desgraas temidas palpitou acelerado.
- Que te aconteceu, filha?
E ela abria uns grandes olhos espantados, inocentes, procurando resposta adequada.
Na verdade... que lhe acontecera? Que coisa maravilhosa... ou horrvel?
Alberto voracima, desagradado pelo que parecia confirmar qualquer aventura perigosa, impacientava-se.
- . Onde foste - inquiriu austero, voz inflexvel de quem no tolera esquivana  lisura dos actos. E muito raramente o Pai se expressava nesse tom...
Maquinalmente, Clarinha articulou a frase verdadeira que lhe badalava no ntimo mas cujo significado s a ela prpria pertencia.
- Venho do castelo, Pai. Fui ver o castelo!

61


Acaso no poderia o Pai contemplar nos seus olhos, o reflexo das deslumbrantes paisagens que admirara, extasiada?... No! O Pai no via coisa alguma nessas pupilas
fulgurantes... porque ela no as erguia para ele.
E o Pintor, que bem teria gostado de ver o que ela vira, indignou-se.
- Que disparate! Ires sozinha para um tal stio! Endoideceste, Maria Clara? Caminhos de cabras, locais ermos... - e ralhava como a uma garotinha, a garotinha que
ela costumava ser para o seu afecto extremoso, embora o no fosse mais...
- Olha as tuas mos! As tuas mos, Maria Clara! Em que estado as puseste! Caste, no foi? Caste e se te ferisses seriamente, quem te acudiria? Se partisses um
brao? Se ficasses inutilizada para o teu Piano? E se algum malfeitor te atacasse?
Ela permanecia de cabea baixa, mas no como nos tempos de criana, em que a mais ligeira repreenso, talvez pelo hbito de as no ouvir, tanto a magoava. E em vez
de desprenderem lgrimas caudalosas, os seus olhos iam continuando resplandecentes... cada vez mais, cada vez mais... As palavras do Pai soavam-lhe como atravs
de sinos em aleluias. E pensava, num turbilho "que engraado! Um malfeitor!... No pode saber que o encontrei... que encontrei um ladro que me levou o corao
para sempre, pagando-o com... com um beijo! "...
Levantou finalmente a cabea. E tanta alegria lhe inundava o peito e subia aos lbios, que no pde mais sust-la e desatou a rir, a rir nervosamente, excitantemente,
em grandes froixos que no reprimia.
Oh! Ela bem sabia que talvez no devesse achar graa ao que se passara. Talvez lhe ficasse bem revoltar-se com o que fora um autntico atrevimento... Mas ela amava-o!
E ele amava-a!... Quando se aclarasse o equvoco, como ambos seriam felizes! Como ela seria venturosa, no tardaria muito pela certa!
Ouvindo-a rir assim, surpreendia-se a Me, abismava-se o Pai - que alteou a voz, ainda mais rspido.
- Maria Clara! Desde quando ris porque te censuro? Desconheo-te e isso desagrada-me. Querers dominar-te e explicar-me o teu procedimento?
A intempestiva alegria de Clarinha principiou enfim esmorecendo. No, no pela reprimenda! Apenas porque...
Sim, era isso! Descia agora sobre o seu encantamento o pano sombrio do terror... Terror, terror, terror! Se a sua fuga

62


fosse mal interpretada por ele Ou se viesse a ser mal julgada, por uma conscincia severa, a momentnea fraqueza demonstrada? Podia t-lo afastado de si para sempre!
E to grande foi o choque sentido perante a ideia do hipottico repdio que, no mesmo instante, medindo melhor a insensatez com que procedera, a boca lhe tremeu,
as faces lhe descoloriram e as lgrimas brotaram de entre as plpebras cerradas, tudo acompanhado de um baixar de cabea infinitamente humilde.
Julgando o pranto originado pela severidade paterna, logo se condoeu a Me, que ergueu um mudo apelo  benevolncia do marido. Uma benevolncia que no precisava
de estmulos para se manifestar. Alberto, perfeito conhecedor do esprito impressionvel da rapariga, reflexo da sua prodigiosa sensibilidade, no suportava que
a filha chorasse.
Evidentemente, nem ele nem Helena podiam adivinhar que Maria Clara no prestara ateno a uma nica das palavras que haviam sido pronunciadas, vivendo entregue apenas
s reaces do seu prprio mundo...
Ningum possui o condo de saber o que regista o crebro atrs de olhos amados. O esprito  um criador to livre que s nas prprias crenas pode algemar-se...
E assim, na inquietao de ter provocado o desgosto de Clarinha, a mo cariciosa do Pintor se afundou entre os cabelos desordenados da filha.
- V, no precisas de chorar! Basta que no repitas a extravagncia de hoje! Acabaram-se as lgrimas, menina! - e terno como sempre: - D c um beijo e vai-te arranjar
para jantarmos que so mais do que horas.
Maria Clara no deu resposta, no esboou uma pergunta nem sequer estranhou a presena com que no contava e s no dia imediato teria explicao. Enxugou as faces
e obedeceu, instintivamente, a quanto lhe era dito. A sua expresso reservada, porm, mostrava aos Pais que ela ficara melindrada... Mas porque, segundo o habitual,
depressa a nuvem se desfaria, ambos sorriam indulgentes, sem apreenses.
Tarde na noite, sentada na cama, de mos entrelaadas e fronte melanclica, Clarinha tentava acalmar e reflectir.
- Porque me afligi - repetia a si prpria, procurando libertar-se de medos e de esperanas e recuperar o bom-senso normal. - Estar a preocupar-me por causa de um
erro da parte dele!... Tenho de ser sincera e de encarar a realidade!

63


Ele disse que me amava... que me quere... Portanto o engano ser destrudo amanh! Amanh, logo, ele saber que o Adriano... o Adriano de Castro  meu irmo... saber
que somos ambos de Castro voracima... e vir pedir-me desculpa... e eu tudo perdoarei e ele repetir o que disse... e eu responderei que... Ah, meu Deus, valei-me!...
Procurava libertar-se de medos e de esperanas. Desejava recuperar o
bom-senso normal. E misturava reflexes com preces... e um sorriso principiava desanuviando o semblante aureolado pela nuvem dos cabelos soltos.
Quando finalmente se aconchegou na roupa, as plpebras fecharam-se docemente sobre um olhar lmpido por detrs do qual despontava a luz de uma viso resplandecente...

Xi

Rodeavam-na, disputavam-na, ensurdeciam-na com perguntas, exclamaes e risos, envolvendo-a numa atmosfera de entusiasmo que tanto a enfastiava como divertia.
- Diga, Clarinha... Acha que o seu irmo vai entrar na nossa festa?
- 'No sejas chata, Fausta! J falaste nisso vinte vezes!
- Tenho receio que ele no aceite!
- Aceita! Tenho a certeza de que ele aceita!
- Pedes-lhe tu?
- Pedimos as duas!
- T bem! E voc Maria Clara, promete advogar a nossa causa?
- D-nos todo o seu apoio, d?
- Que coisa espantosa, Clarinha! Os seus olhos so tal qual os do seu irmo! Que uma rapariga os possua to bonitos, no admira, mas num rapaz  pouco vulgar!
- Tambm reparaste na linda cor que tm?
- 'Reparei, pois! Como tu, que no tens feito outra coisa seno gab-los!
-  que na verdade so maravilhosos!
- E voc sente-se orgulhosa do seu irmo, Clarinha Sente! No podia deixar de ser!
- Olha que pergunta! E depois ele no  somente um belo rapaz,  tambm um destemido Aviador!

64


- Um heri!
- Uma figura de romance, das que nos prendem a imaginao porque por onde passam semeiam o amor!...
- Oh, oh! V se ele te escolhe como eleita!... O pior  se j est preso noutro lado...
- Hum... no deve estar!... Os tipos como ele no gostam de se comprometer novos. At aposto que o Adriano no namora ningum!
-  questo de lho perguntares quando ele voltar.
- Julgas que no sou capaz de o fazer?
- L isso s... e pode muito bem ser que ele venha a gostar de ti!...
- Ou de ti!...
Enquanto as duas estouvadas, Florncia e Fausta Irene (a Fausta... assim se entusiasmavam e querelavam, Clarinha, silenciosa, ia sorrindo intimamente ao prestigioso
encanto do irmo que s de passagem pudera deixar embebidos na sua recordao dois espritos femininos. Ele  que tinha razo!
Na verdade, outro Adriano no seria fcil de encontrar!... Conquistador experiente, capaz de a todas trazer no corao, de gostar de todas e de simultaneamente para
todas compor uma estonteante corte (ainda que estivessem juntas, de tal modo as ofuscando que nada mais nenhuma via alm do belo fascinador, ficando assim impossibilitadas
de notarem o quanto repartia as meigas olhadelas) o irmo bem justificava o temor das mams sensatas...
E o sorriso de Maria Clara, definindo-se, tornava-se inequivocamente irnico. E Leonorzinha, a irmzita de Florncia, como garota sem importncia considerada pelas
outras, ali estiraada na areia, ao lado dela, surpreendeu-lho e interpretou-o. Interpretou-o, compreendendo o quanto a irm e a prima estavam a tornar-se ridculas,
pelo que, justamente quando elas menos esperariam ouvi-la, as admoestou:
- Meninas! Que insuportveis so! E tu, Flor, no sarrazines a Fausta! Ela  livre, pode gostar de quem quiser!
Brusca alterao modificou a expresso de Florncia que logo - como se nas palavras que ouvira existisse qualquer exprobao que em cheio a atingia - se voltou para
a irm, colrica.
- Ora no sejas atrevidinha, no? Continua l a sonhar com o prncipe encantador que te h-de sair numa rifa e no te metas nas conversas das mais velhas!

65


Leonor encolheu os ombros, sem dar mostras de se ter ofendido com a admoestao - talvez por no lhe ligar mais do que a merecida, nenhuma importncia.
- Ah, sim? Pois olha que a Maria Clara est a rir-se de vocs!...
- Oh, eu? Porqu? - tentou protestar Clarinha, sentindo-se corar diante da perspiccia da inimaginada observadora.
A rapariguinha meneou a cabea cheia de caracis negros, naturais, que a coroavam dando-lhe a mais deliciosa das aparncias - lembrava um querubim! - e redarguiu:
- Porqu? Naturalmente porque elas ainda no tiveram outro assunto de conversa que no seja o seu irmo e voc deve achar inconveniente tanto interesse por um rapaz
que mal conhecem!
Havia expressivo azedume na voz de Florncia quando, a essa desassombrada opinio que obrigara Maria Clara a fitar com nascente considerao o vulto franzino de
Leonorzinha, replicou:
- Que tola! Ningum pode recriminar uma simpatia que nasce espontnea!
Fausta Irene, que se conservara prudentemente calada, observou de sbito, com alegre sobressalto:
- Meninas, ateno!... Aproxima-se o objecto da disputa!
- Voltaram-se todas, surpreendidas, embora Clarinha menos
do que as outras... Manifestaram-se Florncia e Fausta Irene, com demonstraes de jbilo.
- Oh, Adriano! Bem-vindo!
- Que gentil foi voltando assim depressa!
O sorriso de Clarinha evolura para malicioso, talvez reproduzindo a expresso do rapaz, impecvel no fato claro de desporto, que se aproximava em passo elstico,
cadenciado.
De si para si, a jovem Artista pensava:
- Ei-lo que chega armado at aos dentes! Agradou-lhe a ideia da dupla conquista e no descansou enquanto no teve licena para vir entregar-se s delcias da praia...
Elas que se acautelem!
Mas de sbito, pasmou-lhe o olhar contemplativo.  que, aps haver cumprimentado as duas primas em entusiasmo digno daquele com que o recebiam, Adriano, inacostumadamente
grave, inclinava-se para Leonor que se sentara comedida e no fizera qualquer movimento para o acolher, apenas estendendo agora num gesto banal a mozinha delgada.

66


- Cus! - pensou Maria Clara, alarmada. - Querer ele que a garota se apaixone tambm? Como sabe adaptar-se a todos os gneros, ama ao srio...
No pde continuar o raciocnio porque dois sonoros beijos lhe estalavam j nas faces.
- Garota, voc hoje est muito bem vestida, muito dama da corte!...
Era verdade. No seu vestido azul-marinho, de pregas fartas, Maria Clara recobrara o porte donairoso - to arrapazado em horas despreocupadas quo senhoril se ela
atravessava um palco, de saia roagante, para agradecer as ovaes do pblico.
Mas Clarinha, impressionada com o ltimo reparo feito sobre uma atitude de que discordava - Leonor parecia-lhe completamente diferente das outras duas! - no mostrou
a boa disposio habitual, ripostando sisuda:
- Se soubesse que vinhas hoje, ter-te-ia ido esperar.
- Adriano era demasiado esperto para no perceber o oculto
sentido da frase da irm. E as suas pupilas ainda mais fulguraram.
- Queres ralhar-me pela surpresa, minha adorvel maninha?
A reflexo bastara para que tambm ela o entendesse. Conheciam-se demasiado para que o contrrio pudesse dar-se...
E de forma a ser ainda e s por ele interpretada, Clarinha volveu:
- Por ora no, no vejo de qu! Esperando que no tenha de faz-lo... - e ameaava-o graciosamente, de dedo estendido, enquanto o mancebo, rindo com o seu irresistvel
-vontade, se instalava entre Fausta e Florncia.
Foi quando, do lado oposto quele de onde surgira o irmo, se veio aproximando uma silhueta que, imediatamente reconhecida por Maria Clara - embora s a visse alongada
em sombra na areia - a esta acelerou o ritmo do corao.
- "Meu Deus! - pensou. - Mas... ele vir falar-me aqui?... Ousar..."
Como que atrados poderosamente, os olhos dela no logravam desfitar agora esse que continuava a ser um desconhecido e, desde a hora que longnqua no ia, se tornara
senhor da sua existncia. E via-o de rosto duro, um rctus amargo aproximando-lhe as sobrancelhas fartas, fixando alternadamente e enquanto avanava ora a ela ora
ao loiro Aviador.

67


Adivinhava-o preso de uma raiva surda - talvez a raiva do cime! - e notou-lhe a expresso m, de sarcstico dominador que despreza o mundo porque em seu esprito
de singulares capacidades o compreende indigno de perdes.
Mas, triunfante por livre de quaisquer sustos, em Maria Clara tudo cantava vitria. Sabia que dependia dela conceder-lhe o fim de quaisquer dvidas!... Uma convico
efmera! Porque j uma surpresa violenta sobre ela descia.
Ouvira Leonor rir. E viu-o, acto contnuo a seu lado, inclinar-se para a rapariguinha que o Saudava em jeito da maior familiaridade. Sim, familiaridade. Porque era
para a pequena e para as outras que ele se vinha dirigindo!
- 'Viva, Duarte! At que enfim apareces! Tens andado muito fugido!...
Entretidssimas com Adriano, s agora davam pelo recm-chegado, cujos olhos custicos to ameaadoramente fitavam o Aviador que este,
notando-lhes o peso mal para ele levantara a cabea, no hesitou em responder-lhes com intemerato semblante. A distrair um e outro daquela agressividade latente,
a voz jovial de Fausta saudando-o e a atitude de Florncia que langorosa lhe abria os braos.
- Oh, Duarte, que ausncia! Estou zangada contigo, sabes? Ontem passei a tarde  tua espera e tu nada! Nem sinais de vida!
Apenas o interpelado viu Clarinha voltar precipitadamente o rosto alagado pelo rubor em expressiva confuso que alis ningum saberia interpretar, ainda que a notassem!...
Entretanto respondia Duarte  que o incriminara:
- Atrau-me um certo passeio e optei! De resto e pelos vistos nenhuma de vocs se aborrece longe de mim! Tm um novo companheiro, que no deve eximir-se a entre
t-las...
E a animosidade no cessava de aumentar entre os dois homens, pelo que imediatamente comentou em tom de evidente desagrado:
- Entreter as pessoas no  a nica arte em que sou exmio. Tambm sei experimentar os punhos na cara dos insolentes.
Fitaram-nos inquietas e perplexas as raparigas.
Temerosa de algum conflito, cuja verdadeira origem s ela conhecia - ai de Duarte (que bonito nome! se Adriano suspeitasse do que se passara! -, Clarinha poisou
uma das mos sobre um ombro do irmo, indiferente ao olhar carregado e inquiridor de Duarte que se diria sufocado ao notar-lhe o gesto.

68


- Meu Deus, Adriano!... - disse. - Quebras lanas por ninharias!
- Se te apraz, censura-me! J agora!
Clarinha leu-lhe nas pupilas iradas a confirmao de que ele no perdoara ao outro a cena da ante-vspera. Ficara a remorder-lhe o nimo e no o deixaria quedo,
a ele que nunca perdia to completamente a cabea como ao supor que algo atingia a sua predilecta...
J Duarte, porm, com requintada ironia - que no disfarou - e tal como se se divertisse num jogo arriscado, inclinando-se para Maria Clara, observava:
- Por quem ! No pense que julgo dirigidas a mim as palavras do seu... do seu... - e hesitava intencionalmente, ferindo-a com o olhar acerado.
Ento, serenamente, radiosa de poder esclarecer a situao, forando-o ao respeito que lhe devia no reconhecimento do erro cometido, Clarinha proferiu, em jeito
de natural apresentao:
- Do meu irmo, Adriano de Castro voracima.
Foi imediata e tremenda a transformao de Duarte. Ficou muito srio, entreabriu os lbios... e o seu rosto magnfico exprimiu tanta consternao, tanto pesar e
tanto arrependimento que Maria Clara, generosa, sorriu como que a tranquiliz-lo acerca dos sentimentos que lhe votava, plenos de simpatia e de... de...
No tardaria Duarte com certeza a pedir-lhe perdo do seu arrojo baseado em falsas convices e tambm ela teria ensejo de se desculpar da primitiva grosseria com
que o tratara.
Mas de pouca durao seria o contentamento da jovem, que no tardaria em apreender o significado da contraco dolorosa que empedernia as feies do mancebo.
Florncia continuava a falar, com expresso lamurienta.
- Oh! No vo zangar-se antes de se conhecerem, no? V, deixem-me apresent-los! Clara voracima, a grande Pianista e o irmo, o Adriano de Castro... Duarte Zzere,
meu noivo...
Transtornou-se o rosto de Maria Clara, em repentina expresso de horror; descomedidos se abriram, cheios de espanto e agonia, os lindos olhos azuis; plidas como
cera ficaram as faces pouco antes da cor das rosas... E quando os seus dedos foram tocados pela mo masculina ela mal reteve um grito de dor!
Felizmente para ela todos os outros riam e tagarelavam. Adriano, aquietado face  situao, tornara-se acolhedor e entusiasta, arrastado na engrenagem de uma conduta
inconfessavelmente mais excitante ainda...
Quanto a Duarte Zzere, sem uma palavra, sentara-se contemplando o mar, parecendo brincar com a areia... A essa, na verdade, esmagava-a sob o imprio da raiva que
sentia contra si prprio, vtima de odiosa miragem que o tornara culpado de uma perfdia, de uma vilania que o atordoava!
E talvez no s...

69


XII

Abenoada alegria a de Adriano, espalhando-se em torrentes de palavras, em risos, em comentrios de inexcedvel graa, em impagveis anedotas, em frases de total
domnio! Graas a elas, que envolviam Florncia e Fausta no mesmo fluido, duas almas podiam alhear-se da existncia prometedora que as rodeava para se entregarem
 cruel angstia que se apoderava do terreno conquistado no lance comum.
Maria Clara, face  desiluso agreste, vergava.
A valorosa, cujo indefeso corao de pronto se rendera ao amor, sem lutas nem desconfianas, encontrava-se junto de um abismo que requeria muita prudncia e muita
coragem para ser ladeado sem perigo. Eis o que o Destino tivera para dar-lhe em troca do sossego procurado!
Duarte Zzere, esse, mau grado o orgulho masculino a tudo sobranceiro, sentia o peso das repreensveis atitudes que, sem qualquer justificao razovel, se permitira
assumir. Procedera de maneira infame e no lhe tranquilizava a conscincia o pensar que outro podia cair em idntico logro.
Um homem digno  o sempre e em qualquer emergncia e nunca ter de arrepender-se ante os ditames da honra, que todos ouvem desde que no estejam completamente mergulhados
em abjeco e ignomnia.
E o pior... o pior de tudo, ainda,  que nessa brincadeira em que o capricho se ascendera num rpido voluteio, a borboleta ftil queimara as asas. E o mancebo reconhecia
que Maria Clara no surgira em jeito de ninfa graciosa que momentaneamente lhe retivera a ateno mas sim como mulher ideal, essa

70


que mal ousara imaginar em raras crises de sentimentalismo, considerados to ridculos e incoerentes na vida prtica onde os devaneios no acham nem lugar nem realizao,
a mulher em cuja existncia no acreditaria nunca e agora ali surgia luminosa a acordar-lhe no peito um amor soberano.
Mas... a sua palavra estava desde h dois anos empenhada com Florncia, no por encanto espiritual mas por anseio e comodidade futura, inerente a qualquer homem.
Ela ou qualquer outra, seria idntico, e se a escolhera fora porque a sua mocidade exuberante a tornara notada na sociedade em cuja rbita se movia. Talvez, analisando-a
a frio, pudesse
encontrar-se-lhe qualidades capazes de lisonjearem a vaidade do homem que busca na companheira uma presena de efeitos agradveis. E isso bastava a quem de forma
alguma suporia vir a sentir de outra forma.
Admitira, racionalmente, que lhe seria fcil quedar-se por ali. Para encontrar futilidade, gorjeios de passarinho e ignorncia do lado srio da vida, no precisava
de ir mais longe, entregue a experincias que o aborreciam, porquanto elas s vezes do-se aos choros, s exigncias, aos protestos, e ele, em seu natural egosmo,
detestava complicaes.
Detestava complicaes! Que tremenda ironia!
Detestava complicaes e enredara-se numa a que no descobria porta de sada...
Andara voluntariamente cego at ento ou o Destino assim quisera as coisas? E para qu? Para o castigar da insensatez do seu critrio?
Ei-lo noivo de Florncia e conscientemente incapaz de um rompimento miservel...
No entanto Desejara erguer as pupilas, olhar Maria Clara de frente, porm no se aventurava. Conhecia-lhe a expresso de nobre independncia que tanto o fascinara
e temia v-la impregnada pelo desprezo de que a alma dela transbordaria. Conhecia-lhe a expresso de convicta alegria que tanto o seduzira e temia v-la marcada
pela revolta que no podia deixar de avassal-la.
Clarinha odi-lo-ia com um dio justo - porque outro sentimento no merecia inspirar o homem que to baixo se colocara no duplo erro de a julgar pela mais falsa
das aparncias e de se mostrar em posio dplice quando ela se revelava digna da coroa branca das imaculadas!
A pouco e pouco, mas com energia, Maria Clara ia entretanto

71


reapoderando-se da calma graas  qual sem tardar assumiria a atitude indiferente que lhe competia hastear no instante difcil em que o seu corao precisava de
envergar a armadura dos bravos... Sofrer - mas no permitir que o sofrimento transparecesse. Chorar - mas depois, nunca de modo a levar aos lbios dele o sorriso
frio e zombeteiro que devia t-la posto de sobreaviso e mais no fizera do que apaixon-la! Rasgar o lencinho inocente que apertava nas mos - mas sem que ele visse
constrangida a boca que na vspera beijara...
Fora troada. Talvez fosse caluniada, pela fraqueza que tinha explicao no amor - Amor que ele no conheceria porque havia sido condenado  morte no primeiro frmito
de vida.
Porque fugira ela  regra de conduta anteriormente traada? Porque aceitara conviver com aquela gente?
Ter tido foras para se manter na posio primitiva... e poderia levar intacto, inviolado, o sonho embalador!...
E bem fundo na alma, gemia "Vida! Porque me ds a tortura de uma paixo intil aqui, onde vim procurar sossego e paz... ".
Vencida finalmente a ntima perturbao, levantou a cabea, prestando ateno  tagarelice do irmo que arrebatava as auditoras com a sua fluncia habitual. E no
meio do seu tumulto interior, outra ideia perpassou "o mau do Adriano, que no cessa de atormentar os coraes femininos e talvez procure seduzir essa que, sem culpa,
me lana na amargura! ".
E a sua inteligncia ciciava agora "porque me trouxeste aqui, Vida, se eu apenas pedia tranquilidade?"
E foi ento que recebeu uma como que assombrosa resposta!
Adriano falava, falava, falava... mas os seus olhos submissos rendiam-se na contemplao de um rosto sisudo, que s se lhe mostrava de perfil e cujas pupilas se
conservavam perdidas no mar azul, to indiferentes e suaves como suave e indiferente aos problemas das criaturas se mantinha esse Oceano que parecia um lago sem
cleras.
E que expresso singular a do irmo naquele instante! Dir-se-ia admirado desse alheamento a que no estava habituado e ao mesmo tempo sedento de uma ateno que
no lhe pertencia. E era simultaneamente alegre e pensativa, a expresso, como se um secreto deslumbramento principiasse a nascer na sua alma perante um sorriso
que no surgia... Interesse real ou desejo de mais uma vez dominar resistncias e depois seguir alm buscando novas sensaes?

72


Clarinha no poderia chegar a qualquer concluso. Dirse-ia que lhe estavam vedadas as reflexes, para ser totalmente espectadora e apreender situaes sem tempo
para as classificar.
Florncia e Fausta Irene acabavam de pr-se de p; desnudamente elegantes aprestavam-se para o banho.
Adriano, com certa negligncia, como se no ligasse importncia s prprias palavras, voltou-se para a silenciosa Leonor que permanecia imvel e sempre como que
indiferente a tudo, indagando:
- Tu no tomas banho com a gente?
E a resposta peremptria da voz cantante, a que no correspondeu o mais leve movimento de cabea, foi:
- Eu nunca tomo banho.
Entre duas risadas para as outras, o Aviador insistiu:
- Porqu? A gua faz-te ccegas?
Franziram-se as sobrancelhas de linhas harmoniosas, traduzindo certo afastamento. Depois, voltando  natural descontraco, por alheada dos desgnios alheios, uma
breve mas firme:
- Faz. Nas plantas dos ps.
A declarao, desconcertante, teve como consequncia ver cair-lhe ao lado, de joelhos, o entusiasta mancebo, estimulado pela sacudidela.
- Oh, Leonorzinha, que vergonha! O que a menina tem  medo do mar! Medinho do bom!
E ela:
- . Nenhum medo! Nem do mar nem de nada. No sei o que isso !
Uma declarao positiva e dita dignando-se olh-lo pela vez primeira com os olhos verdes, muito lindos e doces apesar da secura das palavras.
Adriano sentia algo de muito estranho apertar-lhe a garganta. Perdera a vontade de seguir as duas sereias que falavam arrebatadamente no seu desejo de mergulhar
no lquido fresco que as afagaria no remanso da sua ondulao...
Leonor afastava-se j, buscando o sol. E, repentinamente, Adriano achou que tambm devia fazer-lhe muito bem repousar debaixo dos raios do astro que subia no esmalte
do cu. Achou que devia fazer-lhe bem e estendeu-se ao lado dela, ripostando  frase que o perturbara:
- Gosto de saber-te assim corajosa! E ser um prazer admirar-te e aplaudir-te em qualquer faanha digna da tua
"
- 73


intrepidez! - e como finalmente um leve sorriso entreabrisse os lbios pequeninos, prosseguiu, ainda mais encalorado: - Aceitas uma exibio que me convena?
- Uma exibio?
- Sim, uma prova!
Inesperadamente travessa, Leonor ps-se a rir, familiarmente.
- Sujeito-me  exigncia... desde que no molhe os ps por causa das ccegas...
De lado, desdenhosa - ou no percebesse que a desvanecedora ateno do Aviador lhe fugia a caminho da irm considerada sem importncia. - Florncia comentou:
- Deixa-a falar, Adriano! Ela de coragem s conhece a palavra. O resto  miafa, miafa igual  dos midos!... No entra nem num bote! E para atravessar o rio, fecha
os olhos!
Ficou muito corada, a atingida.
- Que exagero! - replicou. - Nunca fechei os olhos em cima da ponte!
- Mas quando te aproximas dela gemes a dizer que antes querias ficar em casa! Ou no?
- Ora! Isso aconteceu uma nica vez e porque eu estava com dor de cabea!
Florncia no se compadecia.
- V l... posso dizer a verdade! Do rio no tens grande medo, mas do mar!... - e para o oficial que, de expresso reservada, seguia o debate: - Calcule, Adriano,
que ns queramos dar um passeio para assistir ao levantar das redes e ela, feita desmancha-prazeres, recusou-se terminantemente a acompanhar-nos! E depois jura
e trejura que no sabe o que seja medo!...
Ento a adolescente empertigou-se e, numa espcie de vibrante desafio, declarou:
- Pois vou quando vocs quiserem! Hoje mesmo! T certo?
Fausta Irene e Florncia prorromperam em clamorosas demonstraes de discordncia, no propsito evidente de a meterem a ridculo.
- Oh, no! No aceitamos semelhante responsabilidade! s capaz de morrer de susto!...
- Temos de levar Mdico assistente, que tu adoeces pelo caminho!...

74


Leonor no lhes retorquiu. Voltou-se para Adriano e, como se estivesse certa de que ele a compreenderia e auxiliaria, implorou num timbre meigo que contrastava com
as vozes speras das duas estouvadas:
- Sr. Tenente, interceda por mim, peo-lhe! Troam-me implacavelmente desde que no ano passado, num charuto, vi jeito de nos voltarmos, tantas cabriolas fizeram!
E mergulhos forados no me agradam. Elas nadam mal, as desgraas sucedem, no ? Mas hoje estou disposta a mostrar que efectivamente no sou nenhuma medricas e
vou com elas para a armao.  a tal prova... - aqui, a voz tremeu-lhe imperceptivelmente e aps breve hesitao concluiu: - No entanto, como elas so amalucadas,
eu agradecia ao Sr. Tenente se quisesse acompanhar-nos. Talvez goste do passeio... evitando que elas cometam alguma imprudncia!
Estralejaram gargalhadas.
- Receias que te atirem pela borda fora?
- S com escolta, Leonor? No confias em ns?
- Olha que o senhor tenente no est disposto a tomar conta de bebs...
Mas o senhor tenente dirigiu-lhes um olhar que sustinha novos sarcasmos e, poisando a mo no brao de Leonor, expressivamente maravilhado por aquela frescura to
sem artifcios, declarou:
- vou com o maior prazer, Leonor, podes ficar sossegada. A tua irm e a tua prima no te arreliaro. Eu tomo conta de ti... e delas!
O tom afvel acabou de conquistar a confiana e a simpatia da rapariguinha, que o encarou cheia de gratido - ou no estivesse ela habituada a que Fausta Irene e
Florncia a atormentassem considerando-a uma espcie de gata borralheira.
E enquanto Adriano assim cativava essa Leonorzinha que a princpio nem se dignara olh-lo, no costume e no intuito de permanecer alheia  reconhecida estouvanice
das companheiras- s quais, alis, tambm se julgava inferior, pelo que sempre se mantinha delas distanciada! -, a utilssima Florncia delirava ante a perspectiva
do passeio em companhia do Aviador - sem se lembrar sequer de que a ficava devendo  irmzita... E expandia em entusiasmos.
- Oh, que rica tarde vamos passar! Depressa! Temos de procurar o Sr. Joaquim, a ver se ele nos arranja um mestre

75

que nos leve... Venha, Adriano. Venha da! - e de sbito, voltando-se para Maria Clara, a quem at ento no ligara importncia, como se a esta bastasse comparticipar
da que atribuam ao irmo, indagou, no mesmo jovial tom de comando: - E voc, Clara? Tambm vai, pois vai?
Bruscamente interpelada, Clarinha, a quem fora salutar aquele perodo de reflexo, volveu naturalmente, em obedincia a um impulso sem premeditao (pois de forma
alguma previra o convite):
- No... eu no posso acompanh-las. Desculpem!
Nenhum pesar, nem sequer por delicadeza, Florncia manifestou. Limitou-se a perguntar ao noivo se ia ou ficava. Duarte disse que ficava.
Clarinha abafou um suspiro. Agradar-lhe-ia em absoluto uma tarde passada sobre o mar. Na verdade com que se esquivara ao passeio existira o temor de que lhe fosse
imposta a presena, agora penosa ao mximo, de Duarte Zzere. No voltaria, porm, com a palavra atrs...
O irmo levantara-se para seguir Florncia e Fausta Irene que sem mais delongas pretendiam conseguir a realizao dos seus intentos. E Zzere aproveitou para se
retirar, depois de dirigir a Maria Clara um cerimonioso cumprimento.
Foi assim que a Pianista ficou s com Leonor. E com esta, singelamente principiou conversando.
Trocaram impresses, cruzando pontos de vista sobre os assuntos que abordavam, e uma verdadeira simpatia nasceu entre as duas raparigas, fazendo com que horas depois
Clarinha recomendasse ao irmo, notando-lhe o crescente entusiasmo:
- Peo-te que no brinques com a Leonorzinha!  pura e confiante como uma criana.
E, repentinamente muito srio, o Aviador respondeu-lhe, bem longe de gracejar como era seu hbito quando lhe ouvia alguma advertncia no gnero:
- Mas, garota, acaso julgas que no tenho corao?
- Clarinha sorriu-lhe, enternecida mas ainda no desarmada.
- Oh, no! Sei que tens... um corao onde as paixes cabem s dzias!...
- Mas que s eleger uma noiva!
E com esta frase que podia permitir as mais extraordinrias interpretaes, Adriano partiu para a tarde nutica...

76


xiii

Quatro horas da tarde.
Cu de um azul intenso, violento, onde fulge o sol que desce em torrentes de oiro derretido sobre a praia flamante de toldos brancos que abrem na areia osis de
sombra.
Zumbem moscas bailando no ar.
As silhuetas dos barcos perfilam-se ao longo das muralhas que defrontam o mar, sereno e harmonizado  tonalidade do docel que envolve a terra, enovelando espuma
de encontro ao silncio da costa bria de calor.
Modificou-se como que por encanto a doura da manh que tem luminosidade e esplendor mais esbatidos, mais delicados.
Para leste e este erguem-se os montes pardos, macios, sobressaindo como vigoroso desenho na diafaneidade da atmosfera.
Ao longe, cortando o amplo panorama, o farol atento escutando as preces da gua que num murmrio eterno lhe diz: "no te esqueas de brilhar, logo  noite, quando
no houver luz no cu. O meu destino feroz, implacvel, agradece-te que o livres de ser novamente assassino". E o farol, bondosamente, atende as preces da gua.
Para trs, fronteira ao Oceano, l no topo, arrogante por lhe ficar inacessvel, entre dois ciprestes melanclicos uma das torres do castelo. E ao longo da marginal,
as redes, secando, espalham o cheiro acre do peixe.
Mesmo em frente, sobre as ondas maneirinhas, oscilam donairosas as traineiras, as aiolas, as canoas, os vaporzinhos do alto... E em direco ao areal vem correndo
uma embarcao a remos, vigorosamente conduzida por um esbelto rapaz cujos msculos retesados denotam o esforo dispendido.
Na orla do mar movem-se silhuetas plenas de vio, trepidando impacincia, rodopiando, agitando no ar os braos nus, os chapus de abas largas e os lenos berrantes.
Riem, cantam, irradiam fulgor, como possudas pela necessidade imensa de transmitirem  natureza a animao que as empolga.
Pernas dentro de gua, Florncia e Fausta Irene incitam o Barqueiro a aproximar-se mais veloz.
- Eh l!... Rpido... Fora!
Adriano comparticipa do frenesim... mas poisa o olhar hmido de invulgar ternura no rosto, tambm risonho, de Leonor,

77


que na verdade, vencida a reserva natural - feita de qualquer coisa simultaneamente muito arisco, muito ingnuo e muito senhoril- se revela uma companheira adorvel,
to adorvel quo toda a sua figurinha.
De mos nas algibeiras das calas, o rosto tisnado ainda mais escurecido pela barba crespa de alguns dias, cachimbo pendente dos lbios grossos de bonacheiro, o
Jaquim vai falando depois de inspeccionar os horizontes com ares entendidos.
- Isto  capaz de virari o tempo!... Pralm esto a aparcer nuvens... se calhari vem a um ventania que faz danar! as barcaas... As meninas deviam levar lans!...
J Florncia replica, indignada:
- Ls, com um sol destes? - e depois de baldamente pesquisar o firmamento: - Onde esto as nuvens?
E Joaquim, de indicador espetado, aponta. E todos vem ento que a nascente, h na verdade tnues farrapinhos brancos- farrapinhos das ligaduras de um soldado que
morreu e subiu aos cus remindo os pecados dos homens que o mataram...
Leonor d razo ao velho lobo do mar e agita o saco de lona que no larga, apesar dos remoques ouvidos desde casa.
- Trago aqui os nossos casacos!
Fausta ri mais, chapinhando, salpicando os circunstantes, que protestam.
- Devias ter trazido tambm alguns cobertores!
Como que contagiada pelas foras joviais que a rodeiam, a primita faz uma careta engraada.
- Rala-te! A verdade  que o Sr. Tenente tambm trouxe camisola de l!
Adriano mira o agasalho que Maria Clara o obrigara a envergar.
- A minha irm deixava-me l sair sem isto!...
- Leonor aprova.
- S mostra que  ajuizada.
- Pelos vistos como a Leonor... - e uma expresso deleitada inscreve-se nas feies do rapaz ante o confronto simples que a ambas harmoniza no mesmo afectuoso paralelo
de desvelos sensatos.
Aps hbil manobra, o barquito aproa. J instaladas, Fausta e Florncia incitam Leonor a que suba.
- Vamos, salta!... Agora, enquanto o mar no vem!
- Mordiscando os lbios, Leonorzinha avana, decidida a meter

78


os ps na gua apesar do longo arrepio que a assalta. Mas no momento exacto em que o mar vai cobri-los, dois braos fortes levantam-na e colocam-na dentro do bote.
Aplausos das mais velhas, riso satisfeito da mais nova.
- Obrigada, Sr. Tenente!  muito amvel!...
E ele, carrancudo mas com um olhar doce que atenua a sisudez, instala-se na frente dela, segurando os remos que o rapazito lhe entrega  ordem do Joaquim, to prazenteiro
como os que embarcam e refilando:
- Pois sim, pois sim... Eu  que no acho nada amvel essa forma de me tratar como se eu fosse um velho! Faz com que me sinta deslocado!...
- Oh! - exclama a pequena, fitando-o penalizada, para depois comear a rir, percebendo o alcance da frase. - Nesse caso?...
- Nesse caso... troque o cerimonioso tratamento de "Sr. Tenente" pelo meu nome prprio. Ou no gosta?
Leonor sorri. No disfara a alegria que a invade.
- Oh, gosto imenso! - e as suas faces lembram ptalas de cetim: - Mas... no me atrevo!
- Atreve sim! Sob pena de eu a tratar e pr Vossa Excelncia...
Fausta Irene, desmiolada como sempre, bate palmas, indaga:
- E ns?... Ns podemos chamar-lhe Adrianinho?...
Ele continua a sorrir... e o seu olhar no se desvia da linda rosa prpura que abriu ptalas naquelas faces deliciosas.
- Podem, mas no divulguem a permisso... que isto no  para toda a gente!
com vigorosas remadas, o barco parte danando. O formoso ramalhete grita adeus ao velho Joaquim, que da praia lhes acena, comentando intimamente, com a instintiva
sagacidade alerta:
- Bonitas at ali!... Mas parece ca mais novinha  quem leva o corao do rapaz. E nam h que apontari nada a ele! Bonito moo! Tem cara de valente e nam conheo
nenhum mais sem toleima!... - e num sonho vago: - Dava gosto, se os meus fregueses comeassem todos a casari...
Do barquito, as raparigas vem mover-se os beios rudes, no solilquio, mas nada ouvindo, interpretam a seu modo as expresses dele e bradam, mos em porta-voz:
- Tudo h-de correr a contento!
79


- Ningum enjoa, vai ver!
E aquela encosta rente ao vaporzito de cinco ou seis metros de comprido por dois ou trs de largo, alto de um homem acima da linha de gua, flamejante no mastro
garrido, todo abalado pelo teuf-teuf contnuo do motor que anuncia a largada prestes.
Da amurada, um esgalgado rapazola de olhos bonitos num rosto desfavorecido lana mo  proa da barquinha.
Em salto de acrobata, Adriano acha-se a bordo do "Deus te guie" - nome pintado a negro  proa. Rpido, ajuda Florncia a subir. Mas h um incidente quando Fausta
Irene poisa um p no "Deus te guie". Certamente porque o rapaz dos olhos bonitos afroixa a presso, cansado do esforo, a aiola alarga as sacudidelas, desviando-se
um tanto e obrigando as pernas da rapariga a um afastamento de cujos resultados trgicos
- um mergulho inesperado! - a salva o brao vigoroso do Aviador, sustentando-a no desequilbrio e puxando-a para cima.
Grande susto e depois gargalhadas.
Em baixo, resta Leonor de testa franzida e narizito algo arrebitado... E ningum a convence a galgar a barreira. Se lhe acontece o mesmo que  prima?
E esquiva-se  autoridade de Adriano, que procura convenc-la a subir.
- Vem sem medo! Eu no te largo...
- Na... pode cair comigo!
- Riem todos.
Ento Adriano pula para a aiola e, intimando Leonorzinha a aquietar-se - irresistvel! - levanta-a no ar e sobe com o seu precioso fardo nos braos.
Pela segunda vez a transporta, totalmente confiada  sua fora. E como  bom sentir apoiada a si aquela fragilidade enternecedora!
Trmula, ajeitando os cabelos que o vento desalinha, Leonor observa, em tom agastado:
- Era lindo, se amos ambos parar  gua!
- Que tinha? Nado por dois!
- E as minhas ccegas? - Os risos confundem-se.
Agora sentam-se todos quatro no cho, rentes  amurada, e depois de admirarem o regresso  praia do barquito que os trouxera dirigem a ateno para os homens da
companha que

80


a remos se aproximam nas barcaas negras, chatas, de bojos largos.
O "Deus te guie" atira-lhes as amarras que os levaro a reboque, motor sacudido por um frmito longo. Teuf-teuf!. Tuf!... E ei-lo tomando a dianteira, ei-lo
puxando os companheiros onde quinze homens, mscaras duras e impressionantes, seguem mazombos, certamente intimidados sob a observao das belas raparigas.
- No esto  vontade, coitados! - cicia Leonor, instalada entre a irm e a prima.
Adriano, a quem aquela escolha de lugar arreliara, replica desdenhoso:
- A menina julga que os homens, quando vm para o mar, tm muito que dizer? Sabem l se levaro peixe, se o trabalho vai ser compensado, se o esforo a dispender
ser coroado de xito! Pensam! E quem pensa no desperdia palavras.
Florncia tirita.
- No tarda que bata os dentes como castanholas.
- Fizeste bem em trazer roupa, Leonor. Est a levantar-se um taro!...
- Quem diria, l na praia... - corrobora Fausta, envergando o casaco.
Adriano encolhe os ombros.
- Isto no mar  assim! Vocs bem ouviram o que o Joaquim disse... E olhem que ele teve razo! J h mais nuvens acasteladas e estou a ver uns carneirinhos que presagiam
uma rica ondulao!
Fausta Irene sorri.
- Tem piada, que vista de terra a gua parece que nem se mexe e afinal est sempre a bulir!
- Nada no Universo  imvel! - responde o mancebo, grave. - Os prprios montes encerram o trabalho laborioso das fontes e da vegetao que lhes rompem os flancos.
- E os rochedos?... - indaga Leonor. - Tambm se movimentam?
- Sabe-se l! Talvez encerrem diamantes em lenta transformao.
De repente jubilosa, a rapariguinha aponta:
- Reparem, que engraado! Como a praia vai ficando pequenina! Os toldos, tudo!... Dir-se-ia o reino de Liliput...
- Que era onde a menina devia viver!...

81


Mas ela no se zanga com a irnica aluso de Adriano  sua minscula estatura. Limita-se a uma careta.
E o vaporzito, cheio da tagarelice constante das jovens passageiras, vai singrando - teuf-teuf! - a balanar, a cortar as ondas verde-negras e no azuis como de
longe se diriam sob o reflexo luminoso do cu.
O recorte da costa distancia-se mais, e mais, e mais...
O vento, cada vez mais violento, sopra implacvel. E o rapazote dos olhos bonitos, que segue molemente apoiado  caixa do motor - teuf-teuf - torce o nariz para
o animado grupinho.
- 'Tiveram pouca sorte! Isto vai haver dana... Ele j est a picar!
Entretanto o barco detm-se, lanando a ncora.
- Que pena! - lamenta Leonor, o queixinho rolio na concha formada pelas palmas das mos. - Gostava de ir para onde se no visse terra!...
E Florncia, a desenvolta Florncia, a intrpida Florncia, que se desequilibrara ao pretender levantar-se e ficara muito plida, agarrada ao mastro, balbucia, extinta
a anterior boa disposio:
- Ba parva! No achas que j basta, este bailado?
- Ento, adivinhando-lhe a fraqueza, Adriano aconselha:
-  melhor sentares-te, Florncia!
Ela obedece e fica de costas voltadas, apoiada  outra borda, silenciosa, de plpebras descidas.
Fausta nem sequer tenta erguer-se. Emudecida, desliza suavemente para o pavimento inferior e, junto da prima, agarra-se desesperadamente  amurada, toda sacudida
pela ondulao que ainda mais forte se sente depois que o barco parou, ondulao que lhe transmite as vibraes ao estmago...
Da popa, o rapazote ri-se para Leonor e Adriano que se conservam no mesmo poiso, serenos e fortes.
- As meninas vo enjoar! - sentencia, de l. - Isto no  pra todos!
Adriano lana uma olhadela irnica s duas raparigas e, aproximando-se da mais nova, que intemerata permanece ao lado dele, observa:
- Ento tu, a que no gosta de gua, aguentas-te melhor do que as sereias?
De expresso contristada, Leonor replica:
- Acho que sim e graas a Deus! - e num tom afvel,

82


acrescenta: - Seria muito enfadonho para si ver-se na companhia de trs invlidas!
Adriano meneia a cabea.
- Desde que estejas presente, no me aborreo, tenho a certeza! Apenas lamentava que a tua indisposio no te deixasse gozar este magnfico espectculo. V! V
e admira! Comea a faina...
Falara em tom grave, sincero. E Leonor sem vislumbres de hesitao o registou emocionada.
E fica olhando como ele pedira.
Junto do Mestre, um barco ficara, s com um Pescador dentro, velho de expresso ainda viril, cachimbo entre os dentes e gorro de l preta enfiado sobre a grenha
hirsuta, o qual prendera  beira da embarcao uma ponta da rede de sombra lanada abaixo para atrair o peixe e fazendo semicrculo de modo a que, penetrando, aquele
no se lembre de dar a volta e sair pelo mesmo lado... Depois puxaro a rede central da armao, que  cncava, e na qual h-de vir... o que Deus quiser!
Agora, os demais barcos alinham-se em frente, buscando, com os ganchos (uns paus terminados em ferros de ponta curva), puxar as cordas da rede. E aos poucos, os
homens, grandes aventais de oleado a cobri-los, debruados para as guas, msculos trgidos no esforo brutal, alheios  perigosa inclinao dos bordos, vo iando
as malhas, lentamente, puxando as de baixo, sempre as de baixo, e  fora de as ir estreitando aproximando-se mais e sempre mais do Mestre e do outro barquito onde
o solitrio vai fumando e olhando com filosfica indiferena a cena que s a profanos apresenta novidade.
Leonor e Adriano, absolutamente concentrados, no desviam as pupilas do espectculo. Quase inconscientemente, acercaram-se da amurada, para melhor verem. E encostados
um ao outro recebem nos rostos a lufada da brisa cortante, salgada, que lhes traz s bocas o gosto do mar sem fim.
- Ala-arriba!... Leva agora!... Eh, fora! L vai... l vai... ala-arriba! Ala-arriba!
Grita cadenciada, rtmica, amenizando a luta dos homens que gemem sob o peso violento...
Enche a amplitude esse vozear harmnico, entusiasta, esforado, hino do trabalho que prossegue. Ala-arriba!
Adriano sorri, deleitado. Tambm ele, l em cima, entre as

83


nuvens, costuma animar-se com o incitamento to genuinamente portugus "Ala-arriba, meu rapaz! Toca a subir! ".
Adriano sorri... e no d conta de que o seu brao envolve os ombros da companheira estreitando-os carinhosamente.
Tambm ela no se apercebe da atitude dele, porque se deixa estar enlaada, presa num nico pensamento "haver peixe? Haver peixe? ".
Enfim, vem o fundo da rede  superfcie. Desapontamento! Apenas umas dzias de sardinhas - pedacinhos de prata rebrilhando, saltando, sacudindo escamas, no efeito
maravilhoso de um fogo-preso  luz do sol.
Todos se calam, tristes mas resignados pela repetio frequente. Leonor, compadecida, lamenta baixinho:
- Tanto trabalho para nada! Pobrezinhos!
O arrais toma nas mos os peixitos cintilantes e atira-os para dentro do vapor.
-  pra provarem!...
As sardinhas torcem-se, agonizantes.
Leonor recusa-se a olhar a que Adriano toma nos dedos. Pois o bichinho tambm est a sofrer!...
-  um afogamento fora de gua!... - diz.
Os homens afastam-se de novo, os braos voltam  traa primitiva.
- Para qu - indagam os dois assistentes.
E o rapazote dos olhos bonitos, imvel no seu poiso - no o perturba o ondular do naviozinho! -, explica:
- Pra fazer a segunda levada! Pode calhari estari algum peixe metido na sombra!
com mtuo enlevo, Leonor e Adriano encaram-se. E uma compreenso desponta no gosto de sentirem que por largo tempo ainda continuaro assim, lado a lado, felizes
dessa felicidade que desperta suave, insinuante, avassaladora.
Um gemido arranca-os  deliciosa sensao que os domina. E s ento - eles, que no seu egosmo de venturosos se haviam desviado de quanto no lhes dissesse respeito!
- se lembram de Fausta Irene e de Florncia.
Do lado oposto, lvidas, trmulas, sem vislumbres do costumeiro aprumo, as duas enjoadas tm arrancos desesperados sobre a gua do Oceano, a bela gua tentadora
que rente  praia lhes embalava os corpos e agora lhes desfaz os estmagos...
- Meu Deus! Como elas esto!

84


De gatas, a fim de no perder o equilbrio, Leonor arrasta-se para junto das aflitas, tentando confort-las. Obriga-as a deitarem-se no cho, encostadas uma  outra.
Tiritam, a m disposio aumentando o frio que paira na atmosfera salina.
E ela, generosamente, despe o seu prprio casaco para melhor aconchegar Fausta, cujos lbios arroxeiam. E fica desabrigada, os braos nus, o peito exposto ao vento
sob a leveza do vestido de algodo.
Deslumbrado, Adriano v-a agir. Que doura de intenes, que harmonia de gestos, que singeleza de atitudes nessa criaturinha to expressivamente feminil!
Decorrem momentos. Depois, impotente para mais fazer pela irm e pela prima, Leonor volta para junto do moo Tenente, esfregando os braos com energia, friccionando
as faces, tentando combater o frio, arrepiada dessa humidade que a penetra e enregela.
- Se eu adivinhasse, trazia mais agasalhos!
- E elas, que no queriam nenhuns, aambarcaram todos!... - regouga o Aviador, mal-humorado de a ver exposta  intemprie por culpa das duas estouvadas. - Deviam
sofrer os resultados da sua imprevidncia!
- Oh, no! - protesta a rapariguinha. - Coitaditas! Bem lhes basta o enjoo... Deve ser terrvel! O que vale  isto prometer amainar... Pois no lhe d a impresso
de estarmos mais quietos?
Como resposta  percepo, filha do sincero desejo de que tal sucedesse para melhoras das companheiras, uma vaga alterosa embate no frgil vaporzito imprimindo-lhe
fortssimo estremeo.
- Ai, ai... - sussurra a gemebunda Florncia. - Se isto se volta, Deus meu! Nem podia nadar...
- No volta nada, esteja tranquila. - assevera ento Adriano com autoridade, apiedado mas invencivelmente divertido com a transformao das raparigas.
Que pesar, verdadeiro pesar, s o experimenta ao notar o semblante crispado de Leonor que gela, a respeito de toda a vontade de reagir.
E o rapaz nem hesita.
- Tu no podes continuar assim! - e intima: - Aproxima-te. Chega-te bem para mim. O mais que possas.

85


- Para qu? - e os lindos olhos, inocentes e ansiosos, interrogam os dele.
- No vou consentir que apanhes alguma pneumonia e no sou to altrusta que me resolva a sofrer os resultados da imprudncia alheia!
Abre o casaco e, resoluto, acabando com a resistncia que diminui,
fora-a a aninhar-se no abrigo que assim lhe oferta, guardando-a muito aconchegada entre os seus braos que se fecham sobre ela, estreitando-a ao peito.
E sem o mnimo pensamento reservado, abafa-a, lealssimo, fraternal, dando-lhe todo o seu calor.
E Leonor, cabea abandonada no ombro forte, sorri ao sorriso que a fascina e ao amor que nasce.

XIV

- Oh, meu Deus! Que sensaborona tens estado hoje! Que sorumbtica! Sentes-te doente? - e passando da contrariedade  inquietao, Helena debruou-se para o rosto
macilento onde os belos olhos pareciam maiores pela fixidez de mirarem no vago o que s eles viam.
- No tenho nada, Me! - assegurou contudo e energicamente a rapariga. - Estou ptima como sempre!
- Ento porque motivo passaste a tarde fechada nesta casa onde se abafa? Vem ao menos dar uma volta comigo! Olha, vamos esperar o teu irmo! Os Pescadores no devem
tardar...
Clarinha abanou a cabea, esquivando-se.
Reflectia.
"Pois qu... estivera durante toda a tarde esplndida de sol encafuiada nessa casa onde realmente se abafava, para no se encontrar com ele... e havia agora de sair,
agora que era quase certo v-lo pela beira-mar aguardando a chegada da... da noiva? No, mil vezes no! Bem sabia que se tornava inevitvel um prximo cruzamento
entre ambos - no porque se recusasse a juntar ao sacrifcio mximo os sacrifcios grandes e pequenos do que lhe encantava a existncia, apenas porque a prpria
estreiteza do ambiente assim o condicionaria mas ao menos que tivesse tempo de acalmar, de encarar a frio a situao e, especialmente, de se habituar  ideia de
enfrent-lo

86


como a qualquer estranho, sem que alguma coisa trasse a sua ntima perturbao! Sim, habituar-se  ideia de v-lo, eis o que urgia, para no estremecer quando o
olhar arrogante se permitisse fix-la... No bastava recordar que nessa manh, alis e subitamente, o olhar arrogante fora humilde, implorativo... No, isso no
bastava para seren-la! Porque at mais temia encontr-lo assim, correndo o perigo de enternecer-se sob o olhar que, altivo ou modesto, ordenando ou suplicando,
seria sempre irresistvel!
Quando a mulher ama, tudo tem riscos...
- Ento, vens ou no - repetiu a Me, impaciente notando que ela no parecia disposta a mover-se.
- No, Me, no saio. No me apetece. Sinto-me bem aqui.
Alberto apertou o brao da mulher, risonho, condescendente.
- Deixa-a, Helena, no insistas! Vamos ns dois divagar por a como dois noivos...
E saram.
Ouvindo a porta da rua bater ao fechar-se, Maria Clara suspirou, aliviada. S agora, em todo esse dia to longo, conseguia ficar s. E precisava tanto de se sentir
 vontade, para entender a extenso da sua mgoa!
Deus do Cu! Que resultaria de tudo aquilo?
Ainda se Adriano no convivesse com aquela gente, se Adriano a no arrastasse, inadvertidamente, para a companhia da noiva de Duarte!
E todo o seu ser estremecia ao pronunciar secretamente o nome que doravante, e embora no quisesse reconhec-lo  intransigente razo, seria para ela supremo refgio
e suprema tortura!
Sim, o que lhe alagava a alma no era momentnea iluso destinada a morrer pela falta do combustvel afectivo.
Conquanto nunca tivesse amado, conquanto nunca olhar algum tivesse ficado preso em saudade ao seu olhar, sabia avaliar os sintomas inequvocos do amor. E sabia avali-los
porque, mos sobre o piano, interpretando pginas de beleza imortal, vibrava nas emoes que os sons traduziam! E esses sons tumultuavam-lhe agora na alma feitos
acordes de veemente paixo, uma paixo que para todo o sempre ficaria sinfonia incompleta...

87


Entregue s suas magoadas reflexes, permanecia encostada  mesa da sala de jantar, ausente de quanto no falasse das suas esperanas irremediavelmente desfeitas.
E nisto, devagarinho, uns lbios escaldantes depuseram-lhe na nuca um beijo que lhe arrancou assustado protesto.
- Adriano! S fazes tolices!
Mas no adiantou a censura, to cheio de surpreendente e ignorada felicidade se lhe revelava agora o rosto do irmo, que se lhe ajoelhava diante e transportado a
cingia pela cintura.
E aquela efuso, comunicando-se-lhe aos nervos excitados, obrigou-a a descer das regies pelas quais andara pairando.
- Que tens tu? - inquiriu, por completo restituda ao querido rapaz. - Vejo-te transfigurado! Assim te agradou o passeio?
Adriano semi-cerrara as plpebras e, com profunda comoo, murmurou:
- Se tu soubesses... se tu soubesses!... - e depois: - Ouve, tenho de te contar... - e deitou a cabea no regao dela, que se ps maquinalmente a afagar-lhe os cabelos
doirados. Mas, em vez de falar como anunciara, mantinha-se to evidentemente entregue aos seus devaneios que Maria Clara decidiu adiar para mais tarde a confidncia
que afinal - bem podia
- rece-lo! seria possivelmente idntica a tantas escutadas. E contudo em Adriano havia outra expresso, outra maneira... Ou seria ela prpria, modificada em seu
mundo ntimo, que em derredor achava transformaes na realidade inexistentes?
Procurou afastar de si o irmo e levantar-se. - Vamos, sonha  vontade e, quando acordares, desabafa. Por agora, deixa-me. vou pedir o teu jantar. Adriano reteve-a,
prendendo-lhe as mos.
- No, no quero jantar, no tenho vontade de jantar! E por quem s, garota, no quebres a poesia em que vivo com uma chamada ao materialismo alimentar!
O tom pueril obrigou Clarinha a sorrir, no obstante o ntimo sofrimento que dir-se-ia suavizar-se ao contacto da transparente alegria do Aviador.
- Mas que h, nesse caso? O mar ps-te lrico?...
- Que h Perguntas-me o que h Apenas esta coisa simples, natural, que me transforma por completo. Estou enamorado...
Agora menos indulgente, Maria Clara bateu compasso no sobrado, em ritmo de indignao.

88


- Mais uma vez?
Respondeu-lhe um olhar mortificado.
- Eu no disse apaixonado. Disse enamorado!
- Bem...
- Enamorado... pela primeira vez! - e sublinhava: - Enamorado, percebes? Amo! Amo porque encontrei uma criatura deliciosa, um expoente de ingenuidade, de pureza...
Amo Leonor! Sim, Leonor, essa Leonor de rosto pequenino que parece uma adolescente... Diz, Clarinha, diz! J algum dia viste uma rapariga assim? com uns olhos to
lindos, um corpito to harmonioso, um sorriso to cndido?
Atingida por uma profisso ardorosa no momento em que se debatia contra o seu amor impossvel, invencivelmente magoada pelo que noutra ocasio a impeliria a acolher
jubilosa a ventura do irmo e agora lhe surgia como um desfalque aos seus bens maiores, bens sem os quais ficaria demasiadamente s, Clarinha apenas balbuciou:
- Dantes eu era superior a todas!
- E continuas a s-lo. - corroborou Adriano, longe de suspeitar o drama que ia afastar dele a irm estremecida. - Continuas a s-lo de tal forma que ainda me custa
reconhecer que finalmente encontrei uma mulher como tu, semelhante a ti... e que me  destinada! Sempre duvidei de achar essa que mereceria a minha adorao! Quem
me diria a mim, Clarinha - e apertava nos seus os dedos gelados da Pianista -, que vinha encontr-la aqui, nesta terra que declarei capaz de matar-me de aborrecimento?
E  a ti que devo agradec-lo, irmzinha! A ti!
Clarinha no sabia de palavras para dizer. Assustava-se com o que lhe ia na alma; desconhecia-se! E s decorridos alguns minutos conseguiu tartamudear:
- 'Ento...  srio? - e martelavam-lhe o peito as slabas da intolervel confisso.
Entregue ao seu enlevo, Adriano no dava f da alterao de Maria Clara, no se apercebia da estranheza daquela atitude reservada.
- Se  srio? Serissimo! Completamente srio! Adoro-a! No penso em mais nada! S por ela me sinto vivo! Quero cinquenta vidas para lhas entregar todas e em cada
uma a possuir! S a ela! A ela sempre!
Ento uma das mos de Maria Clara soltou-se das dele e foi suster-lhe na boca o mpeto da alma.

89


- No brinques com o corao dessa rapariga! - aconselhou, levemente rouca e obedecendo a indefinvel sentimento que nem seria capaz de dizer se era piedade pela
outra ou por si prpria. - Respeita o muito que nela admiras. No apagues o brilho das qualidades que lhe reconheces! No vs divertir-te como  teu costume. Vocs,
os homens, so to inconscientes...
Adriano pareceu melindrado.
- Maria Clara? Desde quando aprendeste a menosprezar-me? Se te afiano que amo essa criaturinha ideal! - e mais vibrante: - Se te afirmo que vou casar com ela!
Clarinha recuou, contemplando-o com intraduzvel amargura.
- 'Acho tudo to rpido!... - e a tormenta crescia nela, devastadora.
Quem, no entanto, teria coragem de acusar essa rapariga, que via aniquilados os seus mais legtimos anseios de ventura, de ser vencida por reaces que no nobilitam
ningum mas so humanas? Quem ousaria
censur-la por se achar transbordante de inveja e rancor? Sim, inveja e rancor!
Inveja dessa que ia ser ditosa. Rancor contra essa que vinha furtar-lhe uma afeio no momento exacto em que mais precisava de carinho para suportar a cruel provao.
Inveja dessa alma de rapaz que se dedicava lealmente, dessa ventura que no encontraria obstculos. Rancor porque tudo quanto a outra ia possuir lhe era vedado,
a ela!
E do que sofria apenas culpava o parzinho cuja felicidade maravilhosa a ultrajava. No o culpava, ao outro, nem culpava a prpria fraqueza... Como critic-la? Clarinha
era apenas... uma criatura viva!
Mas, de chofre e sob o riso triunfante do irmo, a verdadeira ndole da rapariga, bondosa e franca, insurgiu-se contra a densa negrido que a envolvera e foi com
verdadeiro horror que reconheceu os insidiosos pensamentos que a haviam dominado. Ento, num desespero cujos limites eram os do arrependimento sincero, procurou
varrer para longe a recordao tenebrosa que jamais evocaria sem a noo de um pesadelo medonho.
Inveja e rancor... contra o seu irmo, o seu querido irmo! No, nunca! Apenas tinha de agradecer  Providncia por ali, onde ela viera encontrar penas, ele receber
alegrias!
Diligenciou ento concentrar-se na fluncia de Adriano, e esquecer-se de si, e fugir aos raciocnios que porventura a levassem a de novo ser m como h pouco - to
m! E essa baixeza momentnea, que seria nica na sua vida, quanto Maria

90


Clara se penitenciaria, sem se perdoar que a tivesse sentido!
Insuspeitoso de quanto se passava no esprito da irm, Adriano continuava desenrolando o filme apotetico das suas reflexes.
- 'Queres tu saber, garota? O que mais depressa me conquistou foi ver como ela era diferente de toda essa raparigada que por a abunda! Olha a irm e a prima! Perfeitos
exemplares do que afirmo. Podem ser alis muito boas raparigas, no contesto! Eu, porm, no casava com nenhuma delas!
No casava com nenhuma delas? Ento... e Duarte casava? DUARTE casava?
Numa grande necessidade de no reconhecer moralmente apoucado o seu dolo, Clarinha precipitou-se numa inesperada defesa.
- Acho que ests a ser demasiado cruel! Elas... elas so mulheres como todas!...
Adriano sorria, mal atentando na entonao dolorosa de Maria Clara.
-  possvel que tenhas razo!... Mas asseguro-te que no me arriscava...
A alma de Clarinha, liberta de umas tantas impresses no conseguia soltar-se de outras. E, mal contendo a ansiedade que a atormentava, disse, num gracejo que sabia
a queixume:
- Que falta de caridade, irmozinho! Olha o que podem dizer de mim!...
O inebriante estado psquico de Adriano continuava a no deixar que ele percebesse que havia lgrimas nas palavras de Clarinha. E ria,
abraando-a com vigor redobrado.
- O que podem dizer de ti? Que s um amor de rapariga, um anjo, uma perfeio!...
Ela debruou-se para os belos olhos azuis, ergueu-lhe a cabea para melhor o fitar, buscando alvio.
- Julgas que no posso inspirar falsos conceitos?
- Tu? Nunca!
A afirmativa, vibrante de inconfundvel sinceridade, serenou-lhe em parte o receio de ter provocado com alguma leviandade a inslita atitude de Duarte Zzere. Mas,
tranquilizado esse terror, nascia outra convico que de novo e talvez ainda mais fundamente abria a chaga do desgosto. Sim, era preciso arrancar de si aquele sentimento
inspirado por um objecto indigno!

91


E no conseguia! No conseguia reagir quela imensa confuso de percepes que se amalgamavam e confundiam e dilaceravam!...
- No dizes nada, maninha? Ests com ar preocupado... Olha l, que  que tu tens? - o silncio de Clarinha forara-o a reparar enfim na expresso invulgar do lindo
semblante, expresso que noutro ensejo lhe teria saltado aos olhos ao primeiro relance. - Aconteceu-te alguma coisa?
Para a rapariga tornar-se-ia pior se ele insistisse e a examinasse perspicaz. No, de forma alguma queria que Adriano desconfiasse fosse do que fosse!
E, ruborizando-se, mau grado seu, protestou vivamente:
- No, nada... Estava a pensar! - alis era uma resposta verdadeira soando a falsa.
Mas Adriano, desejoso de encerrar-se na comodidade do seu enlevo, estava naturalmente predisposto a aceitar quaisquer explicaes. E um sorriso confiante entreabriu-lhe
de pronto os lbios espirituosos.
- E em que pensavas No meu casamento? - pois no seria natural que somente houvesse cuidados pela fortuna do menino amimado que ele sempre fora...
Maria Clara baixou os olhos. Nesse momento o irmo parecia-lhe distante do heri generoso que sempre admirara, descendo do seu pedestal e surgindo como um apaixonado
piegas, egosta e ftil.
Recusou-se porm a aceitar a viso cruel que dir-se-ia caprichar em afast-la cada vez mais do estreito convvio de sempre. E esforou-se por confiar crebro e alma
quela satisfao que devia torn-la radiante, associando-se-lhe, renunciando a si prpria e existindo somente para o idlio a que ia assistir.
Ento, valorosa e aps um suspiro que era como que a despedida s suas inslitas preocupaes, emitiu, aliviada porque j no mentia:
- Sim, em parte! Mas tambm me lembrava do quanto  incompatvel a tua vida de aventuras com o romntico desejo de possuir uma mulher encantadora. Quando fores Pai
devers remodelar a tua profisso.
- Eu Ora! Como se no houvesse muitos Aviadores casados!
- E muitssimos rfos de Aviadores!

92


Adriano, a quem as palavras da irm atingiam em cheio, tornou-se sombrio. Era maadora, aquela rapariga, com a mania de se armar em conselheira!
Ps-se de p, comeou a passear de um lado para o outro, e sob o olhar que o seguia atento.
- Maria Clara... no sejas disparatada! Perigos toda a gente corre! - e mal refreando a inesperada impacincia que o assaltara: - No te preocupes com isso! A Leonor
h-de habituar-se  ideia de que tanto pode perder o marido num desastre de avio como num acidente de automvel. E o seu amor ter a tmpera magnfica que no leva
o objecto amado a descer nem uma polegada nos ideais que o nobilitam! - depois estacou, passou a mo pelos cabelos e, numa reviravolta bem peculiar ao seu esprito
irrequieto, bradou: - E venha agora o jantar, garota! E nada de sustos! Vers que chego a bisav!

XV

A caminho da praia, culos escuros destinados a protegerem os olhos da claridade excessiva (ou a defenderem-nos de qualquer indiscreta anlise... Clarinha experimentava
uma certa calma, calma que lhe adviera do azul vastssimo do mar - imensidade que reduzia a nada as suas preocupaes.
Interregno bendito, que a revivificava e banhava de novas energias!
Pareciam-lhe agora muito recuados os acontecimentos da vspera, no chegava a compreender as razes porque se privara de uma bela tarde ao ar livre, quando tudo
o que a atormentara tinha na vida a... a importncia de uma sardinha cada de qualquer atafulhada barcaa! E na calmaria dessa manh amorosa, afigurava-se-lhe desatinado
dar lugar no corao  amargura. Quanto maculasse a gratido devida s maravilhas da natureza transbordante de vio, era sacrilgio! Ou valer a pena sofrer, quando
a existncia aparece, em colorido e forma, to bela?
Aquele dia que rompera lindo exigia que um corpo jovem fosse inteiramente jovem, entregando-se ao sol no contentamento de sentir tanta seiva dentro de si, no contentamento
de sentir sorrisos nos lbios hmidos, no contentamento de sentir nos olhos as cintilaes da esperana.

93


Na verdade que bom ser nova e bela e sensvel e ter alma e ver o mar ondulando e os pescadores na praia e o peixe na areia! Que bom seguir por ali fora sem perguntar
o que havia para trs nem o que se encontrava para a frente! Que bom sentir os desejos resumidos e abarcados no quadro lmpido que se envolve num olhar!
Nessa hora doce, Maria Clara gostaria de rir para quem passava ao seu lado, gostaria de saudar quem a fitava, simples como  simples a terra na sua fora vitoriosa
e espontnea de comunicao. Ah! Se Duarte agora se cruzasse com ela, pela certa o cumprimentaria tambm sem hesitaes. E porqu tambm? Pois no seria natural...
Mas Ai, mas...
J a euforia se lhe abeirava da consumpo, Da desapario Porque  beira dela uma bem lanada silhueta se desenhava em sombra.
O mar continuava lindo, mas ouviam-se-lhe os cantares traidores. O peixe abundava, mas os pobrezinhos sem dinheiro no o alcanariam nunca. Os Pescadores despiam-se
de atractivos gloriosos e tornavam-se homens iguais aos outros que como os outros mourejam para alcanar o po de cada dia. A vida, com todos os seus problemas,
continuava para alm dos horizontes... e Clara voracima revivia para os cuidados.
Tudo no rpido instante em que ao seu lado se desenhou uma silhueta bem lanada - a sombra toldando a luz!
Saudou-a a voz que temia ouvir.
- Bom-dia, Maria Clara.
Sem raciocnio, ia fugir, mas a figura esbelta embargava-lhe os passos e ela imobilizou-se, enquanto num tom de vincado retraimento Duarte falava.
- Uns minutos, peo-lhe! Desde ontem procuro ter consigo um encontro sem testemunhas. No a vi em toda a tarde. No me evite agora!... - e como ela o fitasse tendo
nos olhos a mais franca censura, ele baixou a cabea, sem quaisquer vestgios da antiga sobranceria. - Compreendo perfeitamente que me despreze e no pretendo minimizar
a minha culpa. Podia tentar justificar o meu equvoco mas se o fizesse ultrajava-a...  certo que a supus comprometida com outro... Nada justifica o erro das minhas
atitudes. Sei portanto que nem me assiste o direito de esperar o seu perdo... e no entanto sem ele sentir-me-ei viver no inferno dos remorsos!
Clarinha encarava-o sem nimo para repeli-lo - aquele ar

94


abatido que mostrava angstia, tornando-o mais humano e mais digno, volvia-se num apelo desmedido ao amor que ela tinha para oferecer-lhe!
A custo, mas generosa, tentou aligeirar a situao.
- No era... no era totalmente descabido pensar que ramos...
Mergulhando nas pupilas assustadas o olhar sombrio, ele interrompeu-a.
- Coisa alguma releva a minha conduta l em cima...
A rapariga esboou um gesto, como a pedir "no falemos em tal", mas Duarte Zzere no a atendeu. Parecia necessitado de castigar-se com palavras agrestes que ela
jamais poderia ou saberia dizer-lhe e das quais inteiramente se reconhecia merecedor. - Quero fazer-lhe uma confisso, Maria Clara. Confisso que no atenua o meu
procedimento... explica-o! Depois, inteligente como , compreender-me-! No discorde, por favor! Eu disse inteligente com bases e asseguro-lhe que no costumo conceder
favores a quem os no merece. Quando a vi... tomei-a por uma rapariga de hoje, segundo o pior dos conceitos. - E impregnava-se-lhe a voz de uma sinceridade que dava
a cada frase um sentido irreversvel. - Porque me enganei... como enganei? Porque s mais tarde reparei num pormenor que devia ter-me logo saltado aos olhos!...
A Maria Clara procurara a solido e no o exibicionismo... e eu fora de um imperdovel atrevimento perturbando a sua tranquilidade. Na ocasio, porm, no reflecti.
Nem quando voc, imprudente e resoluta, me fugiu. Teimei em considerar os factos como evidente manobra de coqueteria.
- E depois?
Inesperadamente, ela, que sentia a vontade como que paralisada sob o imprio dessa outra que a impedia de reagir, formulava uma pergunta, uma pergunta ansiosa.
- Depois? - murmurou Duarte. - Depois, quando "a ouvi tocar, fiquei suspenso. Disseram-me ento o seu nome. O seu
nome que Sabe ao que me levou! Errei estupidamente! Que quer? As mulheres notveis, ainda mais do que as outras, so assediadas pelas mais falsas e absurdas suposies!
E aqui tem -
tornei-me vtima de um complexo de miragens. E a realidade deformada fez de mim um joguete. Acredite Lamento imenso tudo o que sucedeu!
Estavam ambos voltados para o mar, lado a lado, e quem passava, vendo-os to serenos, to comedidos nas atitudes, bem

95


longe se acharia de imaginar que um drama ameaava aqueles dois coraes.
Baixinho, mas com nobreza, tentando libertar-se da fascinao que a submergia, Maria Clara indagou:
- " J se convenceu de que eu sou apenas... - e no sabia concluir a prpria defesa.
Mas Duarte Zzere, em ntida apreenso dos temores dela, proferiu com mpeto:
- De que a Maria Clara  uma rapariga credora do maior respeito e da ternura mais casta, uma jovem senhora como duvidamos de encontrar perante tanta mentira e tanta
hipocrisia? Precisa de pergunt-lo?
- Oh! - e na sua infinda perturbao, apenas soube titubear: - No  como afirma! H muitas raparigas como eu...
- Haver! Mas vivem to escondidas que  difcil descobri-las. Voc tem um irmo... ele no lhe conta?
com espantosa nitidez, Clarinha lembrava agora certas frases tantas vezes escutadas a Adriano. Sim, assemelhavam-se s de Duarte, traduziam o mesmo juzo impiedoso...
Seria ento a verdade, a triste verdade? Havia-As... mas difceis de descobrir?
Ante o silncio que se prolongava, Duarte insistiu:
- Maria Clara... acaso nunca ouviu o seu irmo falar como eu?...
Um afirmativo aceno de Maria Clara e Duarte soltou uma risadinha.
- Pois ! E em compensao pululam as outras, as que no medem o mal que causam s demais e a elas prprias, alcandoradas nas mais irrisrias e pouco dignificantes
liberdades. ns, um dia, cansados da procura infrutfera, acabamos por nos deixar prender estupidamente! - depois, mudando de tom, prosseguiu: - Recaio na incoerncia!
As mulheres so como os homens. Boas e ms segundo os desgnios profundos, incomensurveis, do Destino, que amalgamam tendncias, hereditariedades, educaes, raas
at, criando todos os gneros e gerando todos os excessos. No se deve julgar na generalidade!
E Maria Clara, ultimamente surpreendida da facilidade com que ouvia e se dispunha a responder a esse para quem imaginara nunca mais poder olhar, deu por si a dialogar.
-  isso! Tem muita razo. Talvez ns no sejamos inteiramente nem culpados nem responsveis dos nossos actos. No

96


fim de contas no devo a mim prpria o que sou... Herdei tanto! Herdei tudo!...
Duarte contemplava-a com to evidente ternura que Clarinha s no se apercebia porque ainda no levantara as pupilas da areia que obstinadamente fixava, escassos
metros abaixo dela.
- Voc  extraordinria, Clarinha! Admiro-a!...
- No julgue que sou perfeita!
- Para mim, -o!
S alguns momentos decorridos, num esforo enorme para sem violncia dizer o que devia, Maria Clara acrescentou, numa voz que pouco a pouco se tornava natural:
- Est a fazer-me lembrar o meu irmo Adriano, que desesperava de encontrar UMA que fosse o que ele sonhava... - e ficou de boca aberta, restituda com brutalidade
 noo das convenincias pela frase que estivera prestes a articular. O irmo desesperava. O irmo encontrara. Precisamente a irm da noiva dele...
Duarte, ensismado, mais parecia no entanto ouvir o seu corao do que a ouvira. E dizia agora to prximo dela que Maria Clara lhe recebia o hlito no rosto:
- Eu encontrei o meu ideal, Maria Clara. Encontrei-a! A si! E amo-a! Houve? Amo-a!
Igual , de l de cima, a frase mgica soara...
Ela ficou como que resplandecente, escutando em si prpria o eco das slabas entontecedoras, sentindo-se irresistivelmente atrada para o peito msculo onde seria
to bom poisar confiante a sua cabecinha enamorada. E porque no... se ele a amava?
Mas, em repentino sobressalto, crispou a mo que ia estender-lhe, recuou num protesto de todo o seu ser e, severamente, inesperadamente, proferiu:
- 'Cale-se! Como ousa falar-me assim... quando... quando vai casar com outra?...
Ento, plido e grave, ele exclamou:
- Eu no deixo que me considere um patife!... Sei-me com o direito de falar como falei.
- Direito?
- Sim, direito! Porque estou disposto a recuperar a minha palavra e a oferecer-lhe a vida inteira, que to pouco vale em confronto com a sua, a sua que eu no mereo
porque no posso subir at si, antes devo pedir-lhe que desa at mim...

97


Sucedeu ento que uma coragem enorme aprumou a rapariga cujos olhos fuzilaram de indignao, instantaneamente apagada toda a fraqueza amorosa. A verdadeira Maria
Clara, recta, lmpida, intransigente, vencia a sentimental e romntica que envergonhada se sumia no segredo da alma grande. E foi com voz altiva, voz que o afastava
para to longe que a distncia aberta entre ambos parecia intransponvel, que ela o deteve.
-  intil continuar, Duarte Zzere. No pense que eu aceite o que se me afigura uma autntica infmia. A sua sugesto ofende-me. Acaso me julgar capaz de aceitar
que troque a sua noiva por um banal capricho de praia, um capricho que amanh nem recordao deixar em si? Continua a errar se me julga to cnica, ou to ingnua,
que acedesse a semelhante combinao! Pois qu? Supondo que eu tivesse sentido por si qualquer simpatia (- e aqui acentuara a frase, instintivamente necessitada
de defender o seu Eu-), - cr que essa simpatia sobreviveria ao conhecimento exacto da sua personalidade acomodatcia?
Viu-o recuar, lvido.
- No se banalize dessa forma, Maria Clara! Falei como falei porque me inspirou um Amor-Paixo, Amor-Paixo que h-de triunfar de quantos obstculos possam levantar-se-lhe
na frente!... Entende?
Um estico sorriso entreabriu os lbios de Clarinha cuja sincera indignao transbordava, abafando todos os demais sentimentos.
- Que lamentvel insistncia num homem que no  livre!...
- Duarte no conseguia desfitar o rosto contrado.
- E isso que importa? Algum  culpado de amar? No! - e com violncia, proferiu: - Voc, queira ou no queira... gosta de mim!
No perpassara na afirmativa qualquer orgulho, apenas a convico que talvez representasse o ltimo recurso para a luta. Ela, porm, criara defesas. E foi dura.
- Basta! Nem mais uma palavra, por favor!
Impulsionado pela dor que o torturava, Duarte perdera entretanto a noo da mais elementar delicadeza. E excedeu-se, pronunciando concentradamente, como a eternizar
o que dizia:
- Faa o que fizer, Maria Clara, perdurar entre ns o beijo que trocmos l no alto!...

98


Ento, com os lindos olhos alagados em espanto, ela balbuciou, sufocada:
- Oh! Como se atreve a evoc-lo? Detesto-o! Agora... detesto-o!
Ele nem vacilou.
- No quis ofend-la mas apenas mostrar-lhe que  intil repelir as verdades dos nossos coraes. O amor tudo vence! H-de ser minha, Maria Clara!
E ela inclemente:
- 'Passe bem, Duarte Zzere! J o ouvi tempo demais. Agora s espero que me deixe em paz.
Esperava que ele a deixasse em paz.
E onde, a paz?

XVI
Ia a transpor a porta quando a voz, por seu mal to conhecida, a deteve num apelo abafado.
- Maria Clara, se no se importa...
Voltou-se.
Era (afinal e quisesse ou no reconhec-lo! to ditosa nos raros instantes em que os olhos de ambos se encontravam mais raros ainda porque a sua vontade lhe impunha
a obrigao de fugir-lhes, desde h oito dias, desde que Duarte lhe reafirmara esse amor que a todo o transe procurava abafar. Mas no era possvel! H razes que,
por muito fortes que sejam, no vergam movimentos ditados pelo subconsciente...
E embora se sentisse com energias suficientes para repeli-lo, chegava a temer perd-las, tanto precisava de se defender dele... e de si!
No que Duarte Zzere tivesse voltado a assedi-la com quaisquer insistncias, mas havia a demonstrao eloquente, embora muda, dessa ternura que ela no podia aceitar!
E que imprudente ele se mostrava! Tanto que muito fcil se tornava as raparigas notarem a conduta de Duarte, pois desde que ela estivesse presente ele pouco falava
e quando o fazia para responder ao que lhe diziam era sempre com entono to distante, to aborrecido, que no animava ningum a dirigir-lhe a palavra. No entanto,
se acontecia ficarem os dois em repentino colquio - que diferena! Ele imediatamente dominava o dilogo

99


como... como a dominava a ela, em jeito de quem vence por direito natural...
E no havia que evit-lo, por mais que o diligenciasse. No conseguia eliminar esses encontros, cujo sabor agridoce era sonho e tormento, sem evidenciar a anormalidade
da atitude. Porque, sozinha, teria foras e razes bastantes para se manter  distncia. Mas existia Adriano! Adriano que sem cessar a arrastava para o grupo de
Leonor, ao qual, evidentemente e com a mesma simplicidade, Duarte se juntava.
Em horas de solido, Maria Clara, entregue a reflexes cruis, reconhecia-se culpada por falar-lhe, por ouvi-lo, por sorrir-lhe... E no achava resposta para as
suplicantes perguntas "como proceder? como agir? como evitar? como libertar-me? ".
O sentimento que tentava arrancar de si pungia-a incessantemente e a desdita presente tomava a forma de uma expiao. Am-lo era a sua cruz! Mas porqu? Porqu?
Na sua atormentada conscincia, um voto constante "ao menos que nunca, NUNCA!. Florncia pudesse julg-la capaz de pretender-lhe roubar o noivo! Que descansasse
a outra; ela no seria capaz de construir felicidade sobre runas. E negava-se a reconhecer que essa outra no passava de uma ftil caprichosa que apesar de comprometida
no desdenharia Adriano, se Adriano no se houvesse embeiado pela irmzinha gentil e inocente...
Assim, avaliando Florncia por si prpria e procurando convencer-se de uma profundidade de sentimentos cuja simples enumerao muito surpreenderia a alvejada, dispunha-se
a sacrificar-se por ela e, estribada na sua deciso, recusava-se a meditar no problema de Duarte.
E agora, ao ouvi-lo reprimia o ntimo sobressalto, voltando-se como se a presena dele ali fosse inesperada. E no era! Nem era!
No sorriso masculino, tmido, contrafeito, a justificao.
- O convite foi para todos, Clarinha... embora voc preferisse ver-me excludo...
- Porque diz isso?
- Porque sei que a minha presena a desgosta.
- At no!... - e corrigindo a inflexo: - Subamos, - est bem?
Mas o rosto de Duarte denotava a mais inabalvel resoluo.

100


- No suporto mais a sua atitude! No podemos ser... nem amigos...
Ela fez um imenso esforo para dar-lhe a noo de um desprendimento absoluto.
- Penso que sim!... - e procurava ser natural, verdadeira. - De resto eu falo consigo como com outra pessoa qualquer, sempre que se apresenta ensejo...
Procurava ser natural, verdadeira. O corao palpitava-lhe e os lbios sofriam-lhe as pancadas, tremendo, tremendo... Duarte contemplava-a num brando ar de censura.
- Como pode ser m sem perceb-lo! A Maria Clara sabe perfeitamente que me fere com essas palavras...
Ento a voz feminina deixou-se velar pela dor e, sem conseguir manter a atitude simulada, explodiu num lamento.
- Que posso eu dizer-lhe?
- Clara! - e o nome dela, pronunciado com veemncia, traduzia o fervor de uma alma ardente que no se conformava com os motivos da prpria destruio.
Por sorte (ou pouca sorte), detendo uma insistncia to custosa de suportar - porque to difcil se tornava resistir-lhe tendo dentro de si o maior cmplice dele!
- houve a sbita interveno de Fausta Irene que do alto das escadas os interpelava, ainda oculta pelo cotovelo do patamar.
- Que diacho esto vocs a conspirar a escondidos?
Maria Clara estremeceu, lanando a Duarte um olhar alucinado "v o que faz" e, voltando costas, precipitou-se degraus acima, tentando, com uma enrgica chamada 
vontade, mostrar-se despreocupada.
- Trocvamos... impresses!
Mas as pupilas aceradas e malvolas de Fausta farejavam qualquer coisa... E durante a tarde inteira, completamente abandonada pelos rapazes que s possuam olhos
e ouvidos para outras, ela teve tempo de sobra para examinar, com a perspiccia dos invejosos, aqueles dois que desde h dias lhe estavam causando estranheza. Examinando-os
lograva aperceber-se do lado falso da alegria de Maria Clara e da taciturnidade de Duarte Zzere. A imprudncia deste, alis, era o que mais despertava as atenes,
e Fausta no tardou em convencer-se de que andava por ali grossa novidade...
E no hesitou - agarrou a suspeita pelos cabelos.
Agarrou a suspeita de que a sua perfdia extrairia glrias, ela a quem sempre as vantagens de Florncia ofuscavam, ela
101


que anseava por se desforrar de Adriano que lhe preferira Leonor, ela que sentia o dio do abjecto contra o digno ao contemplar Clarinha. E abalanou-se.
com arzinho sarcstico, voltou-se para Florncia.
- Flor... j notaste como o Duarte est pensativo? Dir-se-ia que paira nas regies imateriais de qualquer melodia!...
A aluso fora to certeira que Duarte e Maria Clara se viraram para ela, na simultaneidade de um sobressalto.
Florncia, por demais estranha  situao (nunca fora muito sagaz), desatou a rir.
- Deixa-o l! Se  em melodias que se perde, no tem importncia.
Fausta Irene enrugou a testa, irritada com a despreocupao. Mas logo decidiu atingir novo alvo, (no lhe passara despercebido o involuntrio movimento de Clara!
e voltando-se para a Pianista indagou:
- Est de acordo com a opinio da minha prima, voc que  artista? Acha que no tem importncia que um homem entregue todos os seus pensamentos  arte dos sons?
Maria Clara no teve maneira de encobrir o rubor que lhe tingia as faces, em reaco que tanto podia ser de protesto como de confuso - a forma de interpret-lo
caberia  qualidade do observador. E o observador - a observadora - no a desfitava... Clarinha sentia-se como se a sua alma se apresentasse nua perante Fausta Irene.
Mas tentando esforadamente aparentar indiferena, solveu:
- Se tal coisa no prejudicar outros deveres, considero-a inofensiva!...
Fausta encolheu os ombros, longe porm de desistir do seu intento, resolvida mais do que nunca a concluir a sondagem que a deleitava ante a intriga entrevista e
na qual poderia chapinhar que nem um pato na gua suja.
- Deveres? - comentou. - Voc acredita de facto na existncia de deveres"!
- Decerto! - afirmou Clara, agora categrica: - Acredito, sim! Porqu?
Uma expresso zombeteira entreabriu os lbios da outra que deu meia-volta e, aproximando-se de Adriano, que no cessava de arrulhar com Leonor, declamou, enftica:
- O Amor nunca se sacia! Quando sobre ns adeja, o deus de todas as cegueiras escolhe os coraes mais fortes para despedir as suas flechas que neles deixam o mal
incurvel... diverte-se

102


assim a experimentar o seu poder! - e outra vez para Clara, mais ambgua do que estouvada: - Ps vrai, Clarinha?
As palavras de Fausta Irene haviam sido de mestra. Em maldade. E atingiram em cheio o objectivo visado.
Incomodadssima, Maria Clara, que jamais mantivera qualquer situao menos lmpida, foi incapaz de dominar-se e, sob o olhar triunfante da intriguista, levantou-se,
murmurando:
- No sei responder-lhe, Fausta Irene! Talvez por inexperincia...
A cena despertara as atenes gerais.
Toda a gente as fitava enquanto Fausta desprendia uma sonora risada.
- Ah, ah, ah! Tem graa! Ao v-los aos dois to cabisbaixos... voc e o Duarte  realmente divertido e induz em erro, no lhe parece? Lembram dois apaixonados!...
O ataque fora to directo que Maria Clara compreendeu perfeitamente que a partir daquele momento o seu segredo j o no seria para aquele malfico esprito incapaz
de recuar perante qualquer golpe, mesmo que este pudesse assumir propores catastrficas. Florncia, essa no atingira ainda a finalidade da prima, mas percebendo
que algo de desagradvel ocorria, poisou no noivo um olhar desconfiado.
Ento Duarte, que at a desprezara as insinuaes de Fausta,
manifestou-se. Apanhara-lhe as intenes, estava apto a responder. E serenamente, elevando um secreto apelo que em transmisso de pensamento fosse aquietar a angstia
que divisava no rosto da bem-amada, pronunciou a rplica susceptvel de acalmar as suspeitas desencadeadas.
- Que eu esteja apaixonado, julgo-o lgico! vou casar!... Quanto a Maria Clara, no podemos exigir-lhe que s pense em ns...
Se por um lado aquela explicao ia tranquilizar Clarinha, permitindo-lhe recuperar o sangue-frio, por outro no destrua o seu sofrimento, antes o aumentava. Pelo
que, sem defesa, experimentando a mais intensa necessidade de um apoio afectivo, ela atravessou a sala para ir
encostar-se  cadeira do irmo, como implorando o socorro dessa amizade inaltervel. Inaltervel, sem dvida!
Mas... quo egostas os namorados! Aquele Adriano que to bem saberia, com uma s palavra, colocar Fausta Irene no justo lugar, no mostrava nem sequer ter-se apercebido
do despique...

103


XVII

- Flor, preciso de falar contigo. J to disse e torno a repetir-to!
Deixando sossegadamente cair na areia o roupo, Florncia encolheu os ombros.
- Fala, homem! No tenho os ouvidos tapados!
- Vamos dar uma volta pelos rochedos.
Flor ps-se a rir, ajustando as fitas no chapu.
- Ah, bom! Nesse caso temos conversas de arrulho, que os outros no podem ouvir?
Enervado face a tanta leveza de esprito, Duarte protestou:
- Por favor! No se trata de conversa que os outros no podem ouvir mas sim de uma conversa que s a ns interessa.
Sempre com o mesmo vagar, Florncia apertava agora sob o queixo as pontas do leno colorido, estendendo o beicinho como que intrigada.
- Ih, Que ar circunspecto! Aconteceu alguma coisa?
E ele, com entono onde perpassava o reflexo de uma deciso:
- Talvez.
Ento, bruscamente silenciosa, a rapariga comeou a andar ao lado do noivo, nesse passo cadenciado que to bem realava o donaire do corpo, elegantssimo.
Caminhavam rentes  gua que aljofrava de espuma a areia empapada.
Duarte procurava os termos para abordar o assunto que lhe estrangulava toda a aco, sentindo dissipar-se-lhe a coragem de dizer abertamente a essa moa sem dvida
superficial mas tambm honesta, a essa moa que o modernismo das concepes estragava e no entanto nem por tal surgia menos digna de felicidade, que a rejeitava,
que a lanava para fora da sua vida! Sempre a conhecera estouvada e algo inconsciente, talvez fosse tarde para lhe dizer que no a aceitava tal qual ela era!
E realmente... no, No! Face quela despreocupao tranquila no se achava capaz de lhe gritar: "aborreo-te... nunca te amei... o nosso noivado foi um erro que
eu cometi... Julgando que no podia existir algum como Ela... Fui louco... e hoje adoro-a e no te quero a ti. Acabou-se tudo entre ns!"
Essas as palavras que durante horas e horas estudara... decorara... e no podia pronunci-las, no podia.
Sentia ainda na boca o sabor dos lbios frescos de Florncia e percebia que no seria capaz de acabar de chofre com

104


um namoro de dois anos, um namoro ainda por cima desenrolado com inaltervel constncia. Tornar-se ia duro demais para a rapariga que, dentro da sua maneira - por
ele aceite nunca lhe dera motivos de queixa.
Onde? Onde razes suficientes?
O peso do silncio de Duarte acabara por finalmente chocar Florncia.
Estavam agora encostados a um barco e ele no desfitava o mar.
Ento Flor, num movimento rpido, saltou para a barcaa e a, sentada na borda, estendeu a mo para os cabelos do noivo.
- Duarte. que tens tu?
Que tinha ele? Vontade de fugir para uma grande solido com a bem- amada, indiferente a tudo quanto se lhe afigurava falso, convencional e ali o retinha numa passividade
incoerente E recebeu, numa onda, o desejo bruto de magoar, de ofender a culpada (inocente da situao.
- Tenho que no posso ver-te assim!
- assim como? - pasmou ela.
- Assim, nua!
- Nua, Eu? Que exagero! - e descendo do poleiro, indignada - Estou decentssima!
- Porque no sabes o que seja o decoro!
- Oh - e to surpreendida como se houvesse sido esbofeteada, Florncia encarava-o sem atinar com possibilidades de entender aquela atitude. Pelo que, atarantada,
se queixou:
- Tu. tu nunca te manifestaste contra o uso deste fato!
Raivando ante o que to difcil se lhe tornava, Duarte regougou, em aceitao da realidade:
- Tudo isto. tudo isto  absurdo!
Ela moveu a cabea, possivelmente acenando um no s ideias que a salteavam. Depois, fitando-o, disse:
- Sim,  absurdo. E agora percebo que a Fausta tinha razo. toda a razo! Ela bem me avisou!
Numa esperana de que Flor viesse ao encontro dos factos para tudo simplificar. Duarte provocou-a.
- De que te avisou a Fausta? Diz De que foi?
- E ela, num trejeito desolado:
- De que tu mudaste desde que a conheces! E que salta aos olhos a corte que lhe fazes. - E inacreditavelmente benvola - Isso no  bonito, Duarte!

105


Era demais!
Sim, ela vinha ao encontro do assunto, ela oferecia-lhe o ensejo de o abordar e ser sincero... mas minando-lhe a coragem de destruir o tremendo obstculo com a mais
inesperada das atitudes. Ele aguardava tudo. - exprobaes, ameaas, lgrimas... Aquela expresso de vtima indefesa... isso nunca!
Onde diacho fora ela desencantar semelhante arma que no lhe cabia no feitio... Fora acaso rebate do instinto avisando-a de que devia ser prudente... e manhosa?
Desesperado, sentia uma espcie de cobardia pesar-lhe nos pulsos como grilhetas, entregando-o sem defesa a Flor, que aproximara o rosto at quase tocar o dele e
lamuriava:
- 'Duarte... no acredito que sejas capaz de uma tal aco! Eu no quero ficar sem ti...  ela que te desafia, a Fausta preveniu-me!
Duarte aventurou-se:
- Proibo-te que a culpes!
Em repentina violncia, que lhe tremia na voz sentindo que ele, desculpando-a, se confessava, Florncia modificou-se por completo. E atacou.
- Proibes-me que a culpe? Mas perdeste o juzo! Pois se tens falado com tantas raparigas desde que nos namoramos e nunca te deu para andar atrs de nenhuma, que
desejas que eu pense hoje  que as outras no se atreviam a olhar-te como ela! As outras sabiam-te noivo e tinham conscincia... e ela no! Ela, ah!... E no hei-de
culp-la?
Nenhum deles lhe havia pronunciado o nome, mas ambos sabiam perfeitamente a quem se referiam.
Ficaram a olhar-se, muito srios. Em seguida, num impulso meio espontneo meio artificial, Florncia lanou-lhe os braos ao pescoo,
aconchegou-se-lhe nesse gesto confiante que at a sempre fizera terminar a seu contento quaisquer dissenes, gesto em que lhe ofertava os lbios para o beijo da
paz, em que dava a face para as carcias da boca que depois subiria a afagar-lhe as plpebras com ternura...
E estreitava-o, na nsia de reconquist-lo.
Como exigir-lhe, a ele, que resistisse, que tivesse a energia de repudiar esse amor que se revelava inaltervel?
Inconsciente, cedendo ao encanto que o envolvia, cingiu-a tambm. Mas no a beijou. Murmurou apenas, apoiando a fronte  testa ampla, como se consolasse uma criana:
- No, no tenhas medo, Florncia...

106

Percebendo nessa inesperada reserva que, apesar de tudo, ele deixara de lhe pertencer, Flor desprendeu-se, articulando pausadamente:
- Duarte... penso que s um homem de bem. Espero que no me obrigues a mudar de opinio!... - e sem a nada mais atender, partiu praia fora, para o lado dos banhos,
deixando-o na maior das indecises.

XVIii

Alterou-se Maria Clara ante a surpresa que lhe trazia uma espcie de mau pressentimento.
Um pouco abaixo, ao meio da escada, Florncia, janotssima, convidava-a afvel:
- Lembrei-me de vir desafi-la, Clarinha! A Fausta saiu com os namorados, o Duarte deve andar por a solitrio, como  seu hbito desde h uns tempos... E eu decidi
alici-la para uma volta. At ao castelo, por exemplo. Agrada-lhe?
Clarinha hesitava. Podia ser alucinao dela, sem dvida, mas naquele convite, formulado com um sorriso que se diria ambguo, parecia-lhe notar qualquer coisa de
agreste, qualquer coisa que talvez brilhasse ameaadoramente nas pupilas semi-veladas pelos clios compridos. Mas no se escusou. Seria indigno dela recuar, se acaso
Florncia procurasse de facto uma explicao.
Alis, uma explicao de qu? Que tinha a dizer-lhe? No se sentia culpada fosse do que fosse!
E aceitou com naturalidade.
- Pois sim.  s o tempo de mudar de sapatos! No quer entrar, enquanto?
- No vale a pena.
Em breve estavam a caminho, ambas airosas, bonitas.
Maria Clara atendia  conversao despreocupada da companheira, respondia, esforava-se por se mostrar alegre, mas pulsava-lhe na alma o terror de voltar l acima
- l, a esse ponto inolvidvel onde vivera momentos inesquecveis, ao lado da prometida de Duarte Zzere.
Quisera, sim, repetir a peregrinao, mas sozinha, para chorar longe do mundo o seu amor condenado...
Iam seguindo rentes s valetas, para se precaverem do trnsito incessante, crescente nas horas da lota.

107


A subida ia-se tornando cada vez mais ngreme e agora, ladeando o vale pouco fecundo, pouco arborizado nas faldas dos montes escalvados, elas calavam-se, um tanto
ofegantes sob o sol da tarde que atingira a plena maturidade.
De sbito, apontando um marco de pedra que muito bem podia servir-lhes de banco, Florncia parou.
- Sentamo-nos um bocadinho?
- Pois sim.
Voltaram costas  estrada, instalaram-se, mediram a profundidade que se lhes abria aos ps.
Persuasiva, quase meiga, Florncia preveniu:
- Tenha cuidado, Clarinha, no caia! Podia partir uma perna e Deus me livre! Seriam capazes de me acusarem de a ter empurrado...
Maria Clara sentia-se gelar naquele intenso calor que lhe humedecia a fronte. No! Por mais que o desejasse - no podia vencer o tal pressentimento... Havia um propsito
oculto na atitude de Florncia! Mas qual? E porqu? Onde pretendia ela chegar E porque no a atacava de frente - o que se tornava mil vezes prefervel?
Reconhecia-se numa posio falsa e, to recta em todos os seus actos, sofria dessa treva que no obstante a sua desculpa era sempre treva!
Tentou gracejar, vencer a suspeita, convencer-se de que apenas a sua conscincia visionava perigos.
- Valha-me Deus! - disse. - Quem iria julg-la to m?
- Nunca se sabe!... - e riu, num riso que soava falso. - Sempre  bom acautelarmo-nos contra os malefcios de que os outros nos julguem capazes...
Clarinha encarou-a.
- Espero no lhe causar aborrecimentos. A no ser que eu desmaie!...
Ento Flor, secamente, disse:
- E porque no? s vezes, sob uma comoo violenta, h quem perca os sentidos...
Passou veloz um camio levantando nuvens de poeira. Logo aps uma mulherzinha atrs do burrico - toc-toc -, deu-lhes a salvao.
Depois, abruptamente, em desafio directo, sem tergiveres, Florncia inquiriu:
- Maria Clara, tenciona roubar-me o noivo?
Foi to violento o choque - muito mais violento do que

108


jamais a rapariga o previra! - que de nada lhe serviu a lenta adaptao ao convencimento que se lhe insuflara no esprito. Vacilou, empalideceu e passou a mo pelos
cabelos, sem saber como fugir  acusao, sem saber como defender-se. E a outra, escarninha:
- V... Eu no lhe disse que (precisava de ter cuidado? Se casse agora, eu considerava-me responsvel!...
com grande esforo, Maria Clara reanimava-se, libertando-se do brao que viera ampar-la, solcito mas traidor. Num gesto maquinal, porm, torcia os dedos, apertando-os
convulsivamente. E a sua atitude, sem que o fosse, tornava-se confisso.
No tardou que Flor prosseguisse:
- Oia, Maria Clara. Estou a avis-la duplamente. Livro-a de partir a cabea, tanto aqui como no que diz respeito ao Duarte, no caia em qualquer esparrela... Os
homens so todos uns maches... - e sorria, parecendo gentil: - Ele, nesse ponto, no  melhor do que os outros! Pode dizer-lhe at que a ama, enganando-a! Seria
apenas mais uma de quem se riria... e acho que voc no merece tal...
Clarita, num trabalho intenso de raciocnio, desconhecia-se. Que tinha, que se passava de anormal em si para suportar aquela hipocrisia
mantendo-se muda e queda como se consciente de erros, ela, que estava inocente?
E causava-lhe uma estranha dor ouvir tais referncias ao seu amado. E sentia um louco desejo de gritar a Florncia que no acreditava em nada do que lhe escutava.
Mas tudo nela silenciara. No transmitia, apenas captava.
- Voc sabe que estamos noivos h dois anos, pois sabe Durante este tempo, confesso-lhe que vrios zum-zuns chegaram ao meu conhecimento. Contudo nunca liguei, pois
embora se namorem muitas s se casa com uma! E o Duarte vai casar comigo! Percebe? - e sublinhando a frase: - Desculpe estas minhas palavras... mas enfim, como lhe
disse h pouco... os homens so homens, ns umas parvalhonas sentimentais... e voc podia sofrer qualquer dissabor... Assim, fica prevenida, no se pode queixar!
Sob aquele olhar pesado de ironia, Maria Clara debatia-se num verdadeiro pnico interior. Um pnico atroz de que s se libertaria fugindo... Mas fugir... sair dali...
como? As pernas tremiam-lhe, recusavam-se a aguent-la. E ela estava incapaz de explicar o que mais a fazia sofrer, se a suspeita com que

109


fora atingida, se a voz da conscincia acusando-a de tudo aquilo merecer, se a revolta vendo confirmada a runa do seu incompreensvel amor. Talvez fosse tudo amalgamado...
- No se sente bem, Clarinha? - indagou Florncia, que lhe notava a agitao com a perspiccia aguada. - Apoie-se em mim, querida... Ajudo-a no que for preciso.
Ento, de chofre, como em afluxo de personalidade, Clarinha recobrou o nimo. E voltando-se para Florncia, dominando-a enfim com o fulgor dos belos olhos que principiavam
a cintilar, proferiu:
- No preciso de si para nada e sinto-me perfeitamente, descanse. - e numa justificao, inesperadamente calma: - Apenas fiquei surpreendida com as suas inquietaes.
Durma tranquila. Nunca tencionei roubar nada a ningum! - e talvez porque expressava a verdade, todo o tumulto interior se lhe apaziguava. Pelo que pde afastar-se
alguns passos, percebendo, no baixar da cabea da rival feliz, que ia ser senhora da situao, o que lhe deu a segurana para acrescentar, enormemente digna: - Compreendo
agora o mbil deste passeio. No valia a pena, Florncia! No precisava de me ofender com as suas suspeitas, acredite. Mas, porque desabafou, considero o assunto
arrumado e proponho-lhe que retrocedamos. A farsa chegou ao fim.
Sentindo-a distante e inacessvel, Florncia foi empolgada por uma vaga de autntico cime. E num tom hostil disse, erguendo-se tambm:
- Ainda bem que assim ! Porque eu sabia vingar-me! Asseguro-lhe que o seu Adriano no tornava a encontrar a minha Leonor!...
Estupefacta pelo que a ameaa revelava de insensibilidade, ela, a admirvel rapariga que pela ventura alheia a sua prpria sacrificava, pareceu incrdula.
- Oh! Como faria isso, estando eles apaixonados como esto?
A outra casquinou:
- Eu curava a minha irm! Todas as paixes se curam!
- Maria Clara nada replicou. Estugou o passo, sob a agulheta da hiptese malfazeja. Tinha pressa de se livrar da outra. Pressa de reconhecer que, por ela, no havia
o irmo de temer fosse o que fosse. Adriano podia entregar-se livremente ao afecto que o monopolizava. E Leonor no conheceria o veneno das dvidas e dos dios...
Nenhum mal, por ela, os fustigaria!

110


XIX

Alberto voracima tremia.
-  que fiquei desnorteado ao v-lo assim! Nem imaginam... O rapaz ardia em febre! Ele trabalha demais, esfalfa-se demais! - e numa exploso de mgoa onde havia
tambm orgulho - Fui encontr-lo agarrado aos livros, no meio do laboratrio! No imaginam o susto, quando cheguei a casa e, depois de o ter chamado em vo, fui
encontr-lo inanimado no meio dos frascos, dos ferros e das drogas!... Como um heri que tomba no seu posto! E eu pensei... sei l! Pensei numa experincia fatal...
num veneno descoberto... Senti-me enlouquecer!
Helena afagou o rosto do marido, refreando "a inquietao para o acalmar.
- Devias ter-me telefonado imediatamente!
- Lembrei-me l de telefonar-te! S pensei que era preciso um Mdico, e foi tudo quanto diligenciei conseguir. Um sarilho! O Macedo, fora. O Oliveira, fora tambm.
Fora o Carvalho Pires e o Fausto de Azevedo. Todos a veranear! Todos a gozarem frias enquanto o meu pobre filho, vtima da sua dedicao  carreira de que fez um
sacerdcio, estava ali a morrer!
E o Pintor gesticulava, ainda convulso da angstia em que vivera durante as horas anteriores.
Bebeu uma gota de gua do copo que a filha, solcita, lhe aproximou e depois, um pouco mais sereno, prosseguiu:
- Encontrei finalmente o Marques Ferreira. Estava no consultrio. Foi ele quem nos valeu! Tomou todas as providncias, orientou-me, restituiu-me o equilbrio mental...
- e apertando as mos da esposa, que baixava os olhos rasos de lgrimas: - O golpe, de to rude, fez-me vacilar a srio. Caramba! Nunca poderia sup-lo da minha
habitual resistncia. Ser isto de estar ficando velho? - e sacudindo a bela cabea onde a cabeleira parecia mais branca, murmurou: - Agora para l est o rapaz,
com medicamentos uns atrs dos outros...
Baixinho, Maria Clara indagou:
- E que tem ele, Pai?
- O Mdico assegurou-me que nada de grave... - e voracima,
- apercebendo-se de que urgia serenar aquelas almas aflitas, conseguiu sorrir. - Mas foi um bom susto! Um bom susto que o nosso Gonalo nos pregou, espero que sem
consequncias. Mas nem quero pensar no que poderia suceder se eu no tivesse ido a casa! Mera coincidncia... ou designao do Destino.

111


E se vim aqui foi para levar uma de vocs comigo. O pequeno o meu pequeno, - o Cientista j clebre que para o Pai extremoso seria sempre o garotinho a quem dera
o ser! -) precisa de assistncia constante. Lembrei-me de contratar uma Enfermeira... mas... - sentia-se que repugnava quele homem generoso perturbar as frias
de quem tanto as merecia. J Helena, com sentida emoo, rebatia a hiptese.
- Uma Enfermeira? Quando ele tem Me? Nunca! vou arranjar umas coisas para levar e partimos imediatamente.  um instante!
Foi ento que Maria Clara disse:
- Pai... Me... se no discordam... vou eu!...
- Tu - e no olhar agradecido de Helena a deciso: - No, filhita. Agradeo-te, mas a Me sou eu...  l o meu lugar!
A rapariga no se deixou persuadir. Tambm resolvera.
- Nesse caso, vamos as duas.
- Ah... no sei... - e consultando o marido: - Achas conveniente, Alberto?
O Pintor encolheu os ombros.
- De inconveniente s vejo uma coisa - viemos porque ela precisava de ar de mar... no h portanto critrio algum em que v meter-se numa casa fechada, privando-se
do iodo que lhe  to necessrio...
A Me aprovou:
- Sou da mesma opinio. Parece-me prefervel ficares, Clarinha. Sempre fazes companhia ao Adriano...
O Aviador, at a calado, aplaudiu a ideia.
- ptimo! Vamos divertir-nos  brava, sem que ningum nos incomode... - e a sua despreocupao seria estranhada se no lhe dessem a interpretao exacta - reflectia
o desejo de sacudir o peso dos cuidados.
Clarinha, porm, obedecendo sem dvida a uma directriz acabada de nascer mas j amadurecida, no se deixou persuadir. E asseverou convicta:
- Acreditem que no posso ficar! - e num tom meio jovial meio amargo: - Ho-de reconhecer que no sou competente para tomar conta deste maluco que s pensa na namorada
e que me abandonaria  minha sorte com a maior das sem-cerimnias!...
Ningum notou a ansiedade oculta naquelas palavras. Adriano, ligeiramente agastado, encolheu os ombros.

112


- Nada posso fazer se te lembras de ser invejosa!  natural que pense nela em primeiro lugar...
- Certamente! E com os Pais aqui acho muito bem! Mas estando eu s, no! Morria de aborrecimento. - E suavemente - Depois, julgo que o Gonalo ficar satisfeito
de me ter ao p dele para lhe ler os seus queridos alfarrbios...
A Me relanceou a Alberto um olhar perquiridor.
- Que dizes?
- Que faa a vontade dela!
Adriano sentara-se a um canto, amuado - porque para ele, no seu egosmo de apaixonado, s o prprio sonho contava.
- Pois! A menina vira costas e... eu? Fico privado do que me agrada, no?
Ela voltou-se, dorida pelo tom agreste que pela primeira vez escutava.
Que mudana a do irmo, em to pouco tempo! Nunca ela supusera que um amor recente pudesse afectar as velhas e inalterveis afeies! Nem o estar sendo verdadeiro
lhe servia de desculpa para tamanha alterao, porquanto o lugar futuro de Leonor no podia prejudicar o das amizades de sempre - exactamente como as amizades de
sempre de modo algum podiam tornar-se nocivas a esse lugar futuro, antes se abriam para entre elas gostosamente acolherem a recm-chegada. Tudo portanto surgia do
prprio temperamento de Adriano, temperamento que, no obstante a nova faceta que o estava caracterizando - fidelidade! - continuava arrebatado, volvel, caprichoso,
exageradssimo, e ei-lo agora provando-o de forma iniludvel!
No, na realidade aquele Adriano no era o Adriano que dias antes seria o primeiro a voar para a cabeceira do irmo enfermo.
Num receio inconsciente, Clara pensava "no ir fazer de Leonor uma infeliz? Amanh, seduzido por outra imagem, no a esquecer como hoje nos esquece, a ns? ".
Mas, afastando os importunos temores, aproximou-se do Aviador e limitou-se a murmurar, obstando a ressentimentos:
- Sinceramente, no percebo porque hs-de ir atrs de ns! A Conceio fica, acho eu!...
O Pai corroborou a afirmativa.
- Claro. A Conceio fica!
- Os olhos do rapaz cintilaram.

113


- Ah, bem! Acabarei nos braos da velha ama a estao de Vero! - mas logo, talvez porque no rosto da irm lesse qualquer recriminao, tentou justificar-se: - Maria
Clara... tu compreendes, no ? Tambm um dia
- hs-de sentir como eu... e deixars Pai, Me e irmos pelo brao do que ento ser tudo para ti... Ou no?
Os Pais haviam sado do aposento.
E, do soluo que brotou dos lbios de Clarinha, nunca Adriano conheceria a significao. Ele no podia adivinhar que a irm enterrara um amor cheio de nobreza e
altrusmo - um amor que nunca seria confiado ao seu esprito to distanciado que j nem se importava que a garota seguisse um destino aparte...

XX

Transpunha a porta de casa, essa porta que um ms antes franqueara de alma desanuviada, e tinha ainda diante dos olhos, como que pegada  retina, conjuntamente com
a de Octvio Labercinho, lamentoso pela runa da festa arquitectada, as expresses escarninhas de Florncia e de Fausta Irene afirmando-lhe quanto lastimavam perder
a preciosa companheira... Mas, como blsamo inefvel, valia-lhe trazer tambm, a ressoar nos tmpanos, a doce voz de Leonor que lhe afirmava "hei-de estim-la muito,
Clarinha. Acho-a to bondosa! ".
E na mente gravado - suprema tortura - estava ainda o rosto transtornado de Duarte, entre as duas raparigas, desejando-lhe boa viagem. Voto banal transmitindo a
mensagem de um esprito que procurava ser entendido...
De quanta coragem precisara para no dar o espectculo da sua misria, da que devia partir, ela que sofria ao cumprir um dever, obedecendo a um duplo e generoso
impulso...
Encolhida num canto do automvel viera durante o percurso a meditar, absorta. Felizmente que os Pais, preocupados com a doena de Gonalo, no lhe haviam prestado
ateno. Nem implicado com o mutismo dela. Se fosse obrigada a falar, na tenso em que permanecia, era capaz de ter rompido em gritos, em gemidos, em ais...
Desconhecia-se por completo! Na verdade, tambm ela estava transformada! E no fora por Florncia que deixara de

114


dizer a Duarte "faa a sua vontade... eu fico  sua espera!". Calara-se porque... porque tinha medo at do som da prpria voz, porque acreditava tornar-se merecedora
de um castigo do cu com esse amor que julgava pecaminoso, amor por coisa alguma justificado, amor por coisa alguma explicado!
E no conseguira a mnima paz interior quando transps o limiar do quarto do irmo e sobre o vulto amodorrado se inclinou.
Gonalo, inteiramente lcido, ao contemplar-lhe o semblante alterado, to alterado como o da Me, e julgando-se objecto do cuidado que ambas expressavam, procurou
tranquiliz-las, em voz dbil mas explcita:
- No se assustem!... Foi apenas um esgotamento cerebral de que no tratei a tempo. Mas j passou, j estou melhor. Escusavam de vir, queridas! - e as mos, longas
e espirituais, apertaram carinhosamente as das duas mulheres. - Deviam ter ficado na praia. Esta menina precisa de ar puro! - e diligenciava sorrir a Clarinha que,
tristonha, contemplava o irmo mais velho.
Era to alto - agora comprido - como Adriano, mas mais magro e mais trigueiro, o rosto asctico banhado pelo claro extraordinariamente profundo de uns olhos de
cor incerta...
Adriano personificava quanto fosse bulcio, dinamismo, herosmo turbulento e cego. Gonalo a reflexo, o intimismo, a seriedade de ideias e de sentimentos.
Durante alguns dias - infindveis! -, Gonalo teve a irm  cabeceira, sempre desvelada, impondo-lhe silncio constante, vigiando-o sem desfalecer e s o largando
 noite, quando o cedia  Me.
Mas o Mdico em breve o declarou "convalescente" e os dois irmos puderam conversar, ele recostado nas almofadas amontoadas, ela num tamborete aos ps dele.
E naquela tarde, aps ter sado para ir buscar-lhe um caldo, Clarinha veio encontr-lo a ler.
Ralhou:
- Queres piorar, no?
- Gonalo fitou-a ternamente.
- J estou recuperado, queridinha!
- Pois sim, mas ainda com os ossos a furarem-te a pele! Vais recair!
- No! A vida no tarda a normalizar-se. Amanh comeo a levantar-me e dispenso os teus servios.

115

Ela fitou-o, inquieta.
- Dispensas?
- Decerto, Clarinha. Perturbei estupidamente as tuas frias. H mais de uma semana que ests aqui... mas ainda podes aproveitar o resto de Setembro.
Ela protestou:
- Mas eu no quero voltar para a praia!
Fora to impulsiva que surpreendeu o irmo, o qual a fixou detidamente, observando-a com essa perspiccia que Maria Clara nunca soubera iludir. Era como se as pupilas
dele entrassem na alma dela...
- Aproxima-te, minha linda! - disse por fim, como sempre que pretendia obrigar a orgulhosa a confessar-se-lhe. - Aproxima-te, d-me a tua mo e explica-me. Porque
 que no queres voltar para a praia? Tu, que tanto gostas do mar?
E Clarinha, de repente, sentiu-se invadida por uma necessidade enorme de desabafar, de extravazar tudo o que a pungia. Mas os lbios, renitentes, fechavam-se ainda,
enquanto as mos, maquinais, subiam a poisarem-se no seio, sobre o corao.
Forando-a a sentar-se-lhe ao lado, Gonalo continuou, nesse tom grave que inspirava tanta confiana:
- Ouve, Clarinha. Desde que vieste que te estranho. Apesar do meu abatimento, sempre te analisei... Tu no voltaste como foste! Qualquer coisa mudou em ti, dando-te
uma expresso nova, mas no feliz. Que sucedeu, irmzinha? Que se passou contigo? No queres desabafar com o teu amigo Gonalo?
- Amigo? - balbuciou enfim Maria Clara, principiando a distender-se. - Oh, sim, sim, sim!... - deixou-se escorregar do banquinho, ficou de joelhos  beira dele,
agarrando-lhe os dedos como em nsia de salvao. - Gonalo... que horror! Eu amo...  que eu amo...
Dissera-o entre arquejos, mas o terrvel da sua confisso no o entendia Gonalo que, atribuindo aquela reaco ao inesperado dos factos, sorria ao perguntar-lhe:
- E amar  crime?
- Sim, ! Quando se ama quem no se deve... quem nos est interdito... quem no pode pertencer-nos...
- Mas... que problema vem a ser o teu, Maria Clara? - tornou-se cava a voz mscula, no sbito receio da verdade. - Acaso estou entendendo? Amas um homem que no
 livre?
Soou veemente a rplica.

116


- No... no  o que tu pensas... mas... se fosse... am-lo-ia da mesma forma! Era inevitvel, tinha de ser, porque  aquele por quem eu esperava!
- Pobre de ti!... - e sentia tremer as mos que o agarravam, crispadas.
Ah! Para a sua doce Clarinha assim desvairar, quanto no sofreria!
Pois ele iria sondar a ferida, meter-lhe o bisturi, arrancar o mal do seu covil, limpar o pus, desinfectar, sarar!
- 'Mas... se no  o que penso, nada o afasta de ti, suponho...
- Ele diz que me ama tambm!
Diante do contrassenso, Gonalo quase duvidava da sanidade mental da irm, uma ruga de apreenso cavada entre as sobrancelhas.
J porm ela explicava e apressadamente, no desejo de contar tudo, uma vez que principiara:
- Escuta. Escuta e compreenders!  que ele est noivo de outra e eu no quero que ele desmanche o casamento... No quero! No quero mas sou cobarde, no sei contemplar
a felicidade dela, no sei.
Agora que o drama assumia propores infinitamente mais reduzidas, Gonalo acalmava. Se no passava daquilo, no teria demasiada importncia. Clarinha, to nobre
de carcter, deixar-se-ia curar.
Observou ento:
- Sendo assim, amiga, bastar que te domines e esqueas quem porventura nem tornars a ver!
- Julgas isso? Julgas isso porque eu no te disse tudo! E no sabes dar valor a este suplcio de se querer tanto, tanto, a algum que sempre
- h-de viver longe e perto de ns. Eu nem sei explicar! Sei apenas que o dever me destroa!
Soerguendo-se nas almofadas, Gonalo proferiu, com certa indignao:
- Maria Clara, em nome da nossa amizade, ordeno-te que afastes de ti essa imagem que te enlouquece. Promete-me que nunca mais vers esse homem!
- Que nunca mais verei... - e tremia convulsivamente. - Oh, Gonalo... ouve... ouve... Tu no sabes tudo, no sabes! Tu no sabes que ele  o futuro cunhado do Adriano!
- O futuro cunhado do Adriano?
- Percebes agora? Como hei-de fazer para no voltar a

117


encontr-lo? Torna-se inevitvel, mais dia menos dia, em reunies de famlia, em visitas... Como evit-lo? Como desculpar-me se no comparecer?
Recaiu nos almofades a cabea do Cientista e sobre os olhos inquietos desceram as plpebras fatigadas.
O noivado de Adriano! Esse noivado precipitadssimo que no pudera deixar de criticar quando, exuberante, a Me pouco antes lho descrevera; esse noivado que o levava
a criticar o senso do irmo, que de estouvado emergira inconsequente...
E porque desse noivado incrvel resultava o mal da irm, foi contra ele que volveu a zanga.
- O Adriano endoideceu! Comprometer-se com uma pateta que mal conhece...
Mas sucedeu que Maria Clara foi capaz de por instantes se esquecer de si prpria, pedindo:
- No sejas injusto! A Leonor  encantadora e considero-a inteiramente digna de ns... - logo porm voltou ao assunto que a apunhalava: - E depois, no se trata
do caso dele, mas do meu! Suplico-te, Gonalo, suplico-te que me ajudes, que me ds coragem!
Gonalo desejaria talvez um prazo para coordenar impresses. Forado a responder, hesitou.
- Coitadinha de ti!
Mas ela confiava totalmente na fora espiritual do irmo.
- Aconselha-me, Gonalo!
- Ainda que te exija uma obedincia total, se eu entender que da provir a tua libertao?
- Sim, sim! Obedeo! Obedeo com certeza!
- . Antes, quero saber pormenorizadamente tudo o que se passa.
E Maria Clara descreveu quanto lhe enchia crebro e alma. Havia uma espcie de amarga volpia em recordar o passado recente e j desfeito. No tumulto dos sentimentos,
no diminua culpas - se  que as havia! - nem consequncias. No omitiu uma s passagem, nem essa que lhe ressuscitava nos lbios o ardor de um beijo profano.
E sobre a pobre cabecinha desolada baixaram finalmente as mos compadecidas do Mdico. Depois, como se no tivesse escutado coisa alguma e nada houvesse que objectar,
ele disse:
- Maria Clara, considero chegado o momento de iniciares os teus preparativos... Tens a bolsa de estudo  tua espera. Est na hora de partires para Viena.
Percebendo-o de relance, Clarinha gemeu:
- Pois achas...
- Sim e quanto antes, a retemperares-te na tua arte, a aproveitares o galardo que o teu talento mereceu, a resgatares o teu comodismo. Encontrar-te-s mais artista
arrancando da alma as emoes que nela vibram; pors as tuas dores ao servio da inspirao; do teu padecer extrairs o que sublimar a tua obra. s feliz possuindo
um tamanho refgio! - falava devagar, imprimindo a cada palavra o vigor que devia inscrev-la na alma espelhada nas pupilas que o fixavam. - Irs assim que tiveres
tudo em ordem. Vivers entregue a ti prpria, reeducando a tua fora de vontade. Para o teu trabalho chamars a ti todas as tuas energias, todas as tuas foras,
to precisas para te firmares na difcil carreira. E de tanto pensar em quanto te exige, esquecer-te-s de ti prpria!
Calou-se. Compreendia o sofrimento dessa que tanto merecia ser ditosa e por quem ele tudo faria. Mas uma vez que o Destino queria sacrific-la, ao menos lutaria
com ela, ajudando-a a libertar-se da temerosa loucura. E, no futuro, melhores dias surgiriam!
Clarinha sentia estrebuchar em si a derradeira cobardia essa recndita esperana de que, enquanto andasse l por longe, tudo viesse a
consertar-se...
Venceu-a num impulso de libertao. Sim, partiria, partiria imediatamente. Precisava de vencer, precisava de ser capaz de vencer!
E aderiu.
- Sim, Gonalo, eu vou... com alegria... e f... e nimo... vou!
- - mas ele no distinguiu as palavras. Tinham sido proferidas num soluo.

118


XXI

Era a primeira entrada oficial em casa dos futuros sogros.
O convite havia sido feito para jantar e a Maria Clara no seria permitido esquivar-se  cerimnia que devia reuni-los. Nunca o Pai lhe aceitaria qualquer pretexto,
por melhor rebuscado. E o olhar do irmo mais velho, que lhe lia na alma a fraqueza, volver-se-ia severo e hostil se a reconhecesse trnsfuga.

119


Apelando para todas as suas foras, resignara-se.
Mas como tudo lhe custava agora, na casa da sua meninice que se lhe volvia estranha porque a no adivinhava!...
Criara-se para ela um ambiente difcil desde que anunciara a sua deciso de partir para a ustria em aproveitamento da bolsa de estudo que lhe fora conferida. Havia
sentido o embate violento das reaces contra as quais apenas a sustentava o amparo espiritual de Gonalo. A Me, que sempre desaprovara a ideia (no fundo da alma
era contrafeita que Helena aceitava a exigncia da profisso que ia levar-lhe a filha para um mundo em que ela no estaria presente), diante da sua inadivel concretizao
confinava-se num ressentimento que entre ambas abria barreiras de indiferena, sem dvida aparente mas nem por isso menos dolorosa.
O Pai, naturalmente mais compreensivo, curvava a cabea sem uma palavra. E face a essa atitude silenciosa de conformao, Clarinha voltaria a adiar a sua partida
se Gonalo no corresse a apoi-la, a encoraj-la, asseverando aos Pais que velhos e estafados preconceitos no podiam tolher nenhuma carreira e muito menos a que
imporia uma vocao como a de Clara voracima - to autntica que no havia hipteses de a guardar em egosmos.
E o Pintor resignara-se. Helena, porm, sofrera um rude golpe na sua autoridade e no se rendia.
Pelo que, chorando s escondidas, mostrava um semblante carregado de censuras e to distante que a filha mal ousava beijar-lhe a fronte. E isto quando ela tanto
precisava de se lhe lanar nos braos
explicando-lhe o que se passava e a urgncia de cumprir o prprio destino para no sofrer ainda mais!
Adriano, esse, pensando s na futura mulher mas desleixando esta pelos treinos para o grandioso Festival de Aeronutica em que decidira tomar parte antes do casamento
(to ambicioso de mais glria nos louvores dos estranhos que se alheava das splicas da noiva que debalde lhe pedia renncia  carreira temida), limitara-se a dar-lhe
os parabns pela deciso que, afirmava, lhe abriria de par em par as portas da celebridade mundial.
Tudo para Maria Clara se tornava doloroso. De facto, noutra ocasio muitos dos pormenores que a feriam talvez lhe passassem despercebidos. Talvez at lhes achasse
graa. Mas na situao actual s sabia penar. Atravessava um perodo terrvel. E, para lograr coragem, refugiava-se no gabinete

120


do Cientista que a animava e lhe incutia f no porvir, convencendo-a a suportar todos os embates de maneira a chegar at ali...
At ali.
E, lembrando-o, mais uma vez se encheu de energia.
No podia ficar mais tempo encostada quela porta, arriscando-se a que a julgassem espiando, ela, que s pretendia cobrar as foras que lhe haviam faltado ao ouvir
"as vozes alegres que se aproximavam. Passou a mo pelos olhos, ajeitou o cinto vermelho do vestido negro, nico pormenor que realava o trajo severo, e entrou na
sala resplandecente, com a luz dos candelabros todos acesos a nimb-la de chofre numa claridade que na figura sombria fazia sobressair a massa fulva dos cabelos.
E era impressionante a sua figura de total fragilidade e total altivez. Porque de sbito, Maria Clara foi capaz de pisar o cho com a segurana do dever cumprido.
Foi saudada com amabilidade e a todos retribuiu sem perturbao.
Duarte no estava.  ltima hora, inventara algo que o impedira de aparecer.
Maria Clara compreendera-lhe a delicadeza e, mentalmente, agradeceu-lha. Muito embora fosse terrivelmente difcil pensar que talvez nunca mais o visse...
Aps as primeiras efuses, Gonalo, plido e srio, aproximou-se dela. Seria talvez para a amparar. Mas, num tom de orgulho e elevao, dizendo - como que para obrigar
todos os presentes a admir-la e a respeit-la:
- Eis a Artista que vai encher de glria o nome da famlia
Porque lhe adivinhara a inteno de vencer quem ousasse desafi-la, Clarinha fitou-o, balbuciando:
- Oh, Gonalo!... Que exagero!
Um significativo sorriso pairava nos lbios do irmo, que prosseguia:
- Vieste a tempo de satisfazer a curiosidade dos nossos amigos e vais responder tu prpria s perguntas que me foram dirigidas. No quis
- tirar-te esse gosto.
- Nesse caso, que desejam saber? - e inquiriu-o com simplicidade, o olhar suportando o acerado olhar de Florncia.
Logo volbil se fez ouvir, com gestos largos, j a pretender

121


captar as atenes do Mdico, Fausta Irene, alardeando uma intimidade inexistente:
- Ouvimos na Rdio e lemos nos Jornais que a Maria Clara parte brevemente para o estrangeiro...  exacto?
- ! - confirmou.
- E demora-se?
- Demoro-me.
Fausta bateu palmas, ostensivamente.
- Que maravilha! Viver em terras de gente! Quem me dera! - e no jeito de todos os que mal ouvem falar nos pases alheios logo apetecem o que geralmente desdenham
nos prprios - H-de trazer-me umas encomendas, sim? Eu estou capaz de morrer de inveja! O que vai divertir-se!
com mal disfarado azedume, retorquiu-lhe Gonalo, a quem aquelas manobras repugnavam:
- A Clarinha no vai divertir-se, vai trabalhar!
- E ela, afectadamente, de olhos em alvo:
- E enriquecer!
- Pelo menos conquistar a sua independncia e ser Algum! Nem a toda a gente  concedido um futuro assim esplendoroso.
Fora to explcita a censura que Maria Clara no pde deixar de sorrir ao ver Fausta Irene corar, atingida em cheio pelo castigo.
Azeda, ergueu-se a voz de Florncia, intimamente despeitada contra os xitos dessa que responsabilizava pela flagrante desero do noivo.
- Nesse caso, a Maria Clara no assiste nem ao casamento da Leonor nem ao meu... - e a inteno da frase s a alvejada podia entend-la, julgava ela.
Fugaz desvairamento perpassou nas pupilas de Clarinha. Fugaz porque a presso do brao de Gonalo imediatamente lhe restituiu a presena de esprito graas  qual
respondeu com naturalidade:
- Ao de meu irmo, de certeza no. Parto um ms antes. Ao seu, ignoro. Casa antes ou depois?
A outra encolheu os ombros, petulante.
- Ainda no sei. Mas o Duarte anda ansioso pelo nosso dia! - e esticava o rosto, no intuito de acentuar a vingana.
Gonalo sentiu mpetos de a esbofetear. Acalmou-o uma interveno inesperada.
Leonor, que at a parecia atenta ao entusiasmo do noivo

122


descrevendo proezas aeronuticas, refutava j a afirmao da irm.
- Duarte, ansioso? Imagina! Ele nem fala nisso! - e numa instintiva necessidade de repor as coisas nos seus devidos lugares: - O Duarte  um noivo muito esquisito.
Foge da nossa casa como se fosse a de um pestfero... e quando entra mostra uma destas pressas em sair!... - e voltada para o Aviador: - Eu no suportava semelhante
coisa, Adriano! Quando tu me trocas pelos teus motores e pelas tuas asas, fico to triste! Que faria se fosses como ele! Morria de desgosto! No... at nem morria!
Convencia-me de que no gostavas de mim e preferia no casar a forar-te a promessas que se transformassem para ti numa priso!
Face  nobre concepo da rapariguinha brilharam de franco entusiasmo os olhos de Gonalo, satisfeito ao ver Florncia morder os lbios, raivosa. Isto enquanto Maria
Clara, a louca Maria Clara, vibrante de uma ventura feita da embriaguez da alma que para a renncia leva o tesoiro de uma certeza balsmica, se o brao dele a no
sustivesse, talvez corresse a abraar-se a Leonor gritando-lhe a sua gratido por essas palavras que iam ajud-la a suportar o exlio.
Agora podia acreditar que Duarte gostava dela com verdade... e essa crena aplaudia a sua coragem de fugir!

XXII

Em redor da mesita florida pelas bonitas xcaras de porcelana e enfeitada por bolos variados e apetitosas torradas, sentavam-se dois casais.
Um embevecido, de olhos nos olhos, alagado no amor que o levava para essa regio imaterial onde reina a suprema ventura de se no desejar mais do que se tem...
O outro... como dois estranhos!
As pupilas de Florncia, buscando as de Duarte que indiferentes se perdiam na contemplao das flores azuis do papel que revestia as paredes, brilhavam sim, mas
de furor. No peito da rapariga, diante de tal placidez, crescia uma inteno que no ia permanecer muda durante muito mais tempo.
Na realidade, ela nunca o amara, mas sentia-se agradada pela figura, pelo prestgio desse namorado que sempre se mostrara

123


indulgente para com as suas perrices de rapariga em parte estragada pelos exageros da prpria educao.
Agora, face a esse novo homem, de rosto contrado e expresso distante achava-se como que na frente de um belo desconhecido que debalde tentaria conquistar. E a
noo do fracasso dos seus planos magoava-lhe, no a alma, mas o orgulho, enquanto a felicidade da irm a aguilhoava. Face ao contraste, odiava aquele abandono,
aquela confiana, aquela ternura que se isolava e arrebatava.
Nesse instante, considerando Adriano caricato, almejava que Duarte o imitasse...
Dantes, seria bem possvel! Agora!... Oh, agora!
E pensar que fora ela quem, no desejo de gozar a prpria independncia durante mais algum tempo, expusera a Duarte a sua vontade de retardar a por uns dois anos
o casamento! E ele acedera sem relutncia. E ela sem perceber que essa adeso talvez j significasse pouco interesse por ela. Fossem l dizer a Adriano que esperasse
mais um ms!...
O seu amor-prprio sofria. Sofria ainda mais por saber que Duarte lhe fugia seduzido agora por outra imagem! E decidia- no! No o perderia. No cairia no ridculo
da noiva desdenhada, conquanto bem compreendesse a puerilidade da ameaa por ela dirigida a Maria Clara, a essa ideal Maria Clara que ia partir para longe, que no
tentava disputar-lhe o homem amado, tornando-se assim ainda mais poderosa com a sua aurola de dignidade!
Como se chegara quela situao? No podia sab-lo, no podia
suspeit-lo... porque nada vira, nada observara. Reconhecia apenas que ele pensava na que ia ausentar-se e talvez coisa alguma continuasse a ret-lo junto de si...
Que fazer? Como agir?
Se ao menos pudesse suplantar a outra, tornando-se desejada... Mas desperdiara tempo demais com leviandadezinhas, com provocaezinhas e... e nenhuma ateno prestada
ao seu papel futuro!
De cabea inclinada, meditativa, viu a servial retirar a mesinha do ch, deixando-os de novo ss na penumbra discreta do aposento.
Intensa fadiga lhe descia agora pelos nervos, acabando de perturb-la. Quisera, na quebreira intensa, reclinar-se em dois braos amorosos... E... e porque no?

124


Devagarinho, foi apoiar o rosto no ombro de Duarte, erguendo a mo para acarici-lo.
E, arrancado  teimosa observao das flores do papel, ele
sobressaltou-se tentando repeli-la num movimento impulsivo.
Atingida em cheio pelo gesto eloquente, Florncia apenas semi-cerrou as plpebras. Mas toda a momentnea fraqueza passara. Estava senhora de si e da ambio cada
vez mais forte de recuper-lo. E no se afastou dele um milmetro.
- Duarte... ser possvel que j no gostes de mim nem um bocadinho?
Ele crispava os maxilares. Pois como ousava ela semelhante pergunta sabendo tudo o que lhe ia na alma? Como se obstinava num desgnio impossvel, recusando-se a
devolver essa palavra que ele no ousava quebrar com grosseria porque sempre fora um homem de carcter?
Florncia continuava na posio assumida, sem ligar ao olhar turvo que a envolvia.
E foi essa atitude de aparente meiguice que obrigou os outros dois a baixarem do seu voo pelas esferas do sonho.
Arredondaram-se os olhos de Leonor e sorriu divertida a boca de Adriano.
Percebendo-se contemplada (talvez troada), Florncia corrigiu a posio, com grande alvio de Duarte, que se endireitou na cadeira passando a mo pela fronte, a
repelir o nevoeiro que lhe toldava a clarividncia.
Ento, para quebrar o mal-estar que a todos invadia sem que bem soubessem porqu, Florncia, entre agreste e escarninha, comentou:
- 'Que silncio! Isto parece uma velada de defuntos!...
Leonor, que era um nadinha supersticiosa, ouvindo essas palavras que ecoavam singularmente no ambiente de facto pesado, arrepiou-se.
- Cala-te! Olha para o que havia de dar-te!
- A mais velha no a poupou.
- No te assustes, que no sou agoirenta. Deus me livre de perturbar a tua ventura dizendo-te que no  prprio estar assim agarrada ao noivo...
Leonor protestou.
- Porqu? Tem algum mal? E que tivesse! Preciso de o sentir bem perto de mim, porque daqui a bocado j me deixa para ir voar... - e lamentosa: - Comeam hoje os
voos nocturnos de treino... No gosto nada!

125


Flor no se comoveu.
- Deixa-o ir! Os homens gostam de andar nas nuvens. No vs o Duarte? Durante a tarde no se dignou descer da peregrinao pelas alturas! D cabo da pacincia a
um santo!
Duarte encolheu os ombros mas, sentindo pesar nele o olhar de Adriano, um tanto investigador, sofreu como que uma violenta fustigadela. E decidiu arrostar com a
ira de Florncia no fosse esta acus-lo... sabia l de qu?
E exclamou:
- Nem sempre se anda com vontade de rir!
- Podias no rir mas dar f da minha existncia...
Pressentindo borrasca, Leonor e Adriano calaram-se, fugindo  tentao de tomar em partido.
E Duarte sentia-se prestes a explodir!
Aquela situao prolongara-se demais, tornava-se intolervel e reconhecia que ia resolv-la a bem ou a mal, rompendo com tudo de um momento para o outro. Dominara-o
at ali a inteno de se portar correctamente. Como, porm, continuar suportando essa rapariga que, fugindo a toda a prudncia, no o poupava a aluses? Quando devia
calar-se, reduzir-se, para no o afrontar...
Ps-se de p, aproximou-se da janela e, de repente, sentiu na nuca a respirao de Florncia. No se voltou. Ficou ouvindo.
- Duarte... palavra que no compreendo a tua indiferena... - e falava cnscia de estar jogando a ltima cartada. - Nenhum homem trata assim aquela que se destina
a ser a sua futura companheira.
Dentro das algibeiras das calas, ele cerrava os punhos.
- Lastimo no saber desempenhar a teu gosto o meu papel.
- Que no te desagradaria se estivesse no meu lugar outra mais semelhante no temperamento s doidices do Adriano!
Fora drstica. Duarte, rodando nos calcanhares, encarou-a de pupilas fuzilantes.
Mas antes que ele proferisse qualquer palavra, soou, desta vez irritada, a voz de Adriano.
- Menina... toma cuidado com a lngua! Ests a ser indelicada para a tua irm e para mim!
Rispidamente, Duarte esclareceu:
- O despeito cega-a!
Extremamente plida, de cabea perdida, Florncia sibilou:
- Idiota! Julgas que preciso de ti para alguma coisa? Julgas? Ignoras os que me seguem, os que dirigem galanteios, os

126


que afirmam amar-me? Quantos homens me admiram e cobiam, mendigando a esmola da minha ateno? Um, dois? Dezenas, meu rico, os que eu quiser! - e no auge da exaltao,
gargalhou: - Se eu te deixasse agora, serias substitudo, logo, imediatamente, compreendes?
Defrontavam-se como dois contendores querendo ferir-se de morte.
E tudo se precipitaria.
Leonor, aflita, correu a pendurar-se no brao da irm, mas foi sacudida.
- Oh, mana!... - protestou a rapariguinha, magoada. - Isso no se diz!... Isso no se faz!...
Florncia desvairava, na fria do desaire.
- Fao e digo o que me apetece! Ouves bem, Duarte O que me apetece!
Nas pupilas de Duarte luzia j a chama da libertao. Ah, sim, agora que tinha um pretexto, daria o ltimo arranco! E esse seria breve e at silencioso. Mas definitivo.
Pelo que, voltando costas, saiu porta fora.
E Adriano veria a inacreditvel cena reviver no olhar de Maria Clara, ao narr-la estouvadamente, com a pormenorizao do egosta, se no estivesse a pensar somente
em si e nos xitos da aventura que o esperava...

Xxiii

A chuva molinhenta principiara a cair, espalhando cinza na tarde que breve seria noite fechada.
Volveu para o meio da casa, acendeu a luz e relanceou em derredor o olhar vago.
Sobre a secretria, cintado ainda, o Jornal do dia. Nem sequer o lera. Para qu? As notcias de sempre, qui cheias de interesse para muitos, para ele vazias de
sentido. E depois, que lhe importavam as tragdias do mundo, se se debatia na da prpria existncia?
Sentou-se  escrevaninha, mos primeiro inertes depois erguidas para a cabea, a servirem-lhe de apoio.
No crebro, um turbilho de pensamentos, tantos que lhe era impossvel seguir um, firmar-se nele, desenvolv-lo.

127


 Poisava o olhar num montinho de cartas, todas fechadas, junto do tinteiro. Tinham chegado diariamente, uma aps outra, e no abrira nenhuma, at que cessaram. E
deixara-as tal qual. Para qu mexer-lhes? Adivinhava o que traziam dentro aps essa de rompimento que escrevera, finalmente encontrada a razo - grande para qualquer,
enorme para ele.
No desconhecia que Florncia se dizia arrependida. Mas nem lhe interessava perdoar nem deixar de perdoar. No a queria- era tudo!
Agora ningum podia acus-lo. Havia testemunhas dos seus motivos e tinha a conscincia tranquila. Em semelhante emergncia nenhum homem digno reagiria diversamente!
Mas... para que lhe servia a liberdade reconquistada, sim, para qu? Sabia que ela, a bem-amada, no desceria do pedestal, no aceitaria a ruptura, no quereria
entrar na sua vida aps tudo quanto sucedera. Maria Clara era forte e persistente e o orgulho da sua alma bem formada no se coadunaria com as censuras que a noiva
repudiada podia dirigir-lhe. Assim, como alegrar-se de poder agora dispor de si? Ah! Se tivesse acontecido mais cedo!... Impulsionada por branda mo, a porta abriu-se
e a figura da Me, sempre meiga e plida, avanou no escritrio.
- Duarte... no vens jantar?
- Abanou a cabea - que no!
Havia dor e ansiedade nas faces da velha senhora; distinguia-as sem a olhar. Mas nem coragem possua para tranquiliz-la de to cheio do desnimo gerado na realidade
de no achar soluo para tudo aquilo!
Aparecera-lhe como refgio partir, partir para muito longe, para onde pudesse esquecer-se de que encontrara a mulher que julgara loucura idealizar, a mulher que
amara como nunca supusera que fosse possvel amar e tivera de perder - sem ningum ser verdadeiramente culpado!
Compassiva e terna, a Me, falou de novo sem poder calar a inquietao.
- Que tens, filho?
Ergueu os olhos para a companheira estremecida, a carinhosa protectora da sua infncia, a explicadora dos seus estudos, a sua santa Mezinha- como tantas vezes lhe
chamava num impulso de sincero fervor. Hesitou. E se... se como dantes, garoto rebelde ou vtima de injustias, lhe pedisse conselho e opinio Tanta vez escutara
palavras de incitamento e amparo!

128


"Cumpre, cumpre durante as tuas obrigaes! Quando cumprimos as nossas obrigaes seguimos pelo caminho que maior nmero de benefcios pode acarretar para os que
nos cercam, embora a ns possa tirar alegrias..."
Recordava-o... ou ouvira-o?... No sabia diz-lo! Sabia apenas que a Me, como a prpria Maria Clara, lhe apontaria a renncia.
E isso no, isso no! Que no lhe falassem mais do que hoje no compreendia - o sacrifcio prprio no respeito aos indiferentes!
E, bruscamente, repeliu a suave presso das mos maternas.
- Deixe-me, por favor. Deixe-me!
Tomou-o um imediato remorso ao v-la sair, dolorida e silenciosa. E, no auge do nervosismo, sem perceber como agir, levantou-se, rodeou a secretria, parou e depois,
num gesto maquinal, agarrou num Jornal, desdobrou-o, folheou-o. E saltou-lhe  vista, na terceira pgina, um perfil encantador.
Sem que a sua vontade entrasse em aco, leu:
Parte amanh para o estrangeiro a afamada pianista Clara voracima...
Parte amanh... O resto no importava. Partia amanh... Amanh!... Amanh, da a horas! Dentro de pouco tempo. Dentro de pouco tempo Maria Clara seguiria para longe,
para muito longe, para onde a glria seria maior do que a saudade...
Ah, mas ele no queria! Ele no consentiria em tal!
Que se fosse, mas que soubesse que ele no estava na disposio de
perd-la, que soubesse que ele defenderia a sua ventura, que soubesse como ele se revoltava de a saber distante, talvez diante de um novo amor e novas esperanas,
quando ele tinha o direito de construir a felicidade de ambos!
Tudo experimentava. Clera, raiva, cime, dor e desespero. Alucinava!
Quisera ir ao encontro dela, dar-lhe ordens, domin-la, impor-lhe a sua lei. Encerr-la numa casa, escond-la de olhos profanos, convenc-la de que nada subsiste
face aos direitos do homem totalmente apaixonado.
Deu meia-volta, impetuoso. O telefone... O telefone ali  beira dele para a derradeira tentativa. O telefone que talvez tivesse o poder de a persuadir com o ltimo
apelo...
Folheou a lista, a relembrar o nmero. Depois, nervosamente, discou-o.
Agudo, sarcstico, agrediu-lhe os tmpanos o sinal de impedido. Bateu o p, furioso. Um minuto de atraso parecia-lhe

129


irremedivel, E repetiu a marcao, duas, trs, cinco, dez, vinte vezes. Devia ser Adriano a namorar!...
S meia-hora mais tarde uma voz masculina atendeu e era realmente a do Aviador. Ele no se escondeu - declinou a identidade, pediu-lhe que chamasse a irm.
Decorreram segundos, longos como de agonia.
Adivinhava (desejava! correndo ao aparelho uma Clarinha plida, arquejante... Mas foi um timbre sereno que indagou:
- Quem fala?
- Clarinha?
- Sim.
Clarinha ficou a escutar dentro de si o eco da afirmativa escusada. Reconhecera-a to bem! E balbuciou, julgando intil dizer o seu nome:
- Sou eu!
Nada atraioou o pulsar do corao feminino que se fechava em mgoa e protesto maiores do que a doura de escut-lo.
Para qu? Para que lhe falava ele? Para aps um desnecessrio dilogo lhe deixar na boca o fel das palavras inteis, das palavras que s lhe fariam mal?
Mas, porque  fora de sofrer aprendera a dominar-se, no deixaria que a comoo se evidenciasse, permitindo-se firmeza na rplica banal (tentativa de evitar pela
indiferena o que ia ser doloroso para ambos) que o feriu e no logrou efeito.
- 'Que deseja, Zzere?
Ele, mais fraco do que ela, no sustinha a dor que lhe tumultuava no peito.
- Clarinha,  tudo quanto tem para dizer neste momento?
- Ela obstinava-se.
- No compreendo!
- Compreende, sim! - e o seu apelo vibrava num frmito desvairado. - Sei que parte amanh... e no posso acreditar! Diga-me que  mentira. Diga-me que  mentira,
por favor!
A despeito da vontade tensa, Clarita sentia-se afundar. Mas conseguiu resistir.
- Parto sim. De manh cedo.
- No, Maria Clara! - e havia exigncia na splica. - No destrua o nosso futuro! Acabou tudo o que parecia separar-nos...
Foi interrompido, quase com secura.
- Engana-se. Tudo subsiste.

130


- No, no! Maria Clara! Fique... ou prometa voltar para mim!
- De forma alguma. - e com nobre coragem, encadeou: - No vale a pena insistir, torna-se cruel para ambos. No abandono a minha deciso.  irrevogvel.
- Mas...
- Oia! - e incitada pela ideia que a animava: - No pense mais em mim...
- Clara, no posso viver sem o seu amor!
- Est a desvairar.
- Assim lhe sou indiferente?... O eu ser infeliz nada lhe importa?
A injustia da suspeio revoltou-a e pondo a alma a descoberto, retorquiu:
- Sabe perfeitamente que a palavra ventura foi riscada do meu futuro depois que o conheci.
- Clarinha...
- Adeus... Duarte!
- Clara! D-me uma esperana! No pode haver nada que a faa regressar para ser minha mulher?
- Nada, nada! - e com a mais extraordinria entonao de renncia: - Siga o seu destino que eu terei foras para seguir o meu! - e cortou a ligao.
Fora uma atitude grandiosa... mas dos seus olhos corriam lgrimas em fio!
Ento Gonalo, que a seguira e tudo escutara, ofereceu-lhe o resguardo dos braos abertos. E afagando-a comovido, aplaudiu-a.
- Procedeste bem, irmzinha!
Ela acenou que sim, mas no lhe ocultou o ntimo desalento.
- ... mas no fui sincera! E se tu soubesses quanto sofro... Vejo tudo negro  minha volta!
E inesperadamente, com ardor concentrado, a voz mscula ciciou-lhe ao ouvido:
Eu sei, Clarinha. Porque tambm sei o que  amar sem
esperana.
Como? Ele tambm? Impulsionada pela surpresa, fitou o irmo e... e ao encontrarem-se-lhes os olhos mais no foi preciso para Maria Clara entender o que parecia inverosmil
e to inesperadamente sucedera. E tornando a poisar a cabea no peito amigo, chorou por ambos.

131


xxiv

As ovaes estrugiam ainda, clamorosas, entusisticas, fazendo curvar a graciosa Pianista cujo talento arrebatara a assistncia nesse primeiro Concerto que apresentava
ao pblico a Artista portuguesa.
O belo salo regurgitava.
Mestres e alunos tornavam-se ferventes admiradores dessa rapariguinha que logo de incio soubera maravilh-los e agora os arrebatava como sensacional intrprete
de Haydn, de Mozart e de Bach, essa rapariguinha que sabia comunicar s portentosas criaes dos mestres a riqueza inesgotvel da sua sensibilidade, a qual lhe permitia
a execuo to pura quo profunda de todas essas obras-primas.
No final do Concerto, extra-programa, Clara voracima Clar Ivrrcim, como rumorejavam pelo salo) vira-se ainda obrigada a executar peas nacionais de Viana da
Mota e Hernni Torres, finalizando com a Rapsdia Portuguesa, do segundo, to magnificente nessa exuberncia caracterstica das nossas canes e da nossa alegria
sentimental, que a sala, de p, numa apoteose - no so os estrangeiros avaros de premiar quem sabe cativ-los - manifestava o seu agrado e a sua adeso.
Nostalgia, arroubo, mocidade, ternura, na fulgurante gama das sonoridades, haviam-se evolado da alma da jovem para os ouvidos dos deslumbrados onde se diria que
para sempre ficariam retidos.
E essa noite de glria em terra alheia trazia-lhe  mente, numa saudade viva, a recordao de outros festivais, quando, findas as palmas dos assistentes, ia receber
ovaes menos vibrantes mas no menos sinceras nos abraos dos Pais, dos irmos, dos amigos...
Agora, quantos lhe eram queridos estavam longe. E os Pais
- a Me, especialmente, - recalcando as lgrimas por essa filha que alcunhava de ingrata, essa filha cuja partida a deixara mergulhada em pesar... e ela bem o sabia!
Estavam todos longe e conformados. At o Gonalo, esse Gonalo que seguia a par e passo o evoluir do seu destino e achava que no havia para ela nenhuma outra situao
possvel. At o querido Adriano, apaixonado em demasia para perder tempo a recordar a irm ausente.

132


E ao outro... ao outro... que centrava toda a sua melancolia... quanto o desejaria ali, diante dela, a aplaudi-la com os olhos e os braos  espera da felicidade
num amor sem fim!
To intensa foi a evaso do seu esprito que gemeu, ainda inclinada sob os aplausos que no findavam mais:
- Meu Deus... para qu este triunfo se no tenho a quem o ofertar? Ah! Se me fosse dado fazer um sacrifcio, o maior dos sacrifcios que pudesse ser-me imposto,
para merecer depois a suprema ventura!
Voto inconsciente da alma enlouquecida, que terrvel ia ser o seu cumprimento no holocausto proposto!...
Principiava a serenar a multido e, da porta, um chamamento
- Fralein...
Olhou. Um Porteiro acenava-lhe com um papel dobrado.
Um papel dobrado. Um telegrama!
Quem se teria lembrado dela? Quem lhe desejaria xito ou visionando-o a felicitaria?
Ento, num repente, sob os olhares enternecidos dos admiradores que acorriam a felicit-la e do prprio Director que vinha dar-lhe os parabns, abriu o telegrama.
Fez-se terrivelmente plida... e nos peitos solcitos que se aproximavam para a amparar, perdendo os sentidos sob a violncia do choque, apenas ciciou:
- No, no, meu Deus! Isto no!

XXV

Cingiu-a convulsivamente e entre soluos e lgrimas em fio pediu-lhe que no chorasse mais, que tivesse coragem. E pedindo-lhe que no chorasse e tivesse coragem
tremia e soluava. Oh, que horror! Que pesadelo medonho, de que no acordava!
A partida, o avio que passava entre nuvens e parecia quieto e nunca mais chegava; a entrada em casa; o atade negro coberto pela bandeira de honra; os gritos, os
gemidos e o pranto. E a Me, agarrada a ela numa aflio sem limites. E o Pai, apertando-lhe as mos com as mos geladas. E a certeza de nunca, nunca mais o ver!
- Adriano!
Adriano, o moo belo, atltico, caprichoso, estouvado e to amado, para sempre jazia inerte, despedaado na bruteza do


133


choque com a terra desse avio que se despenhara l de cima ningum sabia porqu!
- Adriano! Adriano!
Ai, quo excessivo o preo feito ao regresso da pobre torturada! Um preo que ela no aceitaria nunca! O irmo estremecido! Ele!... Inconsciente, leviano, ingrato,
era o companheiro de tantos alegres sorrisos, de tantas infantis amarguras... Adriano!
E no parava de chorar, pedindo  noivinha desbotada como flor murcha que no chorasse mais!
Discretamente, sem coragem, sem energias, agora que para sempre Adriano, vtima das suas ambies e das suas audcias, jazia no frio sepulcro que o Pai mandara h
anos edificar, insuspeitoso de que um filho iria ser dele o primeiro habitante, Gonalo afastara-se, levando na alma, alm do seu desgosto enorme! o desgosto de
ver entregue  dor sem linite a mulher para quem sonhara a ventura ideal...
Leonor. Essa Leonor que tivera o condo - como se de facto o Amor andasse no ar a transtornar caprichosamente as almas e a tecer fios invisveis contra todas as
determinaes de lhe iluminar o corao...
Mas como lembrar-se de jbilo perante a clareira aberta, se a liberdade dela representava a perda do irmo indulgentemente adorado? E se essa mesma liberdade a cruciava?
Esperar que a mgoa sarasse? Nem sequer lhe passava pela ideia!
Tambm a Gonalo o Destino, com os seus desgnios que encaminham as vidas em ritmos insondveis, alanceava no intenso drama afectivo.
E a mo delgada de Maria Clara no parava de afagar os cabelos anelados da que j no seria sua irmzinha.
- Vamos, querida... Tem resignao! Deus no o quis na terra, chamou-o para si, no devemos desesperar-nos! Rezemos pela sua eterna paz.
Os dedos de Leonor crispavam-se no colo que a acolhia como nenhum, mais compassivo talvez porque mais sofredor. E o seu esprito abria-se para esse outro ao qual,
no minuto da suprema angstia, se sentira presa por indissolvel lao de afecto, brotando da intensa comunho de sentimentos.
- Oh, Clarinha... - soluava. - No posso, no posso!  horrvel! No foi Deus, no! Foi ele! Tanto lhe pedi que no entrasse naquilo... que ficasse ao p de mim...
Tanto desejei que no voasse mais!... E ele teimou... Oh, Clarinha! Foi

134


assim que o perdi! E porqu? Porqu aquele desastre brutal? Horas antes estava ao meu lado... e saiu risonho, animado, a gracejar... No, no posso! Se ao menos
a morte me levasse tambm!
Maria Clara tapou-lhe a boca. - Isso no se diz, Leonor!
- Sofro tanto!
- "Tambm eu, querida, e no me revolto dessa maneira! Tu perdeste o noivo, eu fiquei sem um irmo...
- No  a mesma coisa! No, no ! - e na sua dor imensa, protestou: - No compares... No sabes o que  este pavor de ter perdido aquele que era o futuro, que era
a esperana. Aquele por quem se aceitam rindo agonias e dores!... Eu... eu agora no sei viver!
De si para si, abismada pela revelao do que apesar de tudo no suspeitara to profundo, pensava - "Senhor... que dedicao espantosa! Que alma capaz das maiores
renncias em defesa do seu amor!" - e pedindo perdo mentalmente  sombra fugidia - "Seria Adriano digno de um to grande afecto? Saberia ele guard-lo No o despedaaria,
levianamente, ao longo da vida? No o desprezaria? Acaso ele a amava espiritualmente... ou somente enfeitiado pela beleza passageira?"
Das reflexes ntimas, justas e clarividentes, arrancou-a Leonor numa enorme queixa.
- No me compreendes, Clarinha! E no porque ainda no encontraste o homem que te acompanhar na existncia! Perdeste um irmo, que no te faz falta para a tua prpria
ventura. Mas eu No vs que tudo acabou para mim?
Na sua revolta, sem tal pressentir, Leonor ferira duramente a que procurava confort-la.
E ento, disposta a sacrificar-se por ela e a incutir-lhe resignao sem destruir a imagem idolatrada, Clarinha sussurrou, implorativa:
- Leonor... no fales assim, peo-te! s muito nova, nada conheces da vida... no sabes se deves amaldioar ou venerar a mo da Providncia. Ningum sabe! A vontade
de Deus escapa muitas vezes ao nosso entendimento de egostas. Podes lamentar-te e lamentar o que perdeste, mas desesperar... no! Lembra-te de que fizeste tudo
para impedir que ele partisse para sempre! Tranquiliza a tua conscincia na certeza de que ele morreu feliz... E no vejas o teu amanh aniquilado. - e tentando
reagir contra a depresso avassaladora: - Tambm

135


para ti haver o esquecimento da tragdia... e novos sonhos principiaro. As revoltas ficam no passado, porque o tempo adormenta a dor mais viva.
Ulcerada pela recordao das suas iluses desfeitas, falara contudo sem grande convico. E a rplica de Leonor, demasiadamente nova e apaixonada para entender a
sensatez de tais palavras, acabou de alucin-la.
- No... cala-te... Isso no se dar nunca!... Pensas assim porque no sabes o que  o amor! Se soubesses percebias que um amor verdadeiro no pode ser substitudo!
Oh! Tu hs-de ser feliz... mas eu, eu nunca!
- Leonor! - e forando-a a erguer os olhos para ela, segurando-lhe a cabea entre as mos: - No... nunca... eu tambm no!... Sei, sei o que  amar, sim, sem esperana
e sem remdio. Eu sei, Leonor, eu sei! - e dando vazo  torrente desencadeada. - Eu estou condenada a passar ao lado do homem amado vendo-o pertena de outra e
sem poder esquec-lo porque a vida no deixa!... Tu, Leonor, choras o noivo que o tmulo roubou. Eu choro aquele que todos os dias morre para mim e eu no teria
o direito de chorar se morresse... - e soluando: - E agora v... v qual de ns  mais infeliz!...
Ante a confisso, pasmaram os olhos de porcelana, que a febre secava. E a rapariguinha comeou a tremer.
- Clara... Clara... preferias chor-lo... morto?...
Maria Clara j no podia pensar e, completamente desnorteada, vacilou ante o quesito.
- No sei, no sei!  um tormento v-lo ao meu lado como te estou vendo a ti... e recear trair este amor que no consigo dominar... e saber que odeio essa a quem
ele vai conceder a felicidade que eu ambicionava!  pavoroso, sinto que me afundo nesta loucura, sinto que me torno desprezvel... Ai, Leonor!... - e o pranto no
parava.
Leonor contemplava-a como duvidando do que ouvira.
- No... - tartamudeou. - No pode ser como dizes...
- Mas ! - e, num mpeto, acrescentou: - E consome-se-me o corao numa esperana a que no dou guarida porque a considero criminosa e dela a conscincia me castiga...
sem me libertar...
Ento a mozinha de Leonor aferrou-se-lhe no brao.
- 'E eu daria tudo para estar no teu lugar! T-lo vivo embora longe de mim, ou v-lo de quando em quando para ter a suprema dita de saber que Existia e era Feliz!

136


Cessaram, como que por encanto, as lgrimas de Maria Clara, que fitava com singular expresso a cabea dolorida da rapariguinha... to superior a si prpria!...
E compreendendo pela primeira vez que a sua desventura estava longe de pertencer s desventuras csmicas, murmurou:
- Leonor... de uma forma ou de outra,  a vida sem ele!
- E a figurinha negra:
- Sim,  a vida sem ele!... Nada mais conta! - e mais nada acrescentou sob o silncio da que respeitava o transbordar daquele sofrimento que seguia pelo destino
junto ao seu.
Foi quando, inesperadamente, atrs delas soou uma voz familiar e que no entanto pelas entonaes emocionadas lhes pareceu estranha.
- Nenhum corao deve descrer da felicidade e perder a f e perder a esperana. As horas ms no so eternas. No o sero para si, Maria Clara, nem para ti, querida
irmzinha...
Voltaram-se as duas, violentamente surpreendidas. E defrontaram com uma Florncia que trazia no semblante uma profunda gravidade e no olhar uma expresso cheia de
ternura! Uma Florncia desconhecida que para elas avanou at poisar as mos, uma em cada cabea.
E como nenhuma delas falasse, aquela nova Florncia prosseguiu
- Eu no sabia o que era o amor nem o que ele podia fazer sofrer. S o compreendi ao avaliar a dor da minha Leonor. E sujeito-me ao castigo que a minha ignorncia
mereceu. Aceito-o sem protesto. Eu que fui poupada s leis do seu imprio pela minha cegueira, abenoo agora o pesar que me resgata... e s por ele no invejo o
que diviso nos vossos rostos ao advinhar como pode ser grande a ventura que os braos tm o direito de cingir... No invejo, no! Porque me tornei culpada de no
ter sabido guardar o que podia pertencer-me e perdi sem que a minha alma vibrasse. Padecia apenas vaidade e despeito... Quanto a vocs duas, melhores dias viro!
Para ti, Leonor, haver paz e depois futuro. Os mortos nada pedem alm de saudade e tu cumprirs a tua sina de mulher.
- Oh, no! - discordou Leonor.
Mas Florncia dir-se-ia impulsionada por singular viso.
- Sei o que digo. Cada hora tem as suas directrizes marcadas. Hoje choras, amanh sorrirs. A vida  assim. - e voltando-se para Maria Clara: - Quanto a si, Maria
Clara, j nada h que a impea de ser ditosa.

137


Clarinha esboou um gesto, como a mand-la calar, mas Florncia nem sequer permitiu que a interrompesse e continuou, com mais vigor:
- Ouvi tudo o que disse e lamento no haver entendido mais cedo. Desculpe-me! Ouso crer que o seu amor se tenha purificado na luta e no sacrifcio, tornando-se mais
lmpido e mais merecedor de triunfar. Nada a separa desse que ama e tambm no encara a existncia sem voc. - e notando o espanto que alagava os olhos de Clarinha,
frizou: - Sim, podem ser felizes! Eu quero que sejam felizes! Quero-o sinceramente e peo-lhe que me acredite. - e as suas pupilas fixavam lealmente essas outras
onde brilhava uma infinita gratido.
- Oh, Florncia... eu... eu no sei...
- No precisa de saber seno isto, Clara. Sou eu que lhe peo que seja a mulher de Duarte.
Sufocada, Leonor agarrou-se-lhe ao pescoo.
- Qu?... O Duarte?... Ento... era por isso?...
- A irm baixou a cabea.
- Sim, era por isto! Ele foi sincero para mim e eu no queria perceber a fora que os atraa um para o outro! No queria ver que era tarde para mim...
Maria Clara ps-se de p, num sentido repdio.
- Mas eu no aceito, Florncia, eu no aceito... eu no quero que sofra!
- Que eu sofra? - e os seus olhos castanhos nunca tinham sido to belos, iluminados por uma luz que os transfigurava. - Se lhe digo que  essa a minha actual felicidade!
No vai recusar-ma, no?
Recusar-lha? No, no era possvel!
E, num impulso irresistvel, Clarinha cingiu-a num longo abrao. Abraaram-se, as duas. E Leonor contemplava-as boquiaberta, at sentir vontade de dizer o que lhe
ia nascendo no corao. E disse, por fim, estoicamente.
- Clarinha, Deus seja louvado por te poupar a mais sofrimento!
- Alegrar-me-ei, por mim e pelo Adriano, ao ver-te feliz! E nunca mais maldirei a provao que Deus ps como preo  tua ventura...
Preo terrvel, preo que Maria Clara no quereria aceitar... mas contra o qual no havia reclamaes. Achava-se diante de um rumo definido, para cujo traado nada
influra.
Febrilmente, estreitou nas suas as mos das duas irms.

138

- Eu... eu no sei dizer o que sinto... a ti, Leonor... e a si. Flor, to bondosa para mim...
- No, Maria Clara, bondosa no! Eu no sou bondosa... - e num sorriso que realava com estranha graa o rosto sem pintura: - Sou interesseira!  que tambm espero
merecer para a minha irm a proteco divina...
Duas cabeas se poisaram nos ombros dela, cansadas de sofrer.
Cansadas? No! Uma j se endireitava, obedecendo s ordens da Vida, na ressurreio de todos os sonhos.

CONCLUSO

Se o tempo no pra!... Se no pra e no conserva coisa alguma! Se destri e mata e remoa e transforma e cria e aniquila e despedaa e d vida e segundo a segundo
faz correr os sculos!...
Uma sala confortvel, batida pelo quente sol da tarde. Muitos brinquedos pelo cho. Cadeiras estofadas, garridas. E num canto mveis que devem servir a liliputianos...
Noutro canto, um bero onde dorme, de mos gorduchas abandonadas sobre a cambraia do lenol, um homem de amanh, lindo de encantar.
No cho, sentada, uma menina de aproximadamente trs anos, evidenciando semelhanas com a beleza romntica das princesinhas. Cabelos loiros e olhos azuis, uns olhos
enormes, maravilhosos. Uns olhos cheios de inteligncia.
Em frente da pequerrucha, ajoelhada a amim-la e a entret-la, um vulto de rapariga gracioso apesar da severidade do trajar - toda de preto.
Leonor brinca com a afilhada, a Nininha, que completa trs reboludos anitos naquele dia de Primavera, aniversrio tanto mais radioso quanto celebra o quinto do casamento
dos Pais.
Sim, j passou bastante tempo e parece que foi ontem que Maria Clara e Duarte transpuseram o portal da Igreja transbordante do perfume das rosas brancas, to inebriados
que todos

139


os olhos se quedavam a admirar com emoo o parzinho recm-unido.
E j havia ali dois petizes deliciosos... e falava-se num terceiro...
Clara voracima, a Pianista cujo corao se entregara totalmente aos afectos de mulher e de Me, dedilhava agora uma sinfonia maravilhosa na harpa dos esponsais!
Cinco anos!
Cinco anos que essa outra noiva entregue  dor vira passar, afastando cada vez mais a figura insinuante que a arrebatara nos seus dezasseis anos para um amor sem
felicidade; cinco anos que lhe haviam amodorrado as lembranas sem do peito arrancar o pesar.
Mas a vida manda!
E a despeito dos seus sentimentos, Leonor no podia roubar a juventude ao rosto que se tornara mais reflectido na sua pureza, nem fugir ao doce enleio da amizade
que lhe tributavam naquele lar, nem recusar o conforto da suave afeio, protectora e forte, que encontrara no padrinho de Nininha (Adrianinha), esse Gonalo de
olhar sonhador e alma generosa.
Era ali que vinha receber o sol da alegria de que todo o ser verdadeiramente humano necessita para no morrer ao abandono.
No seu lar adensara-se uma nostlgica sombra que no sabia dissipar, ela que fora a nica a ficar para dar luz  velhice dos Pais e no sabia cumprir esse dever...
A casa, dantes to sonora e festiva, jazia taciturna como os carcteres dos donos, desde que o sorriso espontneo voara dos lbios da filha mais nova, desde que
Florncia, em abnegada resoluo, partira a caminho de frica a entregar-se s misses missionrias.
A prpria Fausta Irene, nica que ainda tinha a fora de quebrar a melancolia, apesar de fundamente impressionada com tudo quanto sucedera, havia debandado pelo
brao de um jovem diplomata, aps precipitado casamento, em direco  Amrica, onde realizaria finalmente os seus sonhos de mundanas grandezas.
Sim, no lar desertado restava ela como esteio de derradeiras iluses... Iluses que os Realenga iam confidenciar, em amizade estreitada, aos voracima que, aps
o tremendo golpe, rejuvenesciam para a adorao dos netos.
Cinco anos!...

140


Ai, o tempo implacvel!... Nada poupa, nada respeita... Destri, aniquila, sacrifica... mas tambm cria... Sim, mata  d vida!
E Leonor continua a brincar com Nininha... e riem as duas...
Da porta vem de sbito uma gargalhada cristalina e uma reclamao.
- Olhem a desvergonha! A minha filha daqui a pouco gosta mais da madrinha do que da Me!...
 Maria Clara que entra, radiosa, pelo brao de Duarte, que a cinge com os extremos da paixo que perdura. J Leonor discorda:
- Fazes o favor de no ser egosta?...
- Clarinha dobra-se para ela.
- No, querida, no sou egosta! Eu s quero ver-te feliz! - e abafa um suspiro e muda de tom antes que se humedeam os olhos azuis. - Mas agora tem pacincia. Roubo-te
a Nininha por uma hora.
- Porqu? - insurge-se a madrinha.
- Porque o Duarte vai dar-lhe como prenda de anos todos os brinquedos que lhe apetecerem!... - e sorri. - Uma maluqueira como outra qualquer!
- Pois!... E depois queixam-se porque a estrago com mimos, eu!
Nesse ambiente, a felicidade desanuvia-lhe a alma. O sorriso no abandona os lbios da formosa mam.
- Tu ficas a tomar conta do Antoninho. Ainda preciso de passar pela Emissora por causa do programa do concerto.
- Sempre aceitas?
- Claro!
- e  Duarte que o afirma. Sim, Duarte sabendo que a sua adorada Clarinha no esquecia a Arte que tanto contribura para a entregar ao Amor. Sabendo-o e sempre deliciado
a ouvi-la recolhido, num xtase de admirao e de orgulho...
Maria Clara levanta a filha do cho, entrega-a ao marido e, enquanto ele sai com a criana, inclina-se de novo para Leonor.
- O Gonalo no deve tardar. Ficas tu para receb-lo. - e sem ocultar o desejo sincero que a invade: - Peo-te que oias o que ele tem para te dizer...
Leonor no pode protestar. Clarinha foge, ligeira. E ela fica

141


pensativa, o olhar melanclico poisado no rosto sereno de Antoninho.
Na casa, o rumor da vida quotidiana.
E ela apoia agora a cabea no bercinho onde o pequenino continua adormecido.
De p, enquadrado pelas ombreiras da porta, um vulto masculino desenha-se e permanece, imvel, o olhar comovido afagando a cabea da guardi cujos lbios se descerram
para a terna melopeia de uma cano de embalar.
Ser possvel, Deus do Cu? Haver dias venturosos esperando-os? Deve confiar no que Maria Clara lhe afirma? Ele tambm pode ser feliz, tornando-a feliz?...
Docemente, a voz de Gonalo faz-se ouvir.
- Ests a treinar-te para mam, Leonor?
Volta-se a rapariga, num sobressalto logo dominado pela invencvel amargura com que move a cabea.
- Mam - murmura. - Mas eu nunca o serei!
- Porqu?...
E sem mais nada esperar, vem ajoelhar-se ao lado dela, na confisso que traduz toda a f da sua alma onde cabe um s amor.
- Leonor... h tanto que espero, h tanto que peo a Deus por ti!... - plido, obedecendo a misteriosos desgnios, abre o corao em palavras que no premeditara
e contm extraordinrias vibraes. - Amo-te, Leonor! E sei que involuntariamente o tenho demonstrado! Quando te salvei daquela doena que te acometeu aps... o
desastre, no foi a minha cincia, foi o meu amor! E acima de tudo ambiciono que no julgues criminoso o meu anseio!... No influ no desenrolar dos acontecimentos.
Para os evitar daria o meu sangue, gota a gota! Mas Deus no o quis!... No o quis e quis que eu te estimasse... no como estimo a Maria Clara, mas... Leonor, deixa-me
tentar fazer-te ditosa como sonho!... Deixa-me estreitar-te nos meus braos e dizer-te que  tua a minha vida inteira! No me destruas a esperana!... Temos abordado
juntos tantos assuntos, o nosso entendimento no pode ser mais perfeito... Sei compreender-te... tu s a companheira que um homem como eu deseja alcanar... - e
mais baixo, mais veemente: - Sim, Leonor, tu tens de cumprir a tua misso... no deves tentar
- eximir-te a ela... E Ele mesmo, do alm, h-de abenoar-nos... h-de compreender-nos... Leonor, se no quiseres amar-me, no to exigirei. No te pedirei que o
esqueas, porque tambm sempre

142

o relembrarei. Daremos a um filho nosso o nome dele... Leonor... confia de mim os teus dias!... Aceita o caminho aberto na nossa frente!...
Suspenso, lbios entreabertos, olha-a pleno de tanto respeito como ansiedade.
Ela tenta fugir s pupilas sequiosas, esquivar-se  avalanche enternecedora que lhe pe no corpo estranha lassido e que em derradeira teimosia no quer ouvir...
Ah, mas essa amizade, essa amizade forte a que sabe poder apoiar-se, hoje, sempre... Amizade firme, calma, to diferente!
Sim, h muito que ela aguenta a luta ntima, a luta que no consegue vencer. H muito que o trabalho de reconstruo principiou. H muito que sentira o belo edifcio
erguer-se-lhe no peito. H muito que reconhecera a submisso dominadora de todas as antigas revoltas. E a vontade torna-se impotente para repelir o que l vem. A
vontade muda de direco. E tudo se torna serenidade, confiana, paz...
O silncio que ela mantm arranca dos lbios masculinos um novo apelo, fervoroso.
- Leonor... no recuses!... S razovel!... Acorda dessa nostalgia, suplico-te! Que hei-de dizer-te para te convencer? Eu s te peo que me deixes amar-te... e...
se puderes... que sejas muito minha amiga...
Amiga?... Amiga?
Porque no, meu Deus, porque no? E, de repente, os braos dela erguem-se cingindo, palpitantes, a cabea austera.
- Basta, Gonalo, basta!... A tua causa est ganha. No resisto, no posso... e no tenho remorsos! Do passado resta a saudade e a lembrana. Nada mais quero recordar,
nada mais... Sofri quando era ainda uma garota... agora sou uma mulher... e dou-te a minha existncia. E saberei merecer a tua bondade, porque eu tambm gosto muito
de ti!...
E junto desse bero onde um beb dorme, a Vida junta num s dois coraes dedicados, dois coraes que tinham de se encontrar porque uma vontade mais forte adejava
sobre os seus Destinos.


FIM
